Primeiro foi a peça. Depois, outra peça. Depois, o motor. No fim, o “mecânico” queria R$ 20 mil para trocar o carro inteiro.
Em uma frase!
Estranho pedindo dinheiro em nome de um conhecido? Ligue para o conhecido antes de qualquer Pix.
Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. A vítima não é identificada, e o autor do golpe não havia sido identificado até a publicação da reportagem. O texto poderá ser atualizado se surgirem fatos novos. O caso fictício é identificado como tal e não se refere a pessoas reais.

O que aconteceu
Na véspera de Natal de 2024, em Dourados (MS), uma senhora de 60 anos atendeu a ligação de um homem que se apresentou como mecânico. Ele contou que estava socorrendo um conhecido da família, parado na estrada com o carro quebrado, e fez um suspense: o conhecido estava a caminho da casa dela, para uma surpresa de fim de ano. Para comprar a peça, precisava de R$ 2 mil. Ela mandou o Pix na hora.
A cada transferência, aparecia um defeito novo: vieram mais pedidos de R$ 4,5 mil, R$ 5,2 mil e R$ 1,5 mil. Por fim, o “mecânico” disse que o carro não tinha conserto e pediu R$ 20 mil para trocá-lo. Preocupada, a senhora ligou para o amigo da família. Ele estava bem, em casa, e o carro dele nunca tinha quebrado. O prejuízo passou de R$ 13 mil, e o caso foi registrado como estelionato na delegacia de Dourados.
E se fosse com você? (caso fictício)
Seu José, 72 anos, atende o telefone num sábado à tarde. “Aqui é o Pedro, da borracharia da BR. Seu sobrinho Marcos furou dois pneus aqui e o celular dele descarregou. Ele pediu para o senhor mandar R$ 680 que ele acerta com o senhor quando chegar.” Seu José pede para falar com o sobrinho. “Agora não dá, ele está embaixo do carro me ajudando.” Seu José desliga e liga para o número do Marcos, que atende em casa, assistindo ao jogo.
O golpe em 4 passos
- Oportunidade: o golpista liga para a vítima e cita alguém que ela conhece. Datas festivas, quando muita gente viaja, ajudam a história a parecer verdade.
- Afeto e confiança: ele se apresenta como alguém prestativo, um mecânico ou borracheiro, que está “ajudando” o conhecido. A vítima quer ajudar também.
- Urgência em escada: o primeiro pedido é pequeno. Depois de cada Pix surge um problema novo, e os valores sobem.
- Saída do dinheiro: as transferências vão para contas de terceiros (os “laranjas”) e são espalhadas em minutos.
3 sinais de golpe
- Um desconhecido pede dinheiro em nome de alguém que você conhece.
- A pessoa conhecida nunca fala com você: celular descarregado, “está ocupado”, “está sem sinal”.
- Depois de cada pagamento, aparece mais um problema e mais um pedido.
O que dizer na hora
Você não precisa discutir nem acusar ninguém. Basta uma frase:
“Vou ligar para ele e já te retorno.”
Se a pessoa insistir que “não dá tempo” ou que “ele não pode atender”, é golpe. Quem está mesmo na estrada pode esperar cinco minutos.
3 atitudes que salvam
- Ligue para a pessoa citada, no número que você já tem, ou para alguém da família dela. Se não conseguir falar, não pague.
- Pare no primeiro pedido. Se você já pagou uma vez e veio um segundo pedido, é sinal forte de golpe. Não mande o segundo Pix para “tentar recuperar” o primeiro.
- Se já pagou: avise o banco na hora e peça o MED do Pix para cada transferência, guarde os comprovantes e o número que ligou, e registre boletim de ocorrência.
Telefones úteis
- 190: emergência (Polícia Militar).
- 197: Polícia Civil, nos estados que têm esse número.
- 191: Polícia Rodoviária Federal. Se alguém da família estiver mesmo com problema numa rodovia federal, a PRF pode ajudar.
- Seu banco: o número atrás do cartão ou no aplicativo oficial, para pedir o MED. Nunca use número passado por quem ligou.
Golpe ou verdade? Teste rápido
1. “O mecânico disse que meu primo está sem celular e pediu o Pix na conta dele.”
👉 Golpe. Sem falar com o primo, não há como saber se a história é verdade.
2. “Meu filho me ligou do próprio celular, disse que o carro quebrou e me passou a chave Pix da oficina.”
👉 Verdade. Quem pediu foi a pessoa que você conhece, no número dela.
3. “Já mandei R$ 2 mil e agora ele diz que falta outra peça.”
👉 Golpe. Pedido que cresce depois de cada pagamento é a marca desse golpe.
Palavras deste texto, explicadas
- Golpe em escada: quando o criminoso pede pouco no começo e vai aumentando o valor a cada pagamento.
- Pix: transferência que cai na hora e não pode ser cancelada pelo aplicativo.
- Laranja: pessoa que empresta a conta para o golpista receber o dinheiro.
- MED: pedido ao banco para tentar bloquear e devolver o dinheiro do golpe.
- Boletim de ocorrência: registro do crime na polícia, feito na delegacia ou pela internet.
O que diz a lei
Quem engana a vítima por telefone para conseguir transferências responde por estelionato eletrônico (art. 171, § 2º-A, do Código Penal, pena de 4 a 8 anos). Como a vítima tinha 60 anos, idosa pela lei, a pena pode ser aumentada de um terço ao dobro (§ 4º). Quem vende, aluga ou empresta a conta para receber o dinheiro responde pelo crime de cessão de conta laranja (art. 171, § 2º, VII, do Código Penal), com pena de 1 a 5 anos, e o grupo, por associação criminosa (art. 288).
Repasse no WhatsApp da família
ALERTA: golpista liga dizendo ser MECÂNICO e que está socorrendo um conhecido seu na estrada.
Pede Pix para peças, e a cada Pix aparece um defeito novo.
ANTES de pagar, ligue você para o conhecido.
Repasse para seus pais e avós.
Opinião do Autor
Esse golpe se alimenta da boa vontade. Quem quer ajudar um amigo em apuros paga a primeira peça sem pensar e, depois, paga as outras para não “perder” o que já mandou. É assim que R$ 2 mil viram R$ 13 mil. Na época de festas, quando a família está na estrada, combine uma regra simples em casa: pedido de dinheiro só vale se vier da boca da própria pessoa.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal:
Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes
- Idosa cai em golpe e perde R$ 13,6 mil na véspera de Natal em MS — Correio do Estado, 25/12/2024
- Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940) — Planalto
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