DOUTRINA COMENTADA – Controvérsia Doutrinária – É Possível Concomitantemente Homicídio Privilegiado e Qualificado? – Entenda! - Professor & Coach Delegado Ronaldo Entringe
No momento, você está visualizando DOUTRINA COMENTADA – Controvérsia Doutrinária – É Possível Concomitantemente Homicídio Privilegiado e Qualificado? – Entenda!

DOUTRINA COMENTADA – Controvérsia Doutrinária – É Possível Concomitantemente Homicídio Privilegiado e Qualificado? – Entenda!

Atualizado em 13 de outubro de 2026

Sim, é possível. O homicídio pode ser, ao mesmo tempo, privilegiado (art. 121, § 1º, do CP) e qualificado (art. 121, § 2º) — o chamado homicídio híbrido —, desde que a qualificadora seja de natureza objetiva, ligada ao meio ou ao modo de execução. Como o privilégio é sempre subjetivo, ele não convive com qualificadoras de motivo. E, para o STJ, a figura híbrida não é crime hediondo.

Em uma frase: o quadro-resumo

PontoResposta
Natureza do privilégio (§ 1º)Sempre subjetiva: motivo de relevante valor social ou moral, ou domínio de violenta emoção logo após injusta provocação da vítima.
Efeito do privilégioCausa especial de diminuição de pena, de 1/6 a 1/3, aplicada na terceira fase da dosimetria.
Privilégio + qualificadora objetivaCompatíveis (corrente majoritária e jurisprudência do STF e do STJ).
Privilégio + qualificadora subjetivaIncompatíveis: ninguém mata, ao mesmo tempo, por relevante valor moral e por motivo torpe ou fútil.
Hediondez do homicídio híbridoNão é hediondo, segundo a orientação do STJ.
Tribunal do JúriO quesito do privilégio é votado antes das qualificadoras (CPP, art. 483, § 3º).

O julgado e o estado atual da questão

A controvérsia é antiga, mas a jurisprudência dos tribunais superiores se consolidou em duas frentes. Na primeira, o Supremo Tribunal Federal assentou a compatibilidade entre o homicídio objetivamente qualificado e, ao mesmo tempo, subjetivamente privilegiado, como no HC 97.034/MG, julgado pela 1ª Turma do STF ⚠️ [VERIFICAR: relator e data do julgamento no portal do STF]. Na segunda, o Superior Tribunal de Justiça afastou a hediondez da figura híbrida por falta de previsão legal, como no HC 153.728/MS, da 5ª Turma do STJ ⚠️ [VERIFICAR: relator, data e DJe no portal do STJ].

O que mudou desde a publicação original deste artigo não foi a tese, mas o mapa das qualificadoras. Entre 2024 e 2026, o legislador retirou o feminicídio do art. 121 e o transformou em crime autônomo (art. 121-A), reescreveu a qualificadora funcional, criou a qualificadora do homicídio em instituição de ensino, inseriu a figura do homicídio praticado por integrante de organização criminosa ultraviolenta (§ 2º-D) e criou o vicaricídio (art. 121-B). Cada uma dessas mudanças exige reler a compatibilidade com o privilégio, como se faz abaixo.

Dispositivos legais aplicáveis

O privilégio: art. 121, § 1º, do Código Penal

Pela redação do Código Penal no Planalto, se o agente comete o crime “impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima”, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.

Três observações práticas:

  • Todas as hipóteses são subjetivas: dizem respeito ao motivo ou ao estado anímico do agente, nunca ao meio empregado.
  • A violenta emoção exige três requisitos cumulativos: domínio (não mera influência), provocação injusta da vítima e imediatidade (“logo em seguida”).
  • Se faltar o domínio ou a imediatidade, sobra apenas a atenuante genérica do art. 65, III, “c”, do CP (“sob a influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima”). Essa distinção cai com frequência em prova.

