Extração de Dados de Celular Apreendido: Modelo
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PEÇAS PROCESSUAIS – Modelo de Representação por Extração de Dados de Celular Apreendido

Atualizado em 22 de outubro de 2026.

A representação por extração de dados de celular apreendido pede ao juiz autorização para acessar e copiar, por perícia, o conteúdo do aparelho: mensagens, fotos, arquivos e registros. Sem consentimento livre do titular, a ordem judicial é indispensável (Tema 977 do STF), e a prova só se sustenta se a cadeia de custódia for documentada do lacre ao laudo.

Extração de dados de celular apreendido: o que a lei exige

Em uma frase: apreender o celular não exige juiz, mas abrir o celular exige; e o que for extraído só vale como prova se houver ferramenta forense, código hash e registro de cada etapa.

EtapaExigênciaFundamento
Apreensão do aparelhoDispensa ordem judicial (flagrante ou art. 6º do CPP)Tema 977 do STF
Preservação (isolamento, modo avião)Pode ser feita antes da ordemTema 977 do STF
Acesso e extração do conteúdoConsentimento livre do titular ou ordem judicialCF, art. 5º, X e XII; Tema 977
Abertura do lacre e períciaPerito ou pessoa autorizada, com registroCPP, arts. 158-D e 159
Integridade dos dadosFerramenta forense e código hashCPP, arts. 158-A a 158-F

Este post é satélite do guia de representação por afastamento de sigilo telemático. Para a requisição ao perito, depois da autorização, veja o modelo de requisição de exame pericial de extração de dados.

Modelo de representação por extração de dados de celular apreendido

Os nomes, números e fatos do modelo são fictícios. Os números entre colchetes remetem às notas que vêm logo depois.

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA ___ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE ________

Inquérito Policial nº ___/2026
Pedido sigiloso

A Autoridade Policial que esta subscreve, com fundamento no art. 144, § 4º, da Constituição Federal, no art. 2º, § 1º, da Lei nº 12.830/2013 e nos arts. 6º, 158-A a 158-F e 159 do Código de Processo Penal, vem, respeitosamente, REPRESENTAR pela

AUTORIZAÇÃO PARA ACESSO E EXTRAÇÃO DOS DADOS DOS APARELHOS CELULARES APREENDIDOS,

pertencentes ao investigado FULANO DE TAL, qualificado às fls. __, pelos fundamentos a seguir.

I – DOS FATOS

Em __/__/2026, em cumprimento ao mandado de busca e apreensão expedido nos autos nº ______, foram apreendidos na residência do investigado 2 (dois) aparelhos celulares (um iPhone, IMEI ______, e um Android, IMEI ______), além de 300 g de cocaína e uma balança de precisão, conforme o auto de apreensão de fls. __ [1].

Os aparelhos foram colocados em modo avião, acondicionados em embalagens lacradas (lacres nº ______ e ______) e encaminhados à guarda da unidade, com registro na ficha de cadeia de custódia (fls. __). O investigado se recusou a fornecer as senhas, como é seu direito (fls. __) [2].

II – DO DIREITO

a) Reserva de jurisdição. O acesso aos dados do aparelho apreendido exige consentimento livre do titular ou decisão judicial prévia e fundamentada (STF, Tema 977). Sem consentimento, requer-se a autorização judicial.

b) Indícios e utilidade. Há fundados indícios de tráfico de drogas (Lei nº 11.343/2006, art. 33). Os aparelhos podem conter conversas com fornecedores e compradores, registros de pagamentos e fotos da droga, elementos necessários para identificar os demais integrantes da rede [3].

c) Delimitação. A extração se limita aos dados armazenados nos aparelhos. Contas em nuvem vinculadas serão objeto de pedido próprio aos provedores [4].

d) Desbloqueio. Como o investigado não forneceu as senhas, requer-se autorização para que a perícia empregue as técnicas forenses disponíveis e, se necessário, para o desbloqueio por biometria do investigado, sem qualquer violência e sem exigir dele a revelação da senha [5].

