Terça-feira, 15h20. O celular de seu Antônio, 68 anos, toca. Na tela aparecem a foto e o nome que ele conhece de cor: “Carla – filha”. Do outro lado, uma voz abafada e chorosa diz que houve um acidente e que “o policial” vai explicar o resto. O suposto policial é educado, firme e tem pressa: são R$ 6 mil por Pix, agora, para “evitar a apreensão do carro e a condução da sua filha”.
Seu Antônio já está com o aplicativo do banco aberto quando a neta, sentada ao lado, sugere: “Vô, desliga e liga você para ela.” Carla atende do escritório, tranquila. Não ligou para ninguém. Não bateu o carro. E o celular dela nunca saiu da bolsa.

A cena acima é fictícia e foi criada para fins didáticos. O detalhe que mais assusta, porém, é real: o nome e o número da filha apareceram corretamente na tela. Reportagem do g1 Paraná, de setembro de 2026, mostrou casos assim. Uma autônoma descobriu que o próprio número tinha sido usado numa ligação de golpe para um parente, sem que o celular dela tivesse sido clonado. Na mesma época, a Polícia Civil de Foz do Iguaçu alertou que criminosos estavam usando até o número oficial da delegacia. O nome disso é spoofing. Este guia reúne tudo o que você precisa saber para não ser enganado por ele.
Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. A cena de abertura é fictícia, e qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência. Os casos reais mencionados não identificam vítimas nem investigados além do que já foi divulgado pela imprensa e pelos órgãos oficiais. Por razões de segurança, o texto descreve o golpe apenas o suficiente para que você o reconheça, sem detalhes técnicos que permitam reproduzi-lo. O guia será atualizado se surgirem fatos novos ou novas regras da Anatel.
1. O golpe em poucas palavras
Spoofing (do inglês to spoof, “falsificar”, “disfarçar”) é a falsificação do número que aparece no identificador de chamadas. O criminoso liga de um lugar e faz surgir na sua tela outro número: o do seu filho, do seu banco, da delegacia, do escritório do seu advogado ou até o seu próprio. Como o número está salvo na sua agenda, o celular mostra o nome e a foto do contato, e você atende confiando em quem não está do outro lado.
A ideia central deste guia cabe numa frase: o número na tela não prova quem está ligando. Ele é só uma informação, e essa informação pode ser forjada.
2. Por que o número “certo” aparece na tela?
Pense numa carta pelo correio. No envelope existe o campo do remetente, e nada impede que alguém escreva ali o nome e o endereço de outra pessoa. O carteiro entrega a carta mesmo assim. O identificador de chamadas funciona de forma parecida: em certas redes e serviços de telefonia pela internet, a informação “quem está ligando” viaja junto com a chamada e pode ser adulterada por quem controla a origem da ligação.
Segundo especialistas ouvidos pela imprensa, os golpistas usam centrais telefônicas clandestinas ou serviços contratados de forma irregular, com programas que permitem trocar o número exibido. Três pontos são importantes para o leitor leigo:
- Não há clonagem do chip nem invasão do celular de quem teve o número usado. O aparelho dessa pessoa continua funcionando normalmente.
- O golpista só consegue falsificar a ligação que ele faz. Ele não recebe as ligações destinadas àquele número. Por isso, quando você desliga e liga para o número salvo na sua agenda, quem atende é a pessoa verdadeira. Essa é a sua maior arma, como veremos adiante.
- O golpe é preparado com dados reais. Para saber quem é o seu filho e qual é o número dele, os criminosos cruzam informações de vazamentos de dados antigos com perfis públicos em redes sociais, onde marcações e comentários revelam parentes, amigos e colegas. Mais raramente, um aplicativo malicioso instalado no celular pode ter copiado a agenda de contatos.
3. Spoofing não é clonagem: entenda a diferença
Muita gente chama tudo de “clonaram meu número”. Mas são golpes diferentes, com sinais diferentes e reações diferentes. Saber qual é qual evita pânico e acelera a resposta certa.
| Golpe | O que o criminoso tem nas mãos | Sinal típico | Saiba mais |
|---|---|---|---|
| Spoofing | Apenas a aparência do número na tela de quem recebe a ligação | Ligação de um contato conhecido com pedido urgente; o dono do número nega ter ligado | Este guia |
| SIM swap | A sua linha de verdade, transferida para outro chip | Seu celular fica sem sinal de repente | SIM swap |
| Número novo / falso parente | Um número qualquer com a sua foto e o seu nome no perfil | “Mudei de número, salva aí” e, logo depois, um pedido de Pix | Número novo |
| Clonagem do WhatsApp | A sua conta de WhatsApp, ativada em outro aparelho | Pedido de “código de verificação” por SMS | Código de verificação |
| Voz clonada por IA | Uma imitação da sua voz feita a partir de áudios e vídeos | A voz é idêntica, mas a pessoa foge de perguntas pessoais | Voz clonada |
Atenção: esses golpes podem ser combinados. A versão mais perigosa junta o número falsificado do parente na tela com uma voz imitada por inteligência artificial. É por isso que nem o número nem a voz bastam como prova.
4. As faces do mesmo golpe
A técnica é uma só, mas o figurino muda conforme a vítima. Estas são as versões mais comuns no Brasil:
- O parente em apuros: aparece o nome do filho, do neto ou do irmão. A história envolve acidente, prisão, assalto ou hospital, e quase sempre entra em cena um “policial”, “advogado” ou “médico” para pedir dinheiro.
- A falsa central do banco: aparece o número oficial do banco, muitas vezes o mesmo impresso no verso do cartão. O “atendente” fala de uma compra suspeita e pede senha, código, instalação de aplicativo ou transferência para uma “conta segura”. Veja o guia específico: Golpe da Falsa Central.
- A falsa delegacia ou órgão público: aparece o telefone de uma delegacia, de um fórum, da Receita ou do INSS. O tom é de intimação, multa, processo ou mandado, sempre com uma “solução” paga na hora.
- O falso advogado: aparece o número real do escritório que cuida do seu processo. O golpista conhece dados verdadeiros da ação e cobra uma “taxa” para liberar valores. A OAB/RS emitiu alerta específico sobre essa variante em agosto de 2026.
- O seu próprio número ou números parecidos: a ligação parece vir do seu número ou de um número com o mesmo DDD e o mesmo começo do seu. É uma forma de despertar curiosidade e aumentar a chance de você atender.
- O número estrangeiro: chamadas rápidas de códigos internacionais, feitas para você ligar de volta. Veja o guia: Chamada perdida do exterior.
5. Que crime é esse?
O spoofing é a ferramenta; o crime é o que vem depois dele. Conforme o caso, o enquadramento pode envolver:
- Fraude eletrônica (art. 171, § 2º-A, do Código Penal), incluída pela Lei 14.155/2021: estelionato em que a vítima é enganada por contato telefônico, redes sociais ou mensagens. Pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa. A pena aumenta de 1/3 a 2/3 se o crime usar servidor fora do Brasil (§ 2º-B) e de 1/3 até o dobro se a vítima for idosa ou vulnerável (§ 4º).
- Extorsão (art. 158 do CP), quando a encenação usa ameaça, como no falso sequestro com o número do parente na tela.
- Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do CP), criado pela Lei 12.737/2012, quando a ligação serve para levar a vítima a instalar um aplicativo de acesso remoto e o criminoso passa a controlar o aparelho.
- Falsa identidade (art. 307 do CP) e fingir-se funcionário público (art. 45 da Lei das Contravenções Penais), quando o golpista se apresenta como policial ou servidor. Em regra, quando servem apenas como meio para o golpe, essas condutas ficam absorvidas pelo estelionato, num raciocínio semelhante ao da Súmula 17 do STJ.
- Atividade clandestina de telecomunicações (art. 183 da Lei 9.472/1997), com pena de 2 a 4 anos de detenção, para quem explora serviço de telecomunicações sem autorização, como centrais montadas à margem da regulação.
- Organização criminosa (Lei 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998), quando há estrutura de quadrilha e o dinheiro passa por contas de terceiros.
- LGPD (Lei 13.709/2018): o golpe se alimenta de dados pessoais vazados. Empresas que deixam esses dados expostos podem responder administrativamente perante a ANPD e civilmente perante os titulares.
E o banco? Pela Súmula 479 do STJ, as instituições financeiras respondem objetivamente por danos causados por fraudes ligadas aos riscos da própria atividade. Nos golpes por telefone, os tribunais analisam caso a caso se houve falha de segurança do banco, por exemplo ao aprovar transações muito fora do perfil do cliente, ou culpa exclusiva da vítima. Por isso, guardar provas e comunicar o banco imediatamente faz diferença também no processo civil.
6. Como o golpe acontece
Sem detalhes técnicos, o roteiro costuma seguir quatro fases:
- Abordagem (preparação): o criminoso escolhe a vítima e o “personagem”. Ele descobre quem são seus parentes, seu banco ou seu advogado a partir de dados vazados e redes sociais. Depois, faz a ligação com o número dessa pessoa ou instituição aparecendo na sua tela.
- Gatilho emocional: logo nos primeiros segundos vem o susto: acidente, prisão, compra suspeita, conta invadida, intimação. O objetivo é tirar você do modo racional.
- Execução: o golpista mantém você na linha, dá ordens, pede sigilo (“não fala com ninguém”, “não desligue senão a operação cai”) e conduz cada passo: digitar senha, ler um código, instalar um aplicativo ou abrir o Pix.
- Monetização: o dinheiro vai por Pix ou transferência para contas de terceiros, os chamados laranjas, e é espalhado em poucos minutos. Em algumas variantes, os dados obtidos são usados para empréstimos e compras em seu nome.
7. Os gatilhos psicológicos explorados
- Confiança visual: o golpe começa antes de você atender. O nome conhecido na tela baixa a guarda.
- Afeto: quando o “contato” é um filho ou neto, o impulso de proteger fala mais alto.
- Medo: prisão, acidente, conta zerada, processo. São cenários que paralisam o raciocínio.
- Autoridade: o número da delegacia, do banco ou do escritório dá ao golpista um “uniforme” de legitimidade.
- Urgência e sigilo: “tem que ser agora” e “não conte a ninguém” existem para impedir a checagem.
8. Sinais de alerta
- ☐ Ligação de contato conhecido, mas com voz estranha, abafada, chorosa ou que logo passa o telefone para “outra pessoa”.
- ☐ Pedido de dinheiro, Pix, senha, código ou dados bancários durante a ligação.
- ☐ Pressão para não desligar, não contar a ninguém ou resolver “agora”.
- ☐ Banco, polícia ou fórum resolvendo problema por telefone com pagamento imediato. Nenhum desses órgãos cobra fiança, multa ou “taxa de liberação” por Pix numa ligação.
- ☐ Orientação para instalar aplicativo, “atualizar segurança” ou transferir para uma “conta segura”.
- ☐ A pessoa “do seu contato” não sabe responder a uma pergunta simples que só ela saberia.
- ☐ Ligação do seu próprio número ou de números muito parecidos com o seu.
9. A regra de ouro: desligue e ligue você
Como o golpista só falsifica a ligação que ele mesmo faz, existe um teste simples e muito eficaz: desligue e faça você a ligação, escolhendo o contato na sua agenda ou digitando o número oficial do banco ou órgão. A ligação feita por você chega ao dono verdadeiro da linha. Três cuidados tornam a regra à prova de falhas:
- Nunca use o número informado durante a ligação suspeita, nem retorne números estrangeiros ou estranhos que ligaram para você.
- Espere alguns segundos ou ligue de outro aparelho antes de discar para o banco, para garantir que a chamada anterior foi mesmo encerrada.
- Se o parente não atender, fale com outra pessoa próxima a ele. Não transfira nada enquanto não confirmar.
Outras medidas de prevenção
- Combine uma palavra-senha com a família, uma palavra ou pergunta que só vocês conhecem e que não esteja nas redes. Qualquer pedido de socorro com dinheiro só é atendido com a senha correta.
- Grave esta frase: banco não liga pedindo senha, token, código ou transferência. Polícia e Justiça não cobram nada por Pix numa ligação.
- Reduza a vitrine: deixe perfis fechados, evite marcar parentes publicamente e não exponha o número de celular em bio e anúncios.
- Ative os filtros do celular e da operadora: os recursos de identificação de spam do Android e do iPhone e os serviços antispam das operadoras ajudam contra números desconhecidos. Saiba, porém, que eles não detectam a versão do “parente”, porque o número exibido é de um contato salvo. Aqui, a defesa é o seu comportamento.
- Configure limites de Pix mais baixos, especialmente à noite, e mantenha o aplicativo do banco com biometria.
- Instale aplicativos só das lojas oficiais e desconfie dos que pedem acesso à agenda sem motivo.
- Nas empresas: nenhum pagamento fora do fluxo, mesmo “pedido pelo diretor” por telefone, sem dupla aprovação e confirmação por outro canal.
10. O que a Anatel, as operadoras e os bancos estão fazendo
- Origem Verificada: é a versão brasileira do padrão internacional STIR/SHAKEN. A operadora de origem “assina” digitalmente a ligação, e a de destino confere a assinatura. Em celulares compatíveis, a chamada de empresas autenticadas aparece com selo, nome e, às vezes, o motivo do contato. Desde novembro de 2025, a Anatel exige a autenticação das ligações de quem faz mais de 500 mil chamadas por mês. Segundo a associação do setor de telesserviços, países que adotaram o modelo, como Estados Unidos e Canadá, reduziram o spoofing em cerca de 80%.
- Bloqueio e rastreamento: em 16 de setembro de 2026, a Anatel publicou seis medidas cautelares para bloquear e rastrear chamadas com número de origem adulterado. A agência apontou duas empresas responsáveis por mais de 4,3 milhões dessas chamadas, num universo que passa de 203 milhões de ligações adulteradas entre setembro de 2025 e junho de 2026, e exigiu que operadoras identifiquem a origem do tráfego.
- Bancos e sistemas operacionais: desde maio de 2026, em projeto-piloto, o Itaú e o Google bloqueiam no Android (versão 11 ou superior, com um aplicativo do banco instalado) ligações que usam números do banco que só recebem chamadas e nunca ligam para clientes.
O limite dessas medidas: elas avançam sobretudo nas chamadas de empresas. O número do seu filho não tem selo de verificação, e a ausência de selo não prova que a ligação é falsa. A presença do selo também não autoriza ninguém a pedir sua senha. A tecnologia ajuda, mas a última barreira continua sendo a regra de ouro.
11. Já fui vítima: o que fazer
- Ligue imediatamente para o seu banco pelos canais oficiais (aplicativo ou número do cartão) e peça o bloqueio e a contestação pelo MED – Mecanismo Especial de Devolução do Pix. Quanto mais cedo, maior a chance de bloquear o dinheiro antes que ele seja espalhado.
- Se passou senha ou instalou aplicativo: troque as senhas por outro aparelho, desinstale o aplicativo suspeito e peça ao banco o bloqueio de acessos e dispositivos.
- Preserve as provas: faça print do histórico de chamadas mostrando número, data e hora; guarde comprovantes, dados da conta de destino e mensagens. Não apague nada.
- Registre boletim de ocorrência na delegacia ou na delegacia virtual do seu estado. Na fraude por transferência ou Pix, a lei permite investigar no domicílio da vítima (art. 70, § 4º, do Código de Processo Penal).
- Avise a pessoa ou a instituição cujo número foi usado e comunique o caso à sua operadora e à Anatel (telefone 1331 ou canais digitais da agência).
- Consulte o Registrato, do Banco Central, para checar se abriram contas ou empréstimos em seu nome.
- Se o banco não resolver, registre reclamação no consumidor.gov.br e no Banco Central.
Cair nesse golpe não é sinal de ingenuidade. Ele foi feito para enganar justamente quem confia e quer ajudar. A vergonha só favorece o criminoso.
12. Usaram o meu número: o que fazer
Você pode descobrir que um parente recebeu uma ligação “sua” que você nunca fez. Calma: isso não significa que seu celular foi invadido. Faça o seguinte:
- Avise seus contatos pelo WhatsApp, pelo status e pelos grupos da família: ninguém deve atender pedidos de dinheiro “seus” sem ligar de volta e confirmar.
- Peça à pessoa enganada o print da tela com data e hora da ligação e registre boletim de ocorrência. Isso documenta que não foi você e ajuda a investigação.
- Comunique a sua operadora.
- Confira o sinal do celular: se ele ficou sem sinal de repente, o caso pode ser outro, o SIM swap. Siga o protocolo de emergência contra o SIM swap.
- Peça para não bloquearem o seu número. O número exibido era o seu, mas quem ligou era outra pessoa. Bloquear você só atrapalha a família de falar com você de verdade.
13. Quem corre mais risco
- Idosos: confiam no nome que aparece na tela e são alvo preferido do “filho em apuros” e da falsa central. Combine a palavra-senha com pais e avós e cole a regra de ouro perto do telefone.
- Pais de jovens que viajam ou moram fora: a distância dificulta a checagem imediata. Mantenha o contato de um amigo ou colega de quarto do seu filho.
- Quem tem processo na Justiça: é o alvo do falso advogado com o número real do escritório. Nenhum valor de processo é liberado mediante Pix numa ligação; confirme sempre com o advogado por outro meio.
- Adolescentes: costumam atender qualquer contato salvo e podem repassar códigos ou dados “a pedido dos pais”. Converse sobre o golpe com eles também.
- Empresas: o número do diretor, do contador ou do fornecedor pode aparecer na tela do setor financeiro. Crie protocolos de confirmação para pagamentos e mudanças de dados bancários.
- Órgãos públicos e escritórios: quando o seu número institucional é usado, emita alerta público rápido, como fizeram a Polícia Civil de Foz do Iguaçu e a OAB/RS.
14. Casos reais
O número da autônoma no Paraná (setembro de 2026). Reportagem do g1 Paraná relatou o caso de uma autônoma que só soube do golpe quando um parente lhe mandou o print da ligação, com o nome e o número dela na tela. Ela não tinha ligado, e o celular dela não foi clonado: apenas a identificação foi forjada. Um professor de Ciência da Computação ouvido pela reportagem explicou que os golpistas usam centrais telefônicas falsas para editar o número exibido e cruzam dados vazados com redes sociais para descobrir quem é parente de quem.
O número da delegacia em Foz do Iguaçu (setembro de 2026). A Polícia Civil de Foz do Iguaçu alertou a população de que criminosos estavam fazendo ligações em que aparecia o número oficial da delegacia, o que levava vítimas a não desconfiar da abordagem.
Operação conjunta PCDF e PCGO (abril de 2025). As delegacias de crimes cibernéticos do Distrito Federal e de Goiás cumpriram 27 mandados de prisão contra uma organização suspeita do golpe da falsa central. Segundo a investigação, o autor da fraude usou spoofing para que o identificador exibisse o nome de um grande banco e um número 4004 da instituição. O grupo também é investigado por lavagem de dinheiro.
Operação Central Fantasma (SC, SP e RJ, outubro de 2025). Deflagrada pelas Polícias Civis de Santa Catarina e São Paulo, a operação teve desdobramento no Rio de Janeiro, onde quatro integrantes foram presos numa mansão na Barra da Tijuca. Segundo a polícia, o grupo aplicava o golpe da falsa central bancária, fez mais de 200 vítimas e movimentou mais de R$ 25 milhões em três anos. Os investigados responderão por fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Anatel contra o tráfego adulterado (setembro de 2026). As medidas cautelares de 16 de setembro de 2026 mostram a dimensão do problema: centenas de milhões de chamadas com número de origem adulterado em menos de um ano, parte delas sem origem identificada, o que levou a agência a exigir rastreamento das operadoras.
A dimensão nacional. No levantamento da Febraban com os golpes mais relatados por clientes bancários no primeiro semestre de 2025, a falsa central telefônica ficou em segundo lugar. Um relatório da ENCCLA de 2025, coordenada pelo Ministério da Justiça, classificou a falsa central como a principal modalidade de golpe bancário do país e apontou o spoofing como uma das tecnologias que a sustentam.
15. Mitos e verdades
- “Se apareceu o nome do contato, é ele.” Mito. O nome vem da sua agenda; basta o número ser forjado.
- “Spoofing clona o meu chip.” Mito. Spoofing só disfarça a ligação. Perder a linha é outro golpe, o SIM swap.
- “Só de atender, roubam meus dados.” Mito, em regra. O risco está no que você fala e faz durante a ligação. Mesmo assim, diante de ligações mudas, evite falar primeiro e desligue.
- “Desligar e ligar de volta resolve.” Verdade, desde que você ligue para o número salvo ou oficial, e não para um número informado na ligação ou um número estrangeiro desconhecido.
- “Ligação com selo de verificada pode pedir senha.” Mito. Nenhum banco pede senha, token ou código por telefone.
- “Basta bloquear o número.” Parcialmente. Bloquear números desconhecidos ajuda, mas bloquear o número do seu parente só prejudica você, porque o criminoso pode exibir outro número na próxima vez.
Opinião do Autor
Durante muito tempo, a orientação de segurança foi “não atenda número desconhecido”. O spoofing derrubou essa regra: agora o golpe chega com o nome do seu filho, do seu banco e até da delegacia. Como delegado, vejo que o criminoso não precisa mais invadir nada; basta vestir a identidade de alguém em quem você confia. Por isso, defendo trocar a confiança na tela por um procedimento: desligar, ligar você mesmo e pedir a palavra-senha. A tecnologia da Anatel e dos bancos vai ajudar, mas ainda não protege o número de uma pessoa comum. Há também um ponto prático da investigação: cada print com data e hora e cada boletim registrado nas primeiras horas ajudam a cruzar dados com as operadoras e a chegar às centrais clandestinas e às contas de passagem. Converse hoje com seus pais e avós. Cinco minutos de conversa valem mais que qualquer aplicativo.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal: Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes Consultadas
- Novo golpe consegue trocar números que aparecem em ligações para contatos de parentes da vítima; entenda como funciona — O Presente, com base em reportagem do g1 PR, setembro de 2026.
- Seu número pode estar sendo usado por golpistas sem que você saiba; entenda como — O Hoje, 08/09/2026.
- Anatel manda operadoras bloquearem chamadas com número adulterado usadas em golpes e exige rastreamento — Olhar Digital, 17/09/2026.
- Anatel bloqueia empresas por fraude em 4 milhões de chamadas com número adulterado — Mix Vale, 18/09/2026.
- Regras da Anatel para “grandes chamadores” começam em novembro — Tecnoblog, 2025.
- Origem Verificada aumenta atendimento de ligações em até 70%, diz ABT — Teletime, 01/12/2025.
- Itaú Unibanco e Google anunciam parceria para bloqueio automático de ligações falsas — Itaú Unibanco, maio de 2026.
- Polícias miram quadrilha que aplica golpe da falsa movimentação bancária — Correio Braziliense, abril de 2025.
- Quadrilha da falsa central bancária é presa em condomínio de luxo no Rio — CNN Brasil, 16/10/2025.
- Golpe do Falso Advogado fica mais sofisticado com o uso de “spoofing”: saiba o que é e como se proteger — OAB/RS, 26/08/2026.
- Golpe da falsa venda é o mais aplicado contra clientes bancários no 1º semestre do ano — Conexão Tocantins (dados da Febraban), 11/11/2025.
- ENCCLA 2025 – Ação 1, Produto 1: golpe da falsa central — Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2025.
- Lei nº 14.155, de 27 de maio de 2021 — Planalto.
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Chamada para Mentoria
Fraude eletrônica, competência no estelionato por transferência (art. 70, § 4º, do CPP), invasão de dispositivo e as diligências junto a operadoras e bancos estão cada vez mais presentes nas provas para Delegado de Polícia, na objetiva, na discursiva e na peça prática. Saber enquadrar o caso e fundamentar uma representação por quebra de sigilo telefônico ou bancário faz diferença na aprovação.
Se você quer se preparar com quem vive a investigação no dia a dia, conheça a Mentoria para Delegado de Polícia.
Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. Professor de Medicina Legal e escritor, é mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco. Atua como mentor de carreiras policiais e de futuros Delegados de Polícia.