As qualificadoras: art. 121, § 2º, na redação vigente

IncisoHipóteseNatureza predominanteConvive com o privilégio?
IPaga, promessa de recompensa ou outro motivo torpeSubjetivaNão
IIMotivo fútilSubjetivaNão
IIIVeneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura, meio insidioso, cruel ou de perigo comumObjetiva (meio)Sim
IVTraição, emboscada, dissimulação ou recurso que dificulte a defesaObjetiva (modo); a traição é tratada por parte da doutrina como subjetivaSim, em regra
VPara assegurar execução, ocultação, impunidade ou vantagem de outro crimeSubjetiva (finalidade)Não
VIRevogado pela Lei 14.994/2024 (feminicídio passou ao art. 121-A)——
VIIContra agentes de segurança, membros do Judiciário, MP, Defensoria, Advocacia Pública, oficial de justiça e familiares, em razão da função (redação da Lei 15.134/2025)ControvertidaDepende da corrente adotada
VIIIEmprego de arma de fogo de uso restrito ou proibidoObjetiva (meio)Sim
IXContra menor de 14 anosObjetiva (condição da vítima)Sim
XNas dependências de instituição de ensino (Lei 15.159/2025)Objetiva (lugar)Sim

Pena do § 2º: reclusão de 12 a 30 anos. Atenção ao § 2º-D, incluído pela Lei 15.358/2026 (marco legal do combate ao crime organizado): homicídio doloso cometido por integrante de organização criminosa ultraviolenta, grupo paramilitar ou milícia privada, no contexto da atuação ou para a consecução das condutas do grupo, com pena de 20 a 40 anos.

Lei de Crimes Hediondos e Tribunal do Júri

  • Lei 8.072/1990, art. 1º, I: desde a Lei 15.159/2025, a referência passou a ser genérica ao “homicídio qualificado (art. 121, § 2º)”. O texto continua sem mencionar o § 1º, que é o fundamento da tese da não hediondez da figura híbrida.
  • CPP, art. 483, § 3º: decidida a condenação, os jurados votam primeiro a causa de diminuição alegada pela defesa e só depois as qualificadoras e causas de aumento.
  • Súmula 162 do STF: é absoluta a nulidade do julgamento pelo júri quando os quesitos da defesa não precedem os das circunstâncias agravantes.

Análise dogmática do homicídio privilegiado-qualificado

Conceito, objeto jurídico e objeto material

Homicídio é a eliminação da vida humana extrauterina praticada por outra pessoa. O objeto jurídico é a vida humana; o objeto material é a pessoa viva contra quem recai a conduta. O homicídio híbrido não é um tipo novo: é o tipo qualificado (§ 2º) ao qual se aplica a causa de diminuição do § 1º.

Tipo penal, resultado e prova da materialidade

O núcleo é matar. A ação pode ser física (disparo, golpe), moral (provocar a morte por susto ou choque emocional, em situações excepcionais) e direta ou indireta (uso de animal ou de terceiro inimputável). Admite-se a forma omissiva imprópria, quando presente o dever de agir (CP, art. 13, § 2º).

É crime material: exige o resultado morte. Por deixar vestígios, impõe o exame de corpo de delito direto (CPP, art. 158), admitido o indireto por prova testemunhal quando os vestígios desaparecem (CPP, art. 167), com observância da cadeia de custódia (CPP, arts. 158-A a 158-F). No homicídio híbrido, a perícia tem dupla função: provar a morte e provar a qualificadora objetiva. Fogo, asfixia, tortura e meio cruel são demonstrados por laudo — por exemplo, a presença de sinais de reação vital nas lesões ou de fuligem nas vias aéreas indica que a vítima estava viva quando foi queimada.

Sujeitos do crime

Crime comum: qualquer pessoa pode ser sujeito ativo. O sujeito passivo é o ser humano vivo. Nas qualificadoras dos incisos VII, IX e X, a condição da vítima ou do local integra a figura qualificada.

Elemento subjetivo

O homicídio doloso admite dolo direto e dolo eventual. O privilégio exige um dado anímico adicional: o motivo nobre ou o domínio da emoção. A violenta emoção não exclui a imputabilidade (CP, art. 28, I); apenas reduz a pena quando preenchidos os requisitos do § 1º. A compatibilidade entre dolo eventual e qualificadoras objetivas de meio ou modo é tema próprio, com oscilação jurisprudencial ⚠️ [VERIFICAR: precedente atual do STJ sobre dolo eventual e qualificadoras objetivas antes de citar].