III – DOS PEDIDOS

Ante o exposto, ouvido o Ministério Público, a Autoridade Policial representa pela expedição de decisão que autorize:

  1. o acesso e a extração integral dos dados armazenados nos aparelhos e em seus cartões de memória e chips, por perito oficial, com ferramenta forense e geração de código hash [6];
  2. a abertura dos lacres pelo perito, com registro na ficha de acompanhamento e novo lacre ao final (CPP, art. 158-D, §§ 3º e 4º);
  3. o emprego de técnicas forenses de desbloqueio e, subsidiariamente, o desbloqueio por biometria do investigado, vedada a exigência de senha e qualquer forma de violência;
  4. a análise do material extraído pela equipe de investigação, com relatório nos autos;
  5. o compartilhamento do material com investigações conexas, mediante comunicação a este Juízo [7].

[Cidade], __ de ________ de 2026.

________________________
Delegado(a) de Polícia

Notas ao modelo

  • [1] Identifique cada aparelho. Marca, modelo, IMEI e número de lacre. É o que permite provar, depois, que o aparelho periciado é o mesmo apreendido.
  • [2] Isolamento. Modo avião ou embalagem que bloqueia sinal evitam o apagamento remoto. A preservação pode ser feita antes da ordem judicial, conforme o Tema 977.
  • [3] Utilidade. Diga o que se espera encontrar e por quê. A decisão genérica, que autoriza “tudo” sem razão, é a mais atacada pela defesa.
  • [4] Nuvem é outro pedido. O acesso a contas em nuvem pelo aparelho amplia a medida para dados que não estão nele. Se for necessário, peça de forma expressa ou represente aos provedores. Veja o modelo para vários provedores.
  • [5] Biometria e senha. O pedido distingue o uso passivo do corpo (digital, rosto) da revelação da senha, que exigiria do investigado uma conduta ativa contra si. O tema é controvertido; veja as posições abaixo.
  • [6] Ferramenta forense e hash. A extração por simples consulta manual ao aparelho, com fotos de tela, já levou o STJ a declarar a prova inadmissível por quebra da cadeia de custódia.
  • [7] Compartilhamento. Veja o modelo de representação por compartilhamento de provas.

Erros comuns (corrigidos neste modelo)

  • Olhar as conversas do celular na hora da prisão, sem consentimento ou ordem judicial.
  • Fotografar a tela em vez de fazer a extração forense.
  • Deixar o aparelho conectado à rede depois da apreensão.
  • Misturar, na mesma peça, pedidos ao Google sobre e-mails com a extração do aparelho, sem distinguir os fundamentos.
  • Fundamentar a medida em “fumus commissi delicti” e “periculum libertatis”, requisitos das cautelares pessoais, e não na necessidade da prova.

Dispositivos legais aplicáveis

Doutrina e jurisprudência: o que é pacífico e o que é controvertido

Pontos pacíficos

  • Acesso exige ordem ou consentimento: fixado pelo STF no Tema 977, com a ressalva do aparelho encontrado fortuitamente.
  • Integridade da prova digital: cabe ao Estado demonstrar, com ferramenta forense e hash, que os dados não foram alterados.
  • Ninguém é obrigado a fornecer a senha: a recusa decorre do direito ao silêncio e não pode ser interpretada contra o investigado.

Ponto controvertido: o investigado pode ser compelido a desbloquear o aparelho?

1ª posição — biometria sim, senha não. Fundamento: o direito de não produzir prova contra si protege condutas ativas, como falar ou revelar um conhecimento; o uso da digital ou do rosto é prova passiva, como a identificação datiloscópica. Causa: a senha está na mente do investigado; a biometria está no corpo. Finalidade: permitir o desbloqueio biométrico com ordem judicial, sem violência, e preservar o direito de não revelar a senha.

2ª posição — nem biometria nem senha. Fundamento: forçar o dedo ou o rosto do investigado é obrigá-lo a colaborar com a própria incriminação, porque o resultado é idêntico ao da revelação da senha. Causa: a biometria, no celular, funciona como uma senha. Finalidade: reservar ao Estado apenas os meios técnicos de perícia, sem participação do investigado.

3ª posição — ambas, com ordem judicial. Fundamento: a ordem judicial fundamentada legitima a restrição à intimidade, e o direito ao silêncio não abrangeria o dever de permitir o acesso a um objeto já apreendido. Causa: sem o desbloqueio, a criptografia dos aparelhos modernos pode tornar a prova inacessível. Finalidade: admitir tanto o desbloqueio biométrico quanto a exigência da senha, sem violência física.

