Você está lendo uma notícia no celular e, de repente, a tela é tomada por um triângulo vermelho, um som de alarme e a frase: “Seu celular está com vírus!”. Logo abaixo, um botão enorme promete “limpar agora”. O susto é real. O vírus, quase sempre, não. Nesse golpe, o perigo não está no aviso: está justamente na “solução” que ele oferece.

O tema ganhou novo destaque com um alerta publicado no Instagram pelo delegado Jorge Figueiredo, que lembrou que o criminoso usa o medo para levar a vítima a instalar aplicativos, entregar dados ou pagar por um serviço inexistente. A partir dessa provocação, explico como o golpe funciona, como reconhecê-lo e o que fazer se você já clicou.
Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. Não identifica vítimas nem investigados além do que já foi divulgado oficialmente pelas autoridades e pela imprensa, e será atualizado se surgirem fatos novos.
1. Resumo do golpe
Ao abrir um site, aparece um aviso alarmante dizendo que o aparelho está infectado e exigindo uma ação imediata. O aviso é falso e vem da própria página visitada, não do sistema do celular. Quem toca no botão pode acabar instalando um aplicativo malicioso, entregando senhas e dados do cartão ou pagando por uma “limpeza” que não existe.
2. Classificação: que golpe é esse e qual crime ele configura
- Tipo: scareware (do inglês scare, “assustar”), isto é, um alerta de segurança falso que usa o medo como isca. Frequentemente vem combinado com o golpe do falso suporte técnico, com aplicativos maliciosos ou com páginas de phishing (páginas falsas que capturam dados).
- Enquadramento penal, conforme o desfecho:
- Vítima paga pela falsa “limpeza”, “licença” ou “assinatura” de proteção: estelionato com fraude eletrônica (art. 171, §2º-A, do Código Penal, incluído pela Lei 14.155/2021), com reclusão de 4 a 8 anos e multa.
- Aplicativo instalado dá ao criminoso o controle do celular e o dinheiro é retirado da conta sem que a vítima perceba: furto mediante fraude eletrônica (art. 155, §4º-B, do CP), também com reclusão de 4 a 8 anos. A diferença para o estelionato é que, aqui, a vítima não entrega o dinheiro: ele é subtraído.
- Instalação de programa malicioso para obter dados ou controlar o aparelho: invasão de dispositivo informático (art. 154-A do CP, criado pela Lei 12.737/2012 e endurecido pela Lei 14.155/2021). O §1º do mesmo artigo pune também quem produz, oferece ou difunde o programa usado para a invasão.
- Aumento de pena: de 1/3 a 2/3 se o crime for praticado com servidor mantido fora do Brasil (arts. 155, §4º-C, I, e 171, §2º-B), e de 1/3 ao dobro se a vítima for idosa ou vulnerável (arts. 155, §4º-C, II, e 171, §4º).
- Quando há grupo estruturado e “contas laranja”: organização criminosa (Lei 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998).
- Dados pessoais: o tratamento ilícito dos dados capturados também afronta a LGPD (Lei 13.709/2018), com reflexos na responsabilização civil e administrativa.
- Atenção, vítima de estelionato: em regra, a investigação depende da sua manifestação de vontade, a chamada representação (art. 171, §5º), em até 6 meses a contar de quando você souber quem é o autor. Não se exige representação quando a vítima é a Administração Pública, criança ou adolescente, pessoa com deficiência mental ou maior de 70 anos. Ao registrar o boletim, declare expressamente que deseja ver o autor processado.
3. Modus operandi: como o golpe acontece
Descrevo as fases apenas no nível necessário para que você reconheça a armadilha.
- Abordagem: o aviso surge enquanto a pessoa navega, em geral por meio de anúncios maliciosos exibidos em sites legítimos, de páginas de filmes, jogos ou downloads piratas, de links recebidos por mensagem ou de notificações que o usuário autorizou sem perceber (“Permitir notificações?”). Às vezes a tela inteira é ocupada e o botão de voltar parece não funcionar.
- Gatilho emocional: o texto informa um número exato de “vírus encontrados”, exibe contagem regressiva, faz o aparelho vibrar ou tocar alarme e imita o visual de empresas conhecidas de tecnologia ou segurança. O objetivo é impedir que a vítima pense.
- Execução: o botão “limpar agora” pode levar a quatro caminhos: (a) baixar um suposto “limpador” ou “antivírus” fora da loja oficial, que na verdade é um programa espião ou de acesso remoto; (b) uma página que cobra por “licença” ou “plano de proteção”, via Pix ou cartão; (c) um telefone ou WhatsApp de “suporte técnico”, onde um falso atendente pede para instalar ferramentas de acesso remoto; ou (d) uma tela falsa de login que captura senhas de e-mail, de loja de aplicativos ou de banco.
- Monetização: cobrança direta pelo serviço falso, assinaturas recorrentes no cartão, transferências feitas pelo próprio criminoso a partir do celular controlado, venda dos dados capturados e uso da conta da vítima para novos golpes. Pesquisadores já registram até variantes que entregam ransomware (programa que sequestra arquivos e cobra resgate).
