Atualizado em 22 de outubro de 2026.
A representação por quebra de sigilo de dados do WhatsApp serve para obter, com ordem judicial, os registros da conta: IP e porta lógica, dispositivos, grupos, agenda e histórico de números. O conteúdo das mensagens não está com o WhatsApp, que usa criptografia de ponta a ponta. Ele está no aparelho ou no backup em nuvem, e cada fonte exige um pedido próprio.
Quebra de sigilo do WhatsApp: o que o provedor tem e o que ele não tem
Em uma frase: do WhatsApp se pedem registros; o que foi dito se busca no celular apreendido ou no backup do Google ou da Apple; e o que vai acontecer daqui para frente segue o regime da interceptação.
| Dado | Onde está | Via e fundamento |
|---|---|---|
| Nome do perfil, número, data de criação da conta | Ofício do Delegado (dado cadastral) | |
| Preservação dos registros | Ofício do Delegado (Marco Civil, art. 15, § 2º) | |
| IP e porta lógica, dispositivos, WhatsApp Web, histórico de números, grupos, agenda — período passado | Ordem judicial (Marco Civil, art. 22) | |
| Registros de conexão e IP em tempo real, status “online” — período futuro | Ordem judicial no regime da Lei 9.296/1996 (art. 1º, parágrafo único) | |
| Conteúdo das conversas, fotos e vídeos | Aparelho ou backup no Google Drive/iCloud | Ordem judicial para extração do aparelho (Tema 977 do STF) ou para o provedor da nuvem (Marco Civil, arts. 7º, III, e 10, § 2º) |
Modelo de representação por quebra de sigilo de dados do WhatsApp
Os nomes, números e fatos do modelo são fictícios. Os números entre colchetes remetem às notas que vêm logo depois.
EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA ___ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE ________ [1]
Inquérito Policial nº ___/2026
Procedimento sigiloso
A Autoridade Policial que esta subscreve, no exercício das atribuições previstas no art. 144, § 4º, da Constituição Federal, nos arts. 4º e 6º do Código de Processo Penal e no art. 2º, § 1º, da Lei nº 12.830/2013, vem, respeitosamente, REPRESENTAR pela
QUEBRA DE SIGILO DE DADOS TELEMÁTICOS E DE REGISTROS DE ACESSO DA CONTA DE WHATSAPP, cumulada com o afastamento do sigilo do backup em nuvem vinculado à conta [2],
tendo como alvo a conta de WhatsApp vinculada ao número +55 (__) 9____-____, atribuída ao investigado FULANO DE TAL, qualificado às fls. __, pelos fundamentos a seguir.
I – DOS FATOS
Este inquérito apura a prática, em tese, dos crimes previstos nos arts. 240, 241, 241-A e 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente [3]. Segundo o termo de declarações de fls. __, a genitora de uma criança de cinco anos relatou que o investigado lhe ofereceu dinheiro, por mensagens no WhatsApp, para fotografar a filha em cena de sexo explícito ou pornográfica, o que ela recusou. A testemunha de fls. __ declarou ter presenciado abordagem semelhante a outra mãe.
O levantamento de fls. __ localizou ocorrências registradas por outros responsáveis legais, que descrevem abordagem com o mesmo padrão: contato inicial por WhatsApp, oferta de dinheiro e pedido de imagens de crianças. O relatório de investigação de fls. __ indica que o material obtido seria oferecido à venda em grupos do aplicativo.
O número foi informado pelas declarantes. A operadora informou o titular da linha às fls. __ e o IMEI do aparelho em uso às fls. __. O WhatsApp, por requisição desta Autoridade (fls. __), confirmou que o número possui conta ativa e preservou os registros a partir de __/__/2026 [4].
