Inquérito no STF apura lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas a casas de apostas. Advogado teve até R$ 6 bilhões bloqueados; senador deixou o país após ordem de entregar o passaporte. Os dois negam irregularidades.
A Polícia Federal investiga, em inquérito sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), se o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz participaram de operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas ao mercado de apostas on-line. O caso nasceu na Justiça Federal do Rio Grande do Sul e subiu ao Supremo em outubro por envolver um senador. Ambos são investigados: não há denúncia nem indiciamento.
Segundo o relatório da PF, noticiado por CNN Brasil, Folha, Estadão e O Globo, a apuração reúne três frentes: a movimentação financeira do advogado, a rede de empresas ligadas a ele no setor de bets do Rio de Janeiro e os vínculos financeiros com o senador. Flávio afirma que a relação é “exclusivamente pessoal”. Willer diz que suas empresas são lícitas e declaradas e fala em “pescaria probatória” com fins eleitorais.
O modus operandi descrito pela PF
Os investigadores descrevem um padrão, e não uma conclusão. Pelo que foi divulgado do relatório, a PF aponta:
- Movimentação atípica: cerca de R$ 130 milhões passaram por uma conta do advogado entre março e maio de 2025, com “aparente incompatibilidade com as atividades econômicas conhecidas”, segundo trecho do relatório citado pela CNN Brasil.
- Estrutura empresarial: empresas com estrutura operacional que, para a PF, “não parece compatível” com o volume movimentado, o que poderia dificultar a identificação da origem, do destino e do beneficiário final dos recursos.
- Offshore em Portugal: a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, região com tributação favorecida, tinha conta no Santander na qual Flávio aparecia como “usuário master”. Em 22 de maio de 2025, um pedido do escritório de Willer solicitou a exclusão desse acesso, de acordo com e-mails achados na nuvem do advogado.
- Bets: a Cathedral, empresa ligada a Willer e com endereço comum ao da Alcazar, controla a Best Bet, que integra a Rede Loto, primeira casa de apostas licenciada pela Loterj, em 2023.
- Apostas em cassino on-line: a PF apura se apostas sucessivas na plataforma Blaze serviram para lavar dinheiro. O comprovante anual de 2025 registra R$ 4,8 bilhões em ganhos e quase R$ 5 bilhões em perdas.
O número das apostas exige cuidado. Os bilhões representam o giro de valores reapostados em sequência, e não depósitos de dinheiro novo. O resultado líquido, segundo o próprio advogado, foi uma perda de R$ 163,2 milhões, valor que ele tenta recuperar na Justiça de São Paulo, alegando ser viciado em jogo.
Quem ganhou o quê: o proveito econômico em apuração
A pergunta central de toda investigação de lavagem é quem se beneficiou. No caso de Flávio, o que foi divulgado até agora aponta benefícios indiretos, e não repasses em dinheiro:
- ao menos três trechos de voos do senador na Europa, em abril e maio de 2025, pagos pela Cathedral, conforme revelou a Folha de S.Paulo;
- uso, em janeiro de 2025, de um jato Legacy 650 que tinha como cotistas Willer (via Alcazar) e uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, do Banco Master. Willer afirma ter pago com suas próprias horas de voo;
- a hipótese, ainda não comprovada, de participação societária ou econômica de Flávio nos negócios, sem que ele conste formalmente como sócio.
A investigação também apura uma licitação de 2022 da Loterj vencida pela Pixs Cobrança, atual RioPag, empresa da qual Willer seria, segundo a PF, o dono de fato. A única concorrente foi desclassificada por escrever o percentual de repasse com duas casas decimais, e não três, como exigia o edital. A partir daí, a Pixs teria negociado diretamente com a autarquia. O então presidente da Loterj, Hazenclever Lopes Cançado, havia sido indicado com apoio de Flávio, de acordo com o SBT News. O ex-governador Cláudio Castro (PL) também aparece no inquérito, por proximidade com o advogado. A defesa de Castro diz que ele não participou da licitação.
As medidas já decretadas
Em 23 de outubro, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens de Willer, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial, a suspensão das atividades de suas empresas e o cancelamento de seus passaportes, segundo a Agência Brasil. O valor é um teto cautelar, e não uma estimativa de prejuízo. A PF informou que o advogado viajou para Miami depois das buscas de agosto, na Operação Sem Desconto.
Em 25 de outubro, logo após o resultado do segundo turno, no qual Flávio foi derrotado, o ministro mandou reter os passaportes do senador, acolhendo o argumento de risco de fuga. O prazo de entrega terminou em 28 de outubro sem cumprimento, e Flávio desembarcou em Miami com a família. Os detalhes dessa decisão estão na nossa reportagem sobre o cancelamento dos passaportes de Flávio Bolsonaro.
Desdobramento no STJ
Em 19 de outubro, a Operação Linceu cumpriu busca contra Humberto Fontoura Pradera, ex-secretário de Tecnologia do Superior Tribunal de Justiça. Ele é suspeito de antecipar a Willer o conteúdo de decisões ainda não assinadas. Willer nega ter tido acesso irregular a decisões. Pradera não havia se manifestado até a publicação das reportagens consultadas.
Entenda o caso
- 2017 – Willer é preso preventivamente em desdobramento da Lava Jato, suspeito de pagar propina por informações do MPF. Ele sempre negou.