4. Gatilhos psicológicos explorados
- Medo: a ideia de perder fotos, conversas e o dinheiro guardado no aplicativo do banco.
- Urgência: contagem regressiva e frases como “não ignore este aviso”.
- Autoridade: logotipos, selos e linguagem técnica que imitam o sistema operacional ou marcas de segurança.
- Constrangimento: algumas versões acusam a vítima de ter acessado conteúdo impróprio, para que ela tenha vergonha de pedir ajuda a alguém.
- Alívio imediato: o botão oferece a solução em um único toque, exatamente quando a pessoa está mais nervosa.
5. Sinais de alerta: checklist
- ☐ O aviso apareceu dentro do navegador, enquanto você estava em um site, e o endereço no topo é de um site qualquer.
- ☐ Informa um número exato de vírus (“5 vírus encontrados”) sem que você tenha pedido verificação alguma.
- ☐ Tem contagem regressiva, som de alarme ou vibração.
- ☐ Pede para baixar um aplicativo por link, fora da loja oficial.
- ☐ Exibe telefone ou WhatsApp de “suporte”. Alertas verdadeiros de antivírus não trazem número para ligar.
- ☐ Cobra por Pix, cartão, criptomoeda ou cartão-presente para “remover” a ameaça.
- ☐ Pede senha do e-mail, da conta Google/Apple ou do banco.
- ☐ Não deixa fechar a página ou volta a abrir sozinho.
- ☐ Contém erros de português ou tradução estranha.
Regra prática: um site não tem como examinar o seu celular. Se a página “descobriu” vírus no aparelho, ela está mentindo.
6. Prevenção: medidas práticas
Na hora em que o aviso aparecer:
- Não toque em nada dentro do aviso, nem no “X” ou no “cancelar”, que também podem ser falsos.
- Feche a aba pelos controles do próprio navegador (o ícone de abas, no topo ou na base da tela) ou feche o aplicativo do navegador pela lista de apps abertos.
- Se a tela travar, reinicie o celular. Ao reabrir o navegador, não restaure a aba anterior.
No dia a dia:
- Responda “Bloquear” sempre que um site pedir para enviar notificações, a menos que você confie nele.
- Revise as notificações já autorizadas: no Chrome, em Configurações > Configurações do site > Notificações; remova os sites que você não reconhece.
- Ative a Navegação Segura do navegador (no Chrome, a opção de proteção reforçada) e mantenha o bloqueador de pop-ups ligado.
- Instale aplicativos apenas pela Google Play ou pela App Store e mantenha bloqueada a instalação de “fontes desconhecidas” no Android. Deixe o Google Play Protect ativado.
- Mantenha o sistema e o navegador atualizados.
- Ative a verificação em duas etapas no e-mail, nas redes sociais e no WhatsApp, e use senhas diferentes para cada serviço.
- Configure no aplicativo do banco um limite baixo de Pix, especialmente no período noturno.
- Evite sites de filmes, jogos e downloads piratas, onde esses anúncios são mais comuns.
7. Já cliquei ou fui vítima: o que fazer
Não se culpe: o golpe foi desenhado para enganar pessoas atentas. O importante é agir rápido, de acordo com o que aconteceu.
- Só viu o aviso e fechou: em regra, nada aconteceu. Limpe os dados de navegação e revise as notificações autorizadas.
- Instalou algum aplicativo: coloque o celular em modo avião, desinstale o app e faça uma verificação pelo Play Protect. Se o app pediu permissões de “Acessibilidade” ou de “Administrador do dispositivo”, revogue-as antes. Na dúvida, procure assistência técnica de confiança; em último caso, faça backup e restaure o aparelho às configurações de fábrica.
- Deu acesso remoto a um “técnico”: desligue a internet do aparelho e, de outro telefone, ligue para o seu banco pelo número oficial (do verso do cartão ou do site do banco).
- Digitou senhas: troque-as imediatamente, a partir de outro aparelho, começando pelo e-mail principal, e ative a verificação em duas etapas.
- Informou cartão ou pagou: bloqueie o cartão no app ou na central do banco e conteste a compra. Se o pagamento foi por Pix, peça na hora a abertura do MED (Mecanismo Especial de Devolução do Pix); quanto antes, maior a chance de bloquear o valor na conta de destino.
- Preserve as provas: não apague nada. Faça prints do aviso com o endereço (URL) visível, com data e hora, além dos comprovantes, das conversas com o falso suporte e do nome do aplicativo instalado.
- Registre boletim de ocorrência, presencialmente ou pela delegacia virtual do seu estado, declarando que deseja representar contra o autor.
- Denuncie: o site falso à Navegação Segura do Google e à SaferNet Brasil; o aplicativo à loja onde ele estava, se for o caso.
- Consulte o Registrato (Banco Central) para conferir se surgiram contas, chaves Pix ou empréstimos em seu nome.
- Se o banco não resolver, registre reclamação na ouvidoria da instituição e no consumidor.gov.br.