Iter criminis

Crime plurissubsistente, admite tentativa — inclusive tentativa de homicídio híbrido. Nesse caso, incidem as duas reduções: a da tentativa (parte geral, art. 14, parágrafo único) e a do privilégio (parte especial, § 1º). O art. 68, parágrafo único, só permite limitar-se a uma diminuição quando ambas são da parte especial. Desistência voluntária e arrependimento eficaz (art. 15) levam o agente a responder apenas pelos atos já praticados, normalmente lesão corporal.

Concurso de pessoas

Aqui está um dos pontos mais cobrados: o privilégio é circunstância de caráter pessoal e, por força do art. 30 do CP, não se comunica ao coautor ou partícipe que não agiu pelo mesmo motivo. Já a qualificadora objetiva se comunica a quem dela teve conhecimento. Resultado possível: no mesmo fato, um agente responde por homicídio híbrido e o outro por homicídio qualificado puro — hediondo.

Crime culposo e erro médico

Itens dispensados: o privilégio e as qualificadoras do § 2º pressupõem dolo. Não há homicídio culposo privilegiado nem qualificado.

Classificações doutrinárias

  • Quanto ao sujeito: comum e monossubjetivo (concurso eventual).
  • Quanto ao resultado: material e de dano.
  • Quanto à conduta: comissivo, admitida a forma omissiva imprópria.
  • Quanto ao momento consumativo: instantâneo de efeitos permanentes.
  • Quanto à forma: de forma livre na figura simples; nas qualificadoras de meio e modo, a lei descreve meios específicos.
  • Quanto aos vestígios: delicta facti permanentis.
  • Quanto à execução: plurissubsistente; a qualificadora de meio pode ser violenta (fogo, tortura) ou astuciosa (veneno insidioso, dissimulação).

A controvérsia doutrinária

1ª corrente — impossibilidade. Sustenta que o privilégio, pela sua posição no artigo (§ 1º), só se aplica ao caput, não ao § 2º (argumento topográfico), e que, por analogia ao art. 67 do CP, a circunstância ligada ao motivo seria preponderante, afastando as qualificadoras. É a posição de Euclides Custódio da Silveira, conforme registrada por Cleber Masson em sua obra de Direito Penal, Parte Especial ⚠️ [VERIFICAR: edição e página da obra de Masson e a obra original de Custódio da Silveira].

2ª corrente — possibilidade, desde que a qualificadora seja objetiva (majoritária). O argumento topográfico não convence, porque a técnica legislativa não cria incompatibilidade onde a lógica não a vê. A incompatibilidade é apenas entre motivos: o motivo nobre exclui o torpe e o fútil, mas não exclui o meio cruel. O argumento processual reforça a tese: como o privilégio é votado antes das qualificadoras (CPP, art. 483, § 3º), reconhecido o motivo nobre pelos jurados, ficam prejudicadas as qualificadoras subjetivas, e só as objetivas podem ser votadas. É a posição exposta por Masson e adotada pelo STF e pelo STJ. Segundo síntese doutrinária, Fernando Capez admite a figura com a ressalva da incompatibilidade entre circunstâncias subjetivas, e Rogério Greco justifica o reconhecimento por razões de política criminal ⚠️ [VERIFICAR: conferir as posições de Capez e Greco nas obras originais, com edição e página].

Uma incompatibilidade que vai além da natureza. Mesmo entre privilégio e qualificadora objetiva, pode haver incompatibilidade fática. A violenta emoção “logo em seguida” à provocação dificilmente convive com a emboscada, que pressupõe espera e preparação. Já o relevante valor moral, que não exige imediatidade, pode conviver com a emboscada. O operador deve testar cada combinação no caso concreto, e não aplicar a regra de forma mecânica.

A hediondez. A corrente majoritária nega a hediondez do homicídio híbrido: a lei não o menciona, e a interpretação extensiva em prejuízo do réu é vedada; além disso, seria contraditório rotular de hediondo um crime motivado por valor moral relevante. A corrente minoritária sustenta que a qualificadora define o tipo e que o privilégio é mera causa de diminuição de pena, que não altera a natureza do crime. O STJ adota a primeira orientação.

As inovações de 2024 a 2026 e o privilégio

Feminicídio (art. 121-A). Antes da Lei 14.994/2024, o STJ tratava o feminicídio como qualificadora objetiva, o que abria espaço teórico para o “feminicídio privilegiado” ⚠️ [VERIFICAR: precedente do STJ, com número, relator e data, que classificou o feminicídio como qualificadora objetiva]. Agora o feminicídio é crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos e sem previsão de privilégio. Discute-se se o § 1º do art. 121 pode ser aplicado por analogia em favor do réu ou se resta apenas a atenuante genérica do art. 65, III. A questão está em aberto ⚠️ [VERIFICAR: existência de precedente do STJ ou do STF sobre o privilégio no art. 121-A].