Casos reais

  • STF, ARE 1.042.075 (Tema 977 da repercussão geral), Rel. Min. Dias Toffoli, tese fixada em 25/06/2025. A apreensão do celular não depende de ordem judicial, mas o acesso aos dados exige consentimento livre do titular ou decisão judicial prévia, salvo no encontro fortuito. A autoridade policial pode preservar dados e metadados antes da autorização. Consulta no STF.
  • STJ, AgRg no HC 828.054/RN, 5ª Turma, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 23/04/2024. A Turma considerou inadmissível a prova extraída de celular por consulta direta ao aparelho, sem ferramenta forense, por quebra da cadeia de custódia. Destacou que o Estado tem o ônus de demonstrar a integridade dos dados e citou o hash como meio de garanti-la. Consulta no STJ.
  • Argentina, Câmara Penal de Buenos Aires, 2025. Em decisão noticiada em julho de 2025, o tribunal confirmou a autorização para desbloquear o celular de um acusado por seus dados biométricos, entendendo não haver autoincriminação, mas exigindo requisitos rigorosos para a medida. O precedente estrangeiro ilustra a 1ª posição. Notícia no Diario Constitucional.

Casos hipotéticos

Fato fictício – Caso hipotético 1. Na prisão em flagrante por tráfico, um policial lê as conversas do WhatsApp do preso e transcreve trechos no relatório. Solução: sem consentimento ou ordem judicial, a prova é ilícita (Tema 977). O correto era isolar o aparelho e representar pela extração.

Fato fictício – Caso hipotético 2. Com autorização judicial, um investigador fotografa a tela do celular apreendido, conversa por conversa, e junta as imagens ao inquérito. A defesa alega quebra da cadeia de custódia. Solução: a tese tem força. Sem ferramenta forense e hash, não há como provar que nada foi alterado.

Fato fictício – Caso hipotético 3. O juiz autoriza o desbloqueio biométrico do iPhone do investigado, que se recusa a colaborar. Os policiais, sem violência, aproximam o aparelho do rosto dele, e o celular é desbloqueado e entregue imediatamente ao perito. Solução: pela 1ª posição, a medida é válida, porque não houve exigência de senha nem violência. Pela 2ª posição, seria nula.

Opinião do Autor

Com ordem judicial, o desbloqueio por biometria é admissível; a exigência da senha, não.

Primeiro, porque o direito de não produzir prova contra si protege a vontade e o pensamento. Revelar a senha é extrair do investigado um conhecimento que só ele tem. Encostar o dedo ou mostrar o rosto não exige dele nenhuma manifestação.

Segundo, pela coerência com o que já se admite. A identificação datiloscópica e a fotografia do investigado são feitas sem que ele possa recusar. A biometria do celular usa o mesmo corpo, para um fim igualmente probatório, sob controle judicial.

Terceiro, pela realidade técnica. Aparelhos modernos com criptografia podem ser inacessíveis à perícia. Sem o desbloqueio biométrico, a ordem judicial de extração pode se tornar letra morta.

Reconheço o argumento da 2ª posição: no celular, a biometria funciona como uma senha. E respeito a preocupação da 3ª com a eficácia da investigação. Mas a linha entre o corpo e a mente é a que melhor equilibra os dois valores: o Estado pode usar o que o investigado é, não o que ele sabe.

O dedo pode ser usado; a memória, não.

Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil

Aplicação prática na Polícia Judiciária

  1. Na apreensão: não manuseie o conteúdo. Coloque o aparelho em modo avião ou em embalagem que bloqueia sinal e anote marca, modelo, IMEI e estado da tela.
  2. Lacre e ficha: lacre numerado e ficha de cadeia de custódia desde o primeiro momento (CPP, art. 158-A e seguintes). Veja o modelo de auto de exibição e apreensão.
  3. Consentimento: se o titular consentir, registre por escrito, com assinatura e advertência de que pode recusar.
  4. Sem consentimento: represente por esta peça, já pedindo o desbloqueio biométrico subsidiário.
  5. Depois da autorização: requisite o exame ao perito, com os quesitos. Veja o modelo de requisição de perícia de extração.
  6. Na análise: trabalhe sobre a cópia forense, nunca sobre o aparelho original.

Como cai na prova

Questão simulada (discursiva, Delegado de Polícia). No cumprimento de mandado de busca, foram apreendidos dois celulares do investigado por tráfico, que se recusou a fornecer as senhas. Redija a representação cabível para acesso aos dados, abordando a necessidade de ordem judicial, a cadeia de custódia e a possibilidade de desbloqueio.