8. Públicos mais vulneráveis e cuidados específicos
- Idosos: são os alvos preferenciais do falso suporte técnico. Configure pessoalmente o celular deles: notificações de sites bloqueadas, instalação de apps só pela loja oficial e limite de Pix reduzido. Combine uma regra simples: “apareceu aviso de vírus, desliga o celular e me liga”.
- Crianças e adolescentes: sites de jogos, filmes e “mods” concentram esse tipo de anúncio. Use controle parental e explique, sem alarmismo, que nenhum site pode “ver” vírus no celular.
- Quem usa o celular para trabalhar ou vender: o aparelho concentra o banco da empresa, o WhatsApp Business e dados de clientes. Um único app falso compromete tudo.
- Empresas: oriente as equipes a nunca ligar para números exibidos em pop-ups nem instalar ferramentas de acesso remoto a pedido de terceiros. Todo incidente deve ir direto para a TI interna, por canal previamente definido.
9. Casos reais e números
Operação Chakra-V (Índia, 2025). Em maio de 2025, o Central Bureau of Investigation (CBI), a polícia federal indiana, cumpriu buscas em 19 endereços de Delhi, Haryana e Uttar Pradesh, prendeu seis pessoas e desmontou duas centrais clandestinas de falso suporte técnico. A ação contou com a polícia do Japão e com a Microsoft. Segundo a cobertura especializada, o esquema se apoiava justamente em pop-ups falsos que convenciam as vítimas, sobretudo idosos japoneses, de que o computador estava com defeito, e exibiam um número para “ligar para a Microsoft”. A empresa informou ter derrubado cerca de 66 mil domínios e endereços maliciosos ligados a esse tipo de fraude desde maio de 2024.
CypherLoc (2026). Em maio de 2026, pesquisadores da Barracuda descreveram um kit de scareware que trava o navegador em tela cheia, esconde o cursor e exibe um número falso de suporte como única saída. A empresa contabilizou cerca de 2,8 milhões de ataques com o kit desde o início do ano.
Help TDS (outubro de 2026). Reportagem do IPNews mostrou que a Infoblox Threat Intel identificou mais de 20 mil domínios associados a uma operação de falso suporte técnico que usa hospedagem gratuita e um sistema que redireciona o visitante conforme o país e o tipo de aparelho.
Os números do prejuízo. O relatório anual de 2025 do Internet Crime Complaint Center (IC3), do FBI, apontou perdas de US$ 2,1 bilhões com golpes de falso suporte técnico e de atendimento ao cliente nos Estados Unidos, com os idosos entre as maiores vítimas. Do lado da defesa, o Google informou em 2026 que o Chrome para Android passou a barrar mais de 7 bilhões de notificações abusivas por dia, revogando automaticamente permissões de sites suspeitos.
Passe adiante: envie este texto para seus pais, avós e para o grupo da família. Quem já conhece a armadilha dificilmente cai nela.
Opinião do Autor
Em quinze anos de polícia, percebi que os golpes digitais mais eficientes raramente dependem de alta tecnologia. Dependem de um segundo de pânico. O falso alerta de vírus é a prova disso: o criminoso não invade nada, ele convence a própria vítima a abrir a porta. Por isso insisto que a principal defesa é um hábito, e não um programa. Diante de qualquer aviso alarmante, pare, feche pelo navegador e confirme por outro caminho. Também peço que ninguém tenha vergonha de procurar a delegacia. Cada boletim de ocorrência bem documentado, com prints, endereço do site e comprovantes, ajuda a identificar domínios, contas de recebimento e, no fim da linha, quem está por trás do esquema.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal: Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes
- Alerta sobre o golpe do falso aviso de vírus — Instagram do delegado Jorge Figueiredo (@delegadojorgefigueiredo), outubro de 2026.
- CBI, Japan Police Bust Tech Support Call Centre Scam Targeting Japanese Nationals, 6 Arrested — Moneylife, 29/05/2025.
- Microsoft moves to stop Indian fake tech support scams — TechRadar, junho de 2025.
- Microsoft Helps CBI Dismantle Indian Call Centers Behind Japanese Tech Support Scam — The Hacker News, 06/06/2025.
- Novo scareware engana 2,8 milhões de vítimas — CISO Advisor, maio de 2026.
- Golpe de falso suporte técnico usa hospedagem gratuita para criar milhares de páginas — IPNews, 20/10/2026.
- New FBI Report: $20.9 Billion Lost to Internet Crimes in 2025, Older Adults Hit Hardest — AARP, 2026.
- Google says Chrome blocked seven billion malicious Android notifications every day — TechRadar, agosto de 2026.
- Vírus falsos: como saber se um alerta de vírus é real? — Avast Academy, 2025.
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Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil, atual Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR) da Polícia Civil do Amapá, com 15 anos de experiência policial. É professor de Medicina Legal e escritor, mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC, Espanha) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco. Atua ainda como mentor de carreiras policiais, preparando futuros Delegados de Polícia para todas as fases do concurso.