Vicaricídio (art. 121-B, Lei 15.384/2026). Exige o fim específico de causar sofrimento, punição ou controle à mulher, em contexto de violência doméstica. Essa finalidade é logicamente incompatível com o relevante valor moral.

Qualificadora funcional (inciso VII). A Lei 15.134/2025 ampliou o rol de vítimas protegidas. Para uma corrente, a expressão “em razão dessa condição” revela qualificadora subjetiva, incompatível com o privilégio; para outra, prevalece a condição objetiva da vítima, compatível com ele.

Homicídio em instituição de ensino (inciso X). Qualificadora de lugar, objetiva, compatível com o privilégio. Tem causas de aumento próprias no § 2º-C.

Homicídio por integrante de organização criminosa ultraviolenta (§ 2º-D). A figura tem pena autônoma e exige que o crime ocorra no contexto da atuação do grupo ou para a consecução de suas condutas — elemento finalístico que, em princípio, repele o motivo nobre. Ainda não há jurisprudência dos tribunais superiores sobre o tema ⚠️ [VERIFICAR: se o § 2º-D está abrangido pela referência “art. 121, § 2º” da Lei 8.072/1990].

Concurso de crimes, conflito aparente e dosimetria

  • Pluralidade de qualificadoras: uma qualifica o crime; as demais podem ser valoradas como agravantes, quando previstas no art. 61, ou como circunstâncias judiciais na pena-base ⚠️ [VERIFICAR: precedente atual do STJ sobre o deslocamento das qualificadoras sobejantes].
  • Privilégio e atenuante do mesmo fato: reconhecido o § 1º, não se aplica também a atenuante do art. 65, III, “a” ou “c”, pelo mesmo motivo, sob pena de bis in idem.
  • Ocultação de cadáver (art. 211): concurso material com o homicídio.
  • Dosimetria do híbrido: pena-base a partir da escala do § 2º (12 a 30 anos), agravantes e atenuantes na segunda fase e redução de 1/6 a 1/3 na terceira.

Extinção da punibilidade

A prescrição da pretensão punitiva em abstrato regula-se pelo máximo da pena (30 anos no qualificado, 20 no simples), considerada a menor fração de redução do privilégio; em ambos os casos o prazo é de 20 anos (CP, art. 109, I). O perdão judicial do § 5º aplica-se apenas ao homicídio culposo, nunca ao doloso.

Fechamento técnico

  • Capitulação do híbrido: art. 121, § 2º, inciso objetivo (III, IV, VIII, IX ou X), c/c § 1º, do CP.
  • Modus operandi típico: reação a ofensa grave contra o agente ou familiar, com emprego de meio cruel, insidioso ou de surpresa.
  • Circunstâncias: anterioridade da provocação, intervalo de tempo entre provocação e reação, relação entre agente e vítima.
  • Proveito econômico: inexistente na hipótese típica; a presença de paga ou promessa de recompensa (inciso I) afasta o privilégio.

Jurisprudência consolidada e controvertida

  • Consolidado: compatibilidade do privilégio com qualificadoras objetivas (STF, HC 97.034/MG) e não hediondez da figura híbrida (STJ, HC 153.728/MS).
  • Consolidado: o quesito do privilégio precede o das qualificadoras, sob pena de nulidade absoluta (Súmula 162 do STF; CPP, art. 483, § 3º).
  • Consolidado: a revisão do reconhecimento ou da negativa do privilégio pelos jurados esbarra na soberania dos veredictos e, em recurso especial, no reexame de provas (Súmula 7/STJ).
  • Controvertido: aplicação do privilégio ao feminicídio autônomo (art. 121-A) e à nova figura do § 2º-D.
  • Controvertido: natureza da qualificadora funcional (inciso VII) após a Lei 15.134/2025.

Casos reais

Caso real 1 — STF, HC 97.034/MG

O STF reafirmou que a qualificadora objetiva, relativa ao meio ou ao modo de execução, não impede o reconhecimento do privilégio, que é sempre subjetivo. O precedente é a base da tese do homicídio híbrido. Fonte: pesquisa de jurisprudência do STF ⚠️ [VERIFICAR: relator e data].