II – DO DIREITO
a) Dados pretéritos. Os registros de acesso, os dados de dispositivos, os metadados de grupos, a agenda e o histórico de números são dados armazenados pelo provedor de aplicação. Seu fornecimento depende de ordem judicial, nos termos dos arts. 10, § 1º, e 22 da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), que exigem fundados indícios do ilícito, justificativa da utilidade dos registros e delimitação do período [5].
b) Dados prospectivos. O acompanhamento, por 15 dias, dos registros de conexão e de IP gerados a partir da decisão capta o fluxo de comunicação telemática e, por isso, observa a Lei nº 9.296/1996 (art. 1º, parágrafo único, e arts. 2º, 4º e 5º). Os crimes apurados são punidos com reclusão, há indícios razoáveis de autoria e a prova não pode ser feita por outro meio [6].
c) Backup em nuvem. O WhatsApp não armazena o conteúdo das conversas entregues. Quando o usuário ativa o backup, as conversas e mídias ficam na conta Google ou Apple vinculada ao aparelho. Esse conteúdo é comunicação privada armazenada e só pode ser fornecido por ordem judicial (Marco Civil, arts. 7º, III, e 10, § 2º) [7].
d) Necessidade e adequação. As diligências já realizadas (fls. __ a __) identificaram o número e o titular da linha, mas não permitem identificar os adquirentes do material, os grupos utilizados nem o local de acesso. O investigado não foi localizado nos endereços conhecidos (fls. __), o que inviabiliza, por ora, a busca e apreensão do aparelho. Os registros pedidos são o meio menos invasivo capaz de atingir esse fim.
e) Urgência. O provedor de aplicação só é obrigado a guardar os registros de acesso por seis meses (Marco Civil, art. 15), e o risco à integridade de outras crianças é atual. A demora pode levar à perda dos registros e à continuidade das abordagens.
III – DOS PEDIDOS
Ante o exposto, ouvido o Ministério Público, a Autoridade Policial representa pela expedição de ordem judicial, em caráter sigiloso, para que:
1. O WhatsApp LLC, por seu sistema de atendimento a autoridades [8], e por meio de sua representante no Brasil, Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., CNPJ 13.347.016/0001-17 (Marco Civil, art. 11), forneça, quanto à conta vinculada ao número +55 (__) 9____-____, no período de __/__/2026 a __/__/2026 [9]:
- dados básicos da conta (BSI): nome do perfil, foto de perfil, data e hora de criação, endereço de e-mail vinculado, se houver;
- registros de acesso com IP, porta lógica, data, hora e fuso horário (GMT);
- modelo do dispositivo, sistema operacional e versão do aplicativo;
- informações sobre uso do WhatsApp Web ou de dispositivos vinculados, com datas e IPs;
- histórico de troca de número;
- grupos de que a conta participa ou participou: identificador, nome, data de criação, descrição, administradores e número de membros;
- agenda de contatos (simétricos e assimétricos), se disponível;
- informação sobre a existência de backup ativo e o serviço de nuvem utilizado.
2. O WhatsApp LLC forneça, pelo prazo de 15 (quinze) dias a contar da intimação, os registros de conexão e IP da mesma conta gerados no período, com envio periódico a esta Autoridade (Lei nº 9.296/1996, art. 5º) [10].
3. A Google LLC (por sua representante Google Brasil Internet Ltda.) e/ou a Apple Inc., conforme o serviço indicado no item 1, “h”, forneçam o conteúdo do backup do WhatsApp e das mídias vinculadas à conta associada ao número e ao IMEI de fls. __ [11].
4. Seja fixado o prazo de 10 (dez) dias para cumprimento dos itens 1 e 3, sob pena de multa diária a ser arbitrada por Vossa Excelência, e determinado que os provedores não comuniquem a medida ao usuário [12].
5. As respostas sejam encaminhadas ao e-mail institucional ________@____.gov.br, e o mandado reproduza os itens acima nos exatos termos desta representação, para evitar interpretação divergente pelos provedores.
[Cidade], __ de ________ de 2026.
________________________
Delegado(a) de Polícia
Notas ao modelo
- [1] Juízo. Troca de mensagens privadas entre pessoas determinadas, sem divulgação aberta na internet, costuma firmar a competência estadual. Se houver publicação acessível no exterior, avalie a competência federal (Tema 393 do STF).