- 2022 – Pixs (atual RioPag) vence licitação da Loterj.
- Maio de 2023 – Rede Loto recebe a primeira licença de bet do Rio.
- Janeiro de 2025 – Flávio, a família e Willer voam no jato com cota de empresa ligada a Vorcaro.
- Março a maio de 2025 – conta do advogado movimenta cerca de R$ 130 milhões, segundo a PF.
- 22/05/2025 – pedido de exclusão do acesso de Flávio à conta da Alcazar.
- Agosto de 2026 – Willer é alvo de buscas na Operação Sem Desconto (INSS).
- Outubro de 2026 – caso sobe ao STF; relatoria de Moraes.
- 19/10 – Operação Linceu mira ex-servidor do STJ.
- 23/10 – bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer.
- 25/10 – Lula vence o segundo turno; Moraes manda reter passaportes de Flávio.
- 28/10 – Flávio chega a Miami.
- 30/10 – defesa pede ao presidente do STF, Edson Fachin, que o caso vá para André Mendonça.
O que diz a lei
- Lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998, art. 1º): ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização ou propriedade de bens vindos de infração penal. Pena de 3 a 10 anos de reclusão e multa, com aumento de um a dois terços se o crime for reiterado ou praticado por organização criminosa.
- Evasão de divisas (Lei 7.492/1986, art. 22): enviar recursos ao exterior sem autorização ou manter depósitos não declarados fora do país. Pena de 2 a 6 anos de reclusão e multa.
- Medidas cautelares (CPP, arts. 319 e 320): proibição de deixar o país e entrega do passaporte. O bloqueio de bens tem base no art. 4º da Lei de Lavagem.
Todos esses crimes são de ação penal pública incondicionada: cabe ao Ministério Público, aqui a Procuradoria-Geral da República, decidir se denuncia.
Jurisprudência relacionada
No julgamento da AP 863/SP (Primeira Turma do STF, relator ministro Edson Fachin, 23/05/2017), o Supremo condenou o então deputado Paulo Maluf por lavagem e firmou que a modalidade “ocultar” é crime permanente: enquanto o dinheiro permanece escondido, o crime continua sendo praticado, o que afeta a contagem da prescrição. Em março de 2025, no HC 232.627, o STF definiu que o foro especial se mantém mesmo após a saída do cargo quando os crimes foram cometidos no exercício do mandato e em razão dele, ponto relevante porque o mandato de Flávio termina em fevereiro de 2027.
Outro lado
A assessoria de Flávio Bolsonaro chamou a investigação de “fake news” e negou a existência de conta conjunta com o advogado. Em 30 de outubro, a defesa pediu que o caso fosse enviado a André Mendonça, relator da Operação Sem Desconto, e alegou impedimento e suspeição de Moraes. Sustentou que a amizade explica as viagens, que o Santander negou haver conta conjunta e que a PF não apontou ato do senador ligado à Rede Loto, à RioPag ou à Loterj. Em nota divulgada em 1º de novembro, Flávio afirmou ser alvo de perseguição política.
Willer Tomaz afirma que “inexiste qualquer movimentação financeira irregular”, que não houve fluxo de recursos com empresas de apostas e que a PF não identificou sua interferência na desclassificação da concorrente na Loterj. Diz ainda que todas as apostas saíram de sua própria conta, o que, para a defesa, afasta a lavagem. Ele também criticou o vazamento de peças às vésperas do segundo turno.
Próximos passos
Fachin deve decidir sobre o pedido de redistribuição e a arguição de suspeição. Moraes analisa o pedido de revisão das medidas contra o senador. A PF ainda vai processar os dados bancários e cambiais obtidos com a quebra de sigilo. Ao fim, poderá indiciar ou não; a palavra final sobre uma eventual denúncia é da PGR.
Análise do Delegado
Movimentação atípica não é lavagem. É o ponto de partida de uma apuração. Para haver crime, a acusação precisa provar a infração antecedente que gerou o dinheiro sujo e o ato de ocultar ou dissimular sua origem. O registro de “usuário master” numa conta bancária é indício de acesso operacional, não prova de titularidade dos recursos. O mesmo vale para viagens pagas por terceiros: podem revelar vantagem indevida, mas também podem ter explicação lícita. A investigação terá de reconstruir o caminho do dinheiro, e não apenas o círculo de relações.
Para quem estuda para Delegado, o caso reúne temas recorrentes em prova: a autonomia do crime de lavagem em relação à infração antecedente (art. 2º, II, da Lei 9.613/1998), a natureza permanente da ocultação, as medidas assecuratórias do art. 4º, as cautelares diversas da prisão do art. 319 do CPP e a regra atual do foro por prerrogativa de função. Aprofunde o tema na nossa análise dogmática do art. 1º da Lei de Lavagem.
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Com informações de
- CNN Brasil – Advogado amigo de Flávio movimentou R$ 130 milhões
- Agência Brasil – Bloqueio de até R$ 6 bilhões
- Folhapress/Diário do Comércio – Inquérito alcança Cláudio Castro e Ramagem
- SBT News – Cronologia da relação entre Flávio e Willer
- SBT News – PF apura apostas de R$ 4,8 bilhões
- O Povo – Operação Linceu
- O Tempo – Nota de Flávio Bolsonaro
- Terra – Casos investigados pela PF