Espelho de correção (10 pontos):

  1. Endereçamento e legitimidade do Delegado (0,5);
  2. Reserva de jurisdição para o acesso: Tema 977 do STF (2,0);
  3. Indícios do crime e utilidade dos dados (1,5);
  4. Identificação e lacre dos aparelhos (1,0);
  5. Cadeia de custódia: CPP, arts. 158-A a 158-F (1,5);
  6. Extração por perito, com ferramenta forense e hash (1,0);
  7. Direito de não fornecer a senha (1,0);
  8. Controvérsia sobre o desbloqueio biométrico (1,0);
  9. Delimitação aos dados do aparelho, com pedido próprio para a nuvem (0,5).

Armadilha: confundir as hipóteses. No flagrante e na apreensão do art. 6º do CPP, o acesso depende de consentimento ou de ordem judicial (Tema 977). Quando o celular é apreendido em busca autorizada pelo juiz, o STJ já entendeu que não é preciso nova autorização, mas o pedido expresso evita a discussão.

Perguntas frequentes

A polícia pode olhar o celular de quem foi preso em flagrante?

Pode apreender o aparelho, mas não acessar o conteúdo sem consentimento livre do titular ou ordem judicial, segundo o Tema 977 do STF. A exceção é o celular encontrado fortuitamente, quando o acesso serve para identificar o dono ou o autor, com justificativa posterior. A preservação pode ser feita antes da ordem.

O investigado é obrigado a fornecer a senha do celular?

Não. A revelação da senha é uma conduta ativa, protegida pelo direito ao silêncio e pelo direito de não produzir prova contra si. A recusa não pode ser usada contra ele. Quanto à biometria, a questão é controvertida: há quem a admita com ordem judicial e quem a equipare à senha.

Print de tela de celular vale como prova?

Tem valor frágil. O STJ já declarou inadmissível prova obtida por consulta direta ao aparelho, sem ferramenta forense, por quebra da cadeia de custódia. A extração pericial, com código hash, permite demonstrar que os dados não foram alterados e é o caminho seguro para a prova digital.

O mandado de busca autoriza a extração dos dados do celular?

O STJ já decidiu que, apreendido o celular em busca autorizada pelo juiz, o acesso aos dados não exige nova autorização (RHC 77.232/SC, 5ª Turma, 2017). Ainda assim, o mais seguro é pedir, já na representação pela busca, a autorização expressa para acesso e extração dos dados dos aparelhos apreendidos.

Conclusão

O celular apreendido costuma ser a prova mais rica do inquérito e, por isso, a mais disputada. A representação eficaz pede a ordem judicial com fundamento no Tema 977, documenta a cadeia de custódia desde o lacre, exige perícia com hash e enfrenta a questão do desbloqueio. É isso que leva os dados do aparelho até a sentença.

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Sobre o autor

Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. É professor de Medicina Legal, escritor e mentor de candidatos ao concurso de Delegado de Polícia. Cursa o mestrado em Ciberdelincuencia na Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e a pós-graduação em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência no Instituto Rogério Greco.

Aviso editorial. Este conteúdo tem finalidade educativa. O modelo é didático, usa dados fictícios e deve ser adaptado à norma da Polícia Civil de cada Estado, aos protocolos da perícia oficial e ao caso concreto. Os casos hipotéticos não se referem a pessoas ou fatos reais.

Aviso de atualização. Texto revisado em 22 de outubro de 2026. Esta versão reescreve o modelo com fatos coerentes, separa a extração do aparelho dos pedidos a provedores, corrige a fundamentação (necessidade da prova, e não requisitos de cautelar pessoal), inclui a cadeia de custódia, o desbloqueio por biometria, o Tema 977 do STF, o AgRg no HC 828.054/RN do STJ, as três posições sobre o desbloqueio, casos, questão comentada e FAQ.

Professor & Coach Delegado Ronaldo Entringe

O Delegado Ronaldo Entringe é um estudioso na área de preparação para Concursos Públicos - Carreiras Policiais, e certamente irá auxiliá-lo em sua jornada até a aprovação, vencendo os percalços que irão surgir nesta cruzada, sobretudo através do planejamento estratégico das matérias mais recorrentes do certame e o acompanhamento personalizado.