- [2] Cumulação. Um só pedido pode abranger o WhatsApp e o provedor da nuvem, desde que cada destinatário e cada dado estejam separados. Isso evita duas representações e dois prazos.
- [3] Capitulação. “Pedofilia” é termo clínico, não tipo penal. Use os artigos do ECA. Se alguma genitora tiver aderido, observe o art. 240, § 2º, III, e avalie a responsabilização dela.
- [4] Preservação. Peça a preservação por ofício antes da representação. Depois disso, o pedido judicial deve ser apresentado em até 60 dias (Marco Civil, art. 15, § 2º, combinado com o art. 13, §§ 3º e 4º).
- [5] Requisitos do art. 22. O juiz precisa ver três coisas: indícios do crime, por que aqueles registros servem à investigação e qual o período. Representação sem período delimitado é a principal causa de indeferimento.
- [6] Lei 9.296. Só para o que acontecer depois da decisão. Prazo de 15 dias, renovável, com demonstração de necessidade.
- [7] Backup criptografado. Se o usuário ativou o backup com criptografia de ponta a ponta, nem o Google nem a Apple conseguem ler o conteúdo. Nesse caso, a fonte restante é o aparelho.
- [8] Canal. As ordens são enviadas pelo sistema de solicitações do WhatsApp para autoridades, com e-mail institucional.
- [9] Período. Comece no primeiro fato e termine na data da preservação. Registros com mais de seis meses podem não existir mais, salvo preservação anterior.
- [10] Envio periódico. Combine com o provedor a periodicidade (diária ou semanal). Sem isso, o dado chega depois do prazo e perde utilidade operacional.
- [11] Conta da nuvem. O backup fica na conta Google ou Apple do aparelho, não no número. Por isso, informe também o IMEI e o e-mail, se conhecidos.
- [12] Multa. O STJ admite multa cominatória contra o provedor que descumpre ordem judicial no processo penal. Prazo e multa devem ser coerentes entre si.
Erros comuns (corrigidos neste modelo)
- Pedir ao WhatsApp o “conteúdo das conversas”: o provedor não tem esse dado.
- Mencionar backup no Google Drive e endereçar o pedido só ao WhatsApp.
- Pedir registros de mais de um ano sem preservação prévia.
- Pedir “status de conexão” em tempo real com base apenas no art. 22 do Marco Civil.
- Incluir no rol de dados o “cancelamento do perfil”, que é ordem de outra natureza e exige pedido próprio.
- Copiar fundamentação de outra peça, como “saber onde esteve geograficamente”, própria do pedido de dados de ERB.
- Fixar multa após 48 horas e conceder prazo de 10 dias na mesma peça.
Dispositivos legais aplicáveis
- Constituição Federal, art. 5º, X e XII: protege a intimidade e o sigilo das comunicações, admitindo a interceptação por ordem judicial, na forma da lei, para investigação criminal.
- Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), arts. 7º, III; 10, §§ 1º a 3º; 11; 13; 15 e 22: guarda de registros, preservação, requisitos da ordem judicial e sujeição de empresas estrangeiras à lei brasileira.
- Lei nº 9.296/1996, art. 1º, parágrafo único, e arts. 2º, 4º e 5º: aplica o regime da interceptação ao fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática.
- Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 240, 241, 241-A, 241-B, 241-E e 190-A (infiltração virtual).
- Lei nº 12.830/2013, art. 2º, § 1º: condução da investigação pelo Delegado de Polícia.
Doutrina e jurisprudência: o que é pacífico e o que é controvertido
Pontos pacíficos
- O conteúdo armazenado no aparelho exige ordem judicial ou consentimento. O STJ firmou essa orientação em 2016, e o STF a consolidou no Tema 977, com a ressalva do celular encontrado fortuitamente.
- Registros de acesso e dados de uso exigem ordem judicial (Marco Civil, art. 22). Só o cadastro básico se obtém por requisição direta.
- A empresa estrangeira que oferta serviço no Brasil cumpre a ordem brasileira (Marco Civil, art. 11), e o STF reconheceu, na ADC 51, que a cooperação internacional (MLAT) não exclui a requisição direta.
Ponto controvertido: qual regime rege a representação ao WhatsApp
1ª posição — regime híbrido. Fundamento: a distinção entre dado estático e comunicação em fluxo; o art. 22 do Marco Civil rege o que já está guardado, e a Lei 9.296 rege o que ainda vai ser gerado. Causa: os registros pretéritos não revelam comunicação em curso, mas o acompanhamento em tempo real revela, no momento em que ocorre, quando e de onde o alvo se comunica. Finalidade: dar a cada dado o controle proporcional à sua invasividade, sem burocratizar o histórico nem banalizar o monitoramento.
2ª posição — tudo pela Lei 9.296. Fundamento: leitura ampla do art. 5º, XII, da Constituição e do art. 1º, parágrafo único, da Lei 9.296, que tratariam qualquer dado telemático como comunicação. Causa: metadados (com quem, quando, de onde) revelam a vida privada tanto quanto o conteúdo. Finalidade: estender ao histórico as garantias da interceptação: rol de crimes punidos com reclusão, subsidiariedade estrita e prazo de 15 dias.
3ª posição — tudo pelo Marco Civil. Fundamento: o inciso XII protege apenas a comunicação em fluxo; registro de conexão não é comunicação, nem quando gerado depois da decisão. Causa: o Marco Civil é lei específica e posterior sobre registros de internet. Finalidade: permitir o acompanhamento de registros futuros sem o limite de 15 dias e sem o rol de crimes da Lei 9.296.
Na prática, a 1ª posição é a que oferece menor risco de nulidade: atende aos requisitos de ambas as leis e não depende de o juiz aderir a uma tese extrema.
Casos reais
- STJ, RHC 51.531/RO, 6ª Turma, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/04/2016. A Turma declarou ilícita a prova obtida pela leitura das conversas de WhatsApp no celular apreendido em flagrante, sem autorização judicial. É o precedente que inaugurou a exigência de ordem para o conteúdo do aparelho. Consulta no STJ.
- STJ, RHC 99.735/SC, 6ª Turma, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em novembro de 2018. A Turma anulou o espelhamento do WhatsApp Web, feito com o aparelho do investigado, porque a medida permitia ler mensagens passadas e futuras e até enviá-las ou apagá-las, o que excede tanto a busca e apreensão quanto a interceptação. Consulta no STJ.
- STF, ARE 1.042.075 (Tema 977 da repercussão geral), Rel. Min. Dias Toffoli, tese fixada em 25/06/2025. A apreensão do celular não depende de ordem judicial, mas o acesso aos dados exige consentimento livre do titular ou decisão judicial prévia, salvo no encontro fortuito, com justificação posterior. A tese autoriza a autoridade policial a preservar dados e metadados antes da autorização judicial e tem efeitos prospectivos. Consulta no STF.
Casos hipotéticos
Fato fictício – Caso hipotético 1. A Delegada Ana representa ao juízo para que o WhatsApp entregue “todas as conversas” de um investigado por extorsão. O mandado é cumprido, e o provedor responde que não armazena o conteúdo das mensagens entregues. A resposta informa, porém, que a conta tem backup ativo no Google Drive. Solução: nova representação, dirigida ao Google, com o e-mail e o IMEI do aparelho. Se a peça tivesse cumulado os destinatários, um único mandado bastaria.
Fato fictício – Caso hipotético 2. O Delegado Bruno instaura inquérito sobre um estelionato praticado por WhatsApp catorze meses antes. A ordem judicial abrange todo o período, mas o provedor só tem registros dos últimos meses. Solução: o pedido de preservação deveria ter sido feito por ofício logo no registro da ocorrência. Sem ele, restam as fontes paralelas: operadora, instituição financeira e eventual apreensão do aparelho.
Fato fictício – Caso hipotético 3. Para localizar um foragido, a Delegada Carla obtém, com base apenas no art. 22 do Marco Civil, ordem para receber por 60 dias os IPs de conexão do WhatsApp em tempo real. A defesa alega nulidade, sustentando que se trata de monitoramento de fluxo sem os requisitos da Lei 9.296. Solução: pela posição híbrida, o pedido prospectivo deveria observar a Lei 9.296, com prazo de 15 dias e renovações fundamentadas. O risco de nulidade decorre da escolha do fundamento, e não da medida em si.
Opinião do Autor
Adoto o regime híbrido: o que o WhatsApp já guardou se pede pelo art. 22 do Marco Civil; o que a conta ainda vai gerar se pede pela Lei 9.296.
Primeiro, porque o critério constitucional é o fluxo. O inciso XII protege a comunicação enquanto ela acontece. O registro de ontem é dado armazenado, protegido pela intimidade do inciso X e disciplinado pelo Marco Civil. O IP captado no momento da conexão já é acompanhamento do fluxo.
Segundo, porque a invasividade é diferente. O histórico mostra o que o investigado fez. O acompanhamento em tempo real mostra o que ele está fazendo, permite segui-lo e antecipar seus passos. Essa é a lógica da interceptação, e por isso exige os mesmos controles: rol de crimes, subsidiariedade e prazo.
Terceiro, porque é a escolha que protege a prova. A representação que observa as duas leis resiste tanto ao juiz que adota a leitura ampla do inciso XII quanto ao que adota a leitura restrita. É a mesma coerência que sustento quanto ao status “online”, que considero monitoramento.
Reconheço a força da 2ª posição: metadados revelam muito da vida privada, e a crítica ao uso massivo de registros é legítima. Mas estender a Lei 9.296 a todo o histórico inviabilizaria a investigação de crimes punidos com detenção praticados pela internet, sem ganho real de proteção, porque o art. 22 já exige ordem judicial fundamentada e período delimitado.
O dado não muda de natureza por estar no WhatsApp; muda pelo tempo. Passado é registro; presente é fluxo.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aplicação prática na Polícia Judiciária
- No registro da ocorrência: faça a certidão das telas apresentadas pela vítima, com número, data e hora. Veja o modelo de certidão para crimes cibernéticos.
- No mesmo dia: requisite o cadastro e a preservação ao WhatsApp. Use o modelo de ofício ao WhatsApp sem ordem judicial.
- Em paralelo: identifique o titular da linha e o IMEI pela operadora, conforme o guia de ofícios às operadoras.
- Com esses dados: represente por esta peça, separando passado, futuro e nuvem.
- Se for necessário ouvir as conversas por telefone ou interceptar outras linhas: use a representação por interceptação telefônica e quebra de sigilo de dados.
- Em crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes: avalie a infiltração virtual (ECA, art. 190-A) para identificar os compradores nos grupos. Para crimes de divulgação de cena íntima de adultos, veja a representação por afastamento de sigilo telemático em crimes contra a intimidade sexual.
- Após a apreensão do aparelho: represente pela extração dos dados, na forma do Tema 977, e preserve a cadeia de custódia (CPP, arts. 158-A a 158-F).
Como cai na prova
Questão simulada (discursiva, Delegado de Polícia). Em inquérito que apura a venda de imagens de crianças em cenas de sexo explícito por grupos de WhatsApp, o investigado está em local incerto. Você dispõe do número do aparelho e da preservação já feita pelo provedor. Redija a representação adequada para identificar os adquirentes e localizar o investigado, indicando os destinatários e os fundamentos de cada pedido.
Espelho de correção (10 pontos):
- Endereçamento ao juízo criminal competente (1,0);
- Legitimidade do Delegado: CF, art. 144, § 4º, e Lei 12.830, art. 2º, § 1º (0,5);
- Capitulação correta: ECA, arts. 240, 241, 241-A e 241-B (1,0);
- Pedido de registros pretéritos com base no Marco Civil, art. 22, e período delimitado (1,5);
- Pedido prospectivo com base na Lei 9.296, com prazo de 15 dias (1,5);
- Reconhecimento de que o WhatsApp não armazena o conteúdo e pedido ao provedor da nuvem (1,5);
- Demonstração da necessidade e da impossibilidade de outro meio (1,0);
- Urgência fundada no art. 15 do Marco Civil e na proteção integral (0,5);
- Sigilo, prazo coerente com a multa e vista ao Ministério Público (1,0);
- Menção à infiltração virtual (ECA, art. 190-A) como medida complementar (0,5).
Armadilha: pedir ao WhatsApp “o conteúdo das conversas dos grupos”. O examinador espera que o candidato saiba que esse dado não existe no provedor e direcione o pedido à nuvem ou ao aparelho.
Perguntas frequentes
O WhatsApp entrega o conteúdo das mensagens por ordem judicial?
Não. O aplicativo usa criptografia de ponta a ponta e não guarda as mensagens entregues. A ordem judicial obtém registros: IP, dispositivos, grupos, agenda e histórico de números. O conteúdo deve ser buscado no aparelho apreendido, com ordem judicial, ou no backup da conta Google ou Apple, se não estiver criptografado.
Qual é o fundamento legal da quebra de sigilo do WhatsApp?
Para os dados já armazenados, o art. 22 do Marco Civil da Internet, que exige indícios do crime, utilidade dos registros e período delimitado. Para o acompanhamento de registros gerados depois da decisão, a Lei 9.296/1996, aplicável ao fluxo telemático. Para o backup em nuvem, os arts. 7º, III, e 10, § 2º, do Marco Civil.
Por quanto tempo o WhatsApp guarda os registros de acesso?
O Marco Civil obriga o provedor de aplicação a guardar os registros de acesso por seis meses (art. 15). Por isso, o Delegado deve requisitar a preservação logo no início da investigação, por ofício, e apresentar o pedido judicial em até 60 dias. Sem preservação, registros antigos podem não existir mais.
A polícia pode ler o WhatsApp do celular apreendido sem ordem judicial?
Em regra, não. Pelo Tema 977 do STF, apreender o celular dispensa ordem, mas acessar os dados exige consentimento livre do titular ou decisão judicial prévia. A exceção é o aparelho encontrado fortuitamente, cujo acesso para identificar o dono ou o autor deve ser justificado depois. A preservação dos dados pode ser feita antes da ordem.
Conclusão
A representação ao WhatsApp é eficaz quando o Delegado sabe onde cada dado está. Os registros já guardados vêm pelo Marco Civil; o acompanhamento daqui para frente, pela Lei 9.296; e o conteúdo, pelo backup ou pelo aparelho. Uma peça que separa essas três frentes resiste à defesa e chega ao dado antes que ele desapareça.
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- Modelo de ofício ao WhatsApp requisitando dados cadastrais sem ordem judicial
- Modelo de representação por interceptação telefônica e quebra de sigilo de dados
- Modelo de ofício à operadora requisitando dados cadastrais pelo IMEI
Sobre o autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. É professor de Medicina Legal, escritor e mentor de candidatos ao concurso de Delegado de Polícia. Cursa o mestrado em Ciberdelincuencia na Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e a pós-graduação em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência no Instituto Rogério Greco.
Aviso editorial. Este conteúdo tem finalidade educativa. O modelo é didático, usa dados fictícios e deve ser adaptado à norma da Polícia Civil de cada Estado, às orientações vigentes dos provedores para autoridades e ao caso concreto. Os casos hipotéticos não se referem a pessoas ou fatos reais.
Aviso de atualização. Texto revisado em 22 de outubro de 2026. Esta versão corrige o objeto da representação (o WhatsApp não armazena o conteúdo das mensagens), acrescenta o fundamento no Marco Civil e na Lei 9.296, separa os pedidos de dados pretéritos, prospectivos e de backup em nuvem, corrige a capitulação e o CNPJ da representante no Brasil, e inclui o Tema 977 do STF, as três posições sobre o regime aplicável, casos, questão comentada e FAQ.