Caso real 2 — STJ, HC 153.728/MS

O STJ concluiu que o homicídio qualificado-privilegiado não integra o rol da Lei de Crimes Hediondos, por ausência de previsão legal. A consequência prática alcança progressão de regime, livramento condicional e prazo da prisão temporária. Fonte: pesquisa de jurisprudência do STJ ⚠️ [VERIFICAR: relator, data e DJe].

Caso real 3 — STF, ADPF 779

O Plenário do STF declarou inconstitucional a tese da “legítima defesa da honra” e vedou seu uso, direta ou indiretamente, em qualquer fase da persecução penal, inclusive no plenário do Júri. O reflexo no tema é direto: a defesa não pode travestir de “violenta emoção” ou de “relevante valor moral” o argumento de honra ferida em crimes contra a mulher. Fonte: acompanhamento processual da ADPF 779 no STF ⚠️ [VERIFICAR: relator e data do julgamento de mérito].

Casos hipotéticos

Caso hipotético 1 — o pai e o fogo

Pedro descobre que o vizinho abusou sexualmente de sua filha de 7 anos. Dois dias depois, rende o vizinho, amarra-o e ateia fogo ao corpo. Solução: relevante valor moral (§ 1º) + meio cruel (inciso III, objetiva) = homicídio híbrido. Não há violenta emoção (faltou a imediatidade), mas o relevante valor moral não a exige. Não é hediondo, segundo o STJ.

Caso hipotético 2 — a provocação e a emboscada

Carlos é humilhado publicamente por Márcio num bar. Sai, compra uma faca e espera Márcio por três horas atrás de um muro, atacando-o de surpresa. Solução: não há privilégio pela violenta emoção — o intervalo e a preparação rompem o “logo em seguida”. Responde por homicídio qualificado pela emboscada (inciso IV), com a possível atenuante do art. 65, III, “c”, se os jurados entenderem que agiu sob influência da emoção.

Caso hipotético 3 — a eutanásia com veneno

Ana, a pedido do marido em estado terminal e com dores insuportáveis, ministra-lhe dose letal de medicamento, com o conhecimento dele. Solução: homicídio privilegiado pelo relevante valor moral. A qualificadora do veneno, porém, exige o uso insidioso — às escondidas da vítima. Como o marido sabia, a qualificadora tende a ser afastada, e o crime fica no homicídio privilegiado simples. Se Ana tivesse ministrado o veneno sem o conhecimento dele, haveria homicídio híbrido.

Aplicação prática na Polícia Judiciária

Na delegacia, o privilégio raramente aparece no momento do flagrante. Ele se constrói — ou se desfaz — na prova colhida no inquérito. Por isso, a investigação deve registrar com precisão os dados que o Júri usará depois:

  • Capitulação no flagrante e no indiciamento: a autoridade policial capitula pelos elementos que tem — normalmente, homicídio qualificado. O privilégio é tese defensiva que será decidida pelos jurados; mas o relatório deve narrar com fidelidade os indícios de provocação, motivo e estado emocional, sem omissões que distorçam o fato.
  • Imediatidade: fixe a linha do tempo entre a provocação e a reação (testemunhas, câmeras, registros de celular, dados de geolocalização). Minutos ou horas fazem a diferença entre o § 1º e a atenuante genérica.
  • Qualificadora objetiva: a prova é pericial. Formule quesitos específicos ao IML: número e sede das lesões, sinais de reação vital, presença de fuligem nas vias aéreas e dosagem de carboxi-hemoglobina em caso de fogo, sinais de asfixia, pesquisa toxicológica quando houver suspeita de veneno.
  • Prisão temporária: no homicídio qualificado, hediondo, o prazo é de 30 dias, prorrogável por igual período (Lei 8.072/1990, art. 2º, § 4º). Na fase de inquérito, prevalece a capitulação qualificada; o reconhecimento do privilégio, que afasta a hediondez, ocorre depois.
  • Concurso de pessoas: investigue o motivo de cada agente separadamente. O privilégio não se comunica (art. 30), e o relatório deve deixar claro quem agiu por qual motivo.
  • Crimes contra a mulher: após a ADPF 779, não reproduza no relatório narrativas de “honra” como justificativa. Registre fatos; a valoração jurídica é do Ministério Público e do Judiciário.

Como cai na prova

Questão real de concurso disponível no banco de questões do Estratégia Concursos apresenta, entre outras, duas proposições centrais ⚠️ [VERIFICAR: banca, cargo e ano da prova]:

  • Afirmação de que as privilegiadoras podem coexistir, no homicídio, com as qualificadoras de natureza objetiva. Correta: é a tese do homicídio híbrido.
  • Afirmação de que o homicídio qualificado-privilegiado seria hediondo para o STJ porque a qualificadora prepondera sobre o privilégio. Errada: o STJ afasta a hediondez por ausência de previsão legal.

Simulado discursivo: “Diferencie o homicídio privilegiado pela violenta emoção da atenuante do art. 65, III, ‘c’, do CP e explique se o privilégio pode coexistir com a qualificadora da emboscada.” Espelho: domínio × influência; imediatidade × ausência de exigência temporal; provocação injusta × ato injusto; compatibilidade teórica com qualificadora objetiva, mas incompatibilidade fática provável entre violenta emoção imediata e emboscada.

Perguntas frequentes

O que é homicídio híbrido?

É o homicídio ao mesmo tempo privilegiado (art. 121, § 1º) e qualificado (§ 2º). Só é admitido quando a qualificadora é objetiva — meio ou modo de execução, como fogo, veneno, asfixia ou recurso que dificulte a defesa —, porque o privilégio é sempre subjetivo e não convive com qualificadoras de motivo.

Homicídio privilegiado-qualificado é crime hediondo?

Para o STJ, não. A Lei 8.072/1990 menciona o homicídio qualificado, mas não a figura híbrida, e a interpretação extensiva em prejuízo do réu é vedada. Na prática, isso altera a progressão de regime, o livramento condicional e o prazo da prisão temporária.

O juiz pode deixar de reduzir a pena se os jurados reconhecerem o privilégio?

A lei diz que o juiz “pode” reduzir, mas, reconhecido o privilégio pelo Conselho de Sentença, a redução é tratada como obrigatória em respeito à soberania dos veredictos. A margem do juiz está na fração, entre 1/6 e 1/3, que deve ser fundamentada ⚠️ [VERIFICAR: precedente do STJ sobre a obrigatoriedade da redução].

Existe feminicídio privilegiado?

Desde a Lei 14.994/2024, o feminicídio é crime autônomo (art. 121-A), sem previsão de privilégio. Discute-se a aplicação analógica do § 1º do art. 121 em favor do réu. Não se confunda com a legítima defesa da honra, vedada pelo STF na ADPF 779.

Conclusão

O homicídio híbrido é admitido pela doutrina majoritária e pelos tribunais superiores sempre que o privilégio subjetivo se combina com uma qualificadora objetiva, e não é hediondo segundo o STJ. O que exige atenção hoje é o novo mapa das qualificadoras: feminicídio e vicaricídio como crimes autônomos, qualificadora funcional ampliada, homicídio em escola e a figura do § 2º-D. Para o candidato, o tema é cobrança certa em objetivas, discursivas e na prova oral. Para o delegado, é questão de prova bem colhida desde o primeiro dia do inquérito.

Quer dominar temas como este para a prova de Delegado? Conheça a Mentoria do Delegado Ronaldo Entringe e assine o Boletim de Inteligência Jurídica e Estratégica, com atualizações semanais de doutrina, jurisprudência e peças.

Leia também

  • Homicídio qualificado: qualificadoras subjetivas e objetivas
  • Feminicídio como crime autônomo: o novo art. 121-A do Código Penal
  • Quesitação no Tribunal do Júri: ordem dos quesitos e nulidades

Sobre o autor

Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá, Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. Professor de Medicina Legal, mentor de candidatos a Delegado e autor de livros e e-books, é mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco.

Professor & Coach Delegado Ronaldo Entringe

O Delegado Ronaldo Entringe é um estudioso na área de preparação para Concursos Públicos - Carreiras Policiais, e certamente irá auxiliá-lo em sua jornada até a aprovação, vencendo os percalços que irão surgir nesta cruzada, sobretudo através do planejamento estratégico das matérias mais recorrentes do certame e o acompanhamento personalizado.