Spoofing: número de parente na tela pode ser golpe.
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Polícias em Destaque – O número na tela não prova nada: o guia completo do spoofing, o golpe que disfarça a ligação de parente, banco ou delegacia.

Terça-feira, 15h20. O celular de seu Antônio, 68 anos, toca. Na tela aparecem a foto e o nome que ele conhece de cor: “Carla – filha”. Do outro lado, uma voz abafada e chorosa diz que houve um acidente e que “o policial” vai explicar o resto. O suposto policial é educado, firme e tem pressa: são R$ 6 mil por Pix, agora, para “evitar a apreensão do carro e a condução da sua filha”.

Seu Antônio já está com o aplicativo do banco aberto quando a neta, sentada ao lado, sugere: “Vô, desliga e liga você para ela.” Carla atende do escritório, tranquila. Não ligou para ninguém. Não bateu o carro. E o celular dela nunca saiu da bolsa.

A cena acima é fictícia e foi criada para fins didáticos. O detalhe que mais assusta, porém, é real: o nome e o número da filha apareceram corretamente na tela. Reportagem do g1 Paraná, de setembro de 2026, mostrou casos assim. Uma autônoma descobriu que o próprio número tinha sido usado numa ligação de golpe para um parente, sem que o celular dela tivesse sido clonado. Na mesma época, a Polícia Civil de Foz do Iguaçu alertou que criminosos estavam usando até o número oficial da delegacia. O nome disso é spoofing. Este guia reúne tudo o que você precisa saber para não ser enganado por ele.

Aviso Editorial

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. A cena de abertura é fictícia, e qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência. Os casos reais mencionados não identificam vítimas nem investigados além do que já foi divulgado pela imprensa e pelos órgãos oficiais. Por razões de segurança, o texto descreve o golpe apenas o suficiente para que você o reconheça, sem detalhes técnicos que permitam reproduzi-lo. O guia será atualizado se surgirem fatos novos ou novas regras da Anatel.

1. O golpe em poucas palavras

Spoofing (do inglês to spoof, “falsificar”, “disfarçar”) é a falsificação do número que aparece no identificador de chamadas. O criminoso liga de um lugar e faz surgir na sua tela outro número: o do seu filho, do seu banco, da delegacia, do escritório do seu advogado ou até o seu próprio. Como o número está salvo na sua agenda, o celular mostra o nome e a foto do contato, e você atende confiando em quem não está do outro lado.

A ideia central deste guia cabe numa frase: o número na tela não prova quem está ligando. Ele é só uma informação, e essa informação pode ser forjada.

2. Por que o número “certo” aparece na tela?

Pense numa carta pelo correio. No envelope existe o campo do remetente, e nada impede que alguém escreva ali o nome e o endereço de outra pessoa. O carteiro entrega a carta mesmo assim. O identificador de chamadas funciona de forma parecida: em certas redes e serviços de telefonia pela internet, a informação “quem está ligando” viaja junto com a chamada e pode ser adulterada por quem controla a origem da ligação.

Segundo especialistas ouvidos pela imprensa, os golpistas usam centrais telefônicas clandestinas ou serviços contratados de forma irregular, com programas que permitem trocar o número exibido. Três pontos são importantes para o leitor leigo:

  • Não há clonagem do chip nem invasão do celular de quem teve o número usado. O aparelho dessa pessoa continua funcionando normalmente.
  • O golpista só consegue falsificar a ligação que ele faz. Ele não recebe as ligações destinadas àquele número. Por isso, quando você desliga e liga para o número salvo na sua agenda, quem atende é a pessoa verdadeira. Essa é a sua maior arma, como veremos adiante.
  • O golpe é preparado com dados reais. Para saber quem é o seu filho e qual é o número dele, os criminosos cruzam informações de vazamentos de dados antigos com perfis públicos em redes sociais, onde marcações e comentários revelam parentes, amigos e colegas. Mais raramente, um aplicativo malicioso instalado no celular pode ter copiado a agenda de contatos.

3. Spoofing não é clonagem: entenda a diferença

Muita gente chama tudo de “clonaram meu número”. Mas são golpes diferentes, com sinais diferentes e reações diferentes. Saber qual é qual evita pânico e acelera a resposta certa.

GolpeO que o criminoso tem nas mãosSinal típicoSaiba mais
SpoofingApenas a aparência do número na tela de quem recebe a ligaçãoLigação de um contato conhecido com pedido urgente; o dono do número nega ter ligadoEste guia
SIM swapA sua linha de verdade, transferida para outro chipSeu celular fica sem sinal de repenteSIM swap
Número novo / falso parenteUm número qualquer com a sua foto e o seu nome no perfil“Mudei de número, salva aí” e, logo depois, um pedido de PixNúmero novo
Clonagem do WhatsAppA sua conta de WhatsApp, ativada em outro aparelhoPedido de “código de verificação” por SMSCódigo de verificação
Voz clonada por IAUma imitação da sua voz feita a partir de áudios e vídeosA voz é idêntica, mas a pessoa foge de perguntas pessoaisVoz clonada

Atenção: esses golpes podem ser combinados. A versão mais perigosa junta o número falsificado do parente na tela com uma voz imitada por inteligência artificial. É por isso que nem o número nem a voz bastam como prova.

4. As faces do mesmo golpe

A técnica é uma só, mas o figurino muda conforme a vítima. Estas são as versões mais comuns no Brasil:

  • O parente em apuros: aparece o nome do filho, do neto ou do irmão. A história envolve acidente, prisão, assalto ou hospital, e quase sempre entra em cena um “policial”, “advogado” ou “médico” para pedir dinheiro.
  • A falsa central do banco: aparece o número oficial do banco, muitas vezes o mesmo impresso no verso do cartão. O “atendente” fala de uma compra suspeita e pede senha, código, instalação de aplicativo ou transferência para uma “conta segura”. Veja o guia específico: Golpe da Falsa Central.
  • A falsa delegacia ou órgão público: aparece o telefone de uma delegacia, de um fórum, da Receita ou do INSS. O tom é de intimação, multa, processo ou mandado, sempre com uma “solução” paga na hora.
  • O falso advogado: aparece o número real do escritório que cuida do seu processo. O golpista conhece dados verdadeiros da ação e cobra uma “taxa” para liberar valores. A OAB/RS emitiu alerta específico sobre essa variante em agosto de 2026.
  • O seu próprio número ou números parecidos: a ligação parece vir do seu número ou de um número com o mesmo DDD e o mesmo começo do seu. É uma forma de despertar curiosidade e aumentar a chance de você atender.
  • O número estrangeiro: chamadas rápidas de códigos internacionais, feitas para você ligar de volta. Veja o guia: Chamada perdida do exterior.

5. Que crime é esse?

O spoofing é a ferramenta; o crime é o que vem depois dele. Conforme o caso, o enquadramento pode envolver:

  • Fraude eletrônica (art. 171, § 2º-A, do Código Penal), incluída pela Lei 14.155/2021: estelionato em que a vítima é enganada por contato telefônico, redes sociais ou mensagens. Pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa. A pena aumenta de 1/3 a 2/3 se o crime usar servidor fora do Brasil (§ 2º-B) e de 1/3 até o dobro se a vítima for idosa ou vulnerável (§ 4º).
  • Extorsão (art. 158 do CP), quando a encenação usa ameaça, como no falso sequestro com o número do parente na tela.
  • Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do CP), criado pela Lei 12.737/2012, quando a ligação serve para levar a vítima a instalar um aplicativo de acesso remoto e o criminoso passa a controlar o aparelho.
  • Falsa identidade (art. 307 do CP) e fingir-se funcionário público (art. 45 da Lei das Contravenções Penais), quando o golpista se apresenta como policial ou servidor. Em regra, quando servem apenas como meio para o golpe, essas condutas ficam absorvidas pelo estelionato, num raciocínio semelhante ao da Súmula 17 do STJ.
  • Atividade clandestina de telecomunicações (art. 183 da Lei 9.472/1997), com pena de 2 a 4 anos de detenção, para quem explora serviço de telecomunicações sem autorização, como centrais montadas à margem da regulação.
  • Organização criminosa (Lei 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998), quando há estrutura de quadrilha e o dinheiro passa por contas de terceiros.
  • LGPD (Lei 13.709/2018): o golpe se alimenta de dados pessoais vazados. Empresas que deixam esses dados expostos podem responder administrativamente perante a ANPD e civilmente perante os titulares.

E o banco? Pela Súmula 479 do STJ, as instituições financeiras respondem objetivamente por danos causados por fraudes ligadas aos riscos da própria atividade. Nos golpes por telefone, os tribunais analisam caso a caso se houve falha de segurança do banco, por exemplo ao aprovar transações muito fora do perfil do cliente, ou culpa exclusiva da vítima. Por isso, guardar provas e comunicar o banco imediatamente faz diferença também no processo civil.

6. Como o golpe acontece

Sem detalhes técnicos, o roteiro costuma seguir quatro fases:

  1. Abordagem (preparação): o criminoso escolhe a vítima e o “personagem”. Ele descobre quem são seus parentes, seu banco ou seu advogado a partir de dados vazados e redes sociais. Depois, faz a ligação com o número dessa pessoa ou instituição aparecendo na sua tela.
  2. Gatilho emocional: logo nos primeiros segundos vem o susto: acidente, prisão, compra suspeita, conta invadida, intimação. O objetivo é tirar você do modo racional.
  3. Execução: o golpista mantém você na linha, dá ordens, pede sigilo (“não fala com ninguém”, “não desligue senão a operação cai”) e conduz cada passo: digitar senha, ler um código, instalar um aplicativo ou abrir o Pix.
  4. Monetização: o dinheiro vai por Pix ou transferência para contas de terceiros, os chamados laranjas, e é espalhado em poucos minutos. Em algumas variantes, os dados obtidos são usados para empréstimos e compras em seu nome.

7. Os gatilhos psicológicos explorados

  • Confiança visual: o golpe começa antes de você atender. O nome conhecido na tela baixa a guarda.
  • Afeto: quando o “contato” é um filho ou neto, o impulso de proteger fala mais alto.
  • Medo: prisão, acidente, conta zerada, processo. São cenários que paralisam o raciocínio.
  • Autoridade: o número da delegacia, do banco ou do escritório dá ao golpista um “uniforme” de legitimidade.
  • Urgência e sigilo: “tem que ser agora” e “não conte a ninguém” existem para impedir a checagem.

8. Sinais de alerta

  • ☐ Ligação de contato conhecido, mas com voz estranha, abafada, chorosa ou que logo passa o telefone para “outra pessoa”.
  • ☐ Pedido de dinheiro, Pix, senha, código ou dados bancários durante a ligação.
  • ☐ Pressão para não desligar, não contar a ninguém ou resolver “agora”.
  • ☐ Banco, polícia ou fórum resolvendo problema por telefone com pagamento imediato. Nenhum desses órgãos cobra fiança, multa ou “taxa de liberação” por Pix numa ligação.
  • ☐ Orientação para instalar aplicativo, “atualizar segurança” ou transferir para uma “conta segura”.
  • ☐ A pessoa “do seu contato” não sabe responder a uma pergunta simples que só ela saberia.
  • ☐ Ligação do seu próprio número ou de números muito parecidos com o seu.

9. A regra de ouro: desligue e ligue você

Como o golpista só falsifica a ligação que ele mesmo faz, existe um teste simples e muito eficaz: desligue e faça você a ligação, escolhendo o contato na sua agenda ou digitando o número oficial do banco ou órgão. A ligação feita por você chega ao dono verdadeiro da linha. Três cuidados tornam a regra à prova de falhas:

  • Nunca use o número informado durante a ligação suspeita, nem retorne números estrangeiros ou estranhos que ligaram para você.
  • Espere alguns segundos ou ligue de outro aparelho antes de discar para o banco, para garantir que a chamada anterior foi mesmo encerrada.
  • Se o parente não atender, fale com outra pessoa próxima a ele. Não transfira nada enquanto não confirmar.

Outras medidas de prevenção

  • Combine uma palavra-senha com a família, uma palavra ou pergunta que só vocês conhecem e que não esteja nas redes. Qualquer pedido de socorro com dinheiro só é atendido com a senha correta.
  • Grave esta frase: banco não liga pedindo senha, token, código ou transferência. Polícia e Justiça não cobram nada por Pix numa ligação.
  • Reduza a vitrine: deixe perfis fechados, evite marcar parentes publicamente e não exponha o número de celular em bio e anúncios.
  • Ative os filtros do celular e da operadora: os recursos de identificação de spam do Android e do iPhone e os serviços antispam das operadoras ajudam contra números desconhecidos. Saiba, porém, que eles não detectam a versão do “parente”, porque o número exibido é de um contato salvo. Aqui, a defesa é o seu comportamento.
  • Configure limites de Pix mais baixos, especialmente à noite, e mantenha o aplicativo do banco com biometria.
  • Instale aplicativos só das lojas oficiais e desconfie dos que pedem acesso à agenda sem motivo.
  • Nas empresas: nenhum pagamento fora do fluxo, mesmo “pedido pelo diretor” por telefone, sem dupla aprovação e confirmação por outro canal.

10. O que a Anatel, as operadoras e os bancos estão fazendo

  • Origem Verificada: é a versão brasileira do padrão internacional STIR/SHAKEN. A operadora de origem “assina” digitalmente a ligação, e a de destino confere a assinatura. Em celulares compatíveis, a chamada de empresas autenticadas aparece com selo, nome e, às vezes, o motivo do contato. Desde novembro de 2025, a Anatel exige a autenticação das ligações de quem faz mais de 500 mil chamadas por mês. Segundo a associação do setor de telesserviços, países que adotaram o modelo, como Estados Unidos e Canadá, reduziram o spoofing em cerca de 80%.
  • Bloqueio e rastreamento: em 16 de setembro de 2026, a Anatel publicou seis medidas cautelares para bloquear e rastrear chamadas com número de origem adulterado. A agência apontou duas empresas responsáveis por mais de 4,3 milhões dessas chamadas, num universo que passa de 203 milhões de ligações adulteradas entre setembro de 2025 e junho de 2026, e exigiu que operadoras identifiquem a origem do tráfego.
  • Bancos e sistemas operacionais: desde maio de 2026, em projeto-piloto, o Itaú e o Google bloqueiam no Android (versão 11 ou superior, com um aplicativo do banco instalado) ligações que usam números do banco que só recebem chamadas e nunca ligam para clientes.

O limite dessas medidas: elas avançam sobretudo nas chamadas de empresas. O número do seu filho não tem selo de verificação, e a ausência de selo não prova que a ligação é falsa. A presença do selo também não autoriza ninguém a pedir sua senha. A tecnologia ajuda, mas a última barreira continua sendo a regra de ouro.

11. Já fui vítima: o que fazer

  1. Ligue imediatamente para o seu banco pelos canais oficiais (aplicativo ou número do cartão) e peça o bloqueio e a contestação pelo MED – Mecanismo Especial de Devolução do Pix. Quanto mais cedo, maior a chance de bloquear o dinheiro antes que ele seja espalhado.
  2. Se passou senha ou instalou aplicativo: troque as senhas por outro aparelho, desinstale o aplicativo suspeito e peça ao banco o bloqueio de acessos e dispositivos.
  3. Preserve as provas: faça print do histórico de chamadas mostrando número, data e hora; guarde comprovantes, dados da conta de destino e mensagens. Não apague nada.
  4. Registre boletim de ocorrência na delegacia ou na delegacia virtual do seu estado. Na fraude por transferência ou Pix, a lei permite investigar no domicílio da vítima (art. 70, § 4º, do Código de Processo Penal).
  5. Avise a pessoa ou a instituição cujo número foi usado e comunique o caso à sua operadora e à Anatel (telefone 1331 ou canais digitais da agência).
  6. Consulte o Registrato, do Banco Central, para checar se abriram contas ou empréstimos em seu nome.
  7. Se o banco não resolver, registre reclamação no consumidor.gov.br e no Banco Central.

Cair nesse golpe não é sinal de ingenuidade. Ele foi feito para enganar justamente quem confia e quer ajudar. A vergonha só favorece o criminoso.

12. Usaram o meu número: o que fazer

Você pode descobrir que um parente recebeu uma ligação “sua” que você nunca fez. Calma: isso não significa que seu celular foi invadido. Faça o seguinte:

  • Avise seus contatos pelo WhatsApp, pelo status e pelos grupos da família: ninguém deve atender pedidos de dinheiro “seus” sem ligar de volta e confirmar.
  • Peça à pessoa enganada o print da tela com data e hora da ligação e registre boletim de ocorrência. Isso documenta que não foi você e ajuda a investigação.
  • Comunique a sua operadora.
  • Confira o sinal do celular: se ele ficou sem sinal de repente, o caso pode ser outro, o SIM swap. Siga o protocolo de emergência contra o SIM swap.
  • Peça para não bloquearem o seu número. O número exibido era o seu, mas quem ligou era outra pessoa. Bloquear você só atrapalha a família de falar com você de verdade.

13. Quem corre mais risco

  • Idosos: confiam no nome que aparece na tela e são alvo preferido do “filho em apuros” e da falsa central. Combine a palavra-senha com pais e avós e cole a regra de ouro perto do telefone.
  • Pais de jovens que viajam ou moram fora: a distância dificulta a checagem imediata. Mantenha o contato de um amigo ou colega de quarto do seu filho.
  • Quem tem processo na Justiça: é o alvo do falso advogado com o número real do escritório. Nenhum valor de processo é liberado mediante Pix numa ligação; confirme sempre com o advogado por outro meio.
  • Adolescentes: costumam atender qualquer contato salvo e podem repassar códigos ou dados “a pedido dos pais”. Converse sobre o golpe com eles também.
  • Empresas: o número do diretor, do contador ou do fornecedor pode aparecer na tela do setor financeiro. Crie protocolos de confirmação para pagamentos e mudanças de dados bancários.
  • Órgãos públicos e escritórios: quando o seu número institucional é usado, emita alerta público rápido, como fizeram a Polícia Civil de Foz do Iguaçu e a OAB/RS.

14. Casos reais

O número da autônoma no Paraná (setembro de 2026). Reportagem do g1 Paraná relatou o caso de uma autônoma que só soube do golpe quando um parente lhe mandou o print da ligação, com o nome e o número dela na tela. Ela não tinha ligado, e o celular dela não foi clonado: apenas a identificação foi forjada. Um professor de Ciência da Computação ouvido pela reportagem explicou que os golpistas usam centrais telefônicas falsas para editar o número exibido e cruzam dados vazados com redes sociais para descobrir quem é parente de quem.

O número da delegacia em Foz do Iguaçu (setembro de 2026). A Polícia Civil de Foz do Iguaçu alertou a população de que criminosos estavam fazendo ligações em que aparecia o número oficial da delegacia, o que levava vítimas a não desconfiar da abordagem.

Operação conjunta PCDF e PCGO (abril de 2025). As delegacias de crimes cibernéticos do Distrito Federal e de Goiás cumpriram 27 mandados de prisão contra uma organização suspeita do golpe da falsa central. Segundo a investigação, o autor da fraude usou spoofing para que o identificador exibisse o nome de um grande banco e um número 4004 da instituição. O grupo também é investigado por lavagem de dinheiro.

Operação Central Fantasma (SC, SP e RJ, outubro de 2025). Deflagrada pelas Polícias Civis de Santa Catarina e São Paulo, a operação teve desdobramento no Rio de Janeiro, onde quatro integrantes foram presos numa mansão na Barra da Tijuca. Segundo a polícia, o grupo aplicava o golpe da falsa central bancária, fez mais de 200 vítimas e movimentou mais de R$ 25 milhões em três anos. Os investigados responderão por fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Anatel contra o tráfego adulterado (setembro de 2026). As medidas cautelares de 16 de setembro de 2026 mostram a dimensão do problema: centenas de milhões de chamadas com número de origem adulterado em menos de um ano, parte delas sem origem identificada, o que levou a agência a exigir rastreamento das operadoras.

A dimensão nacional. No levantamento da Febraban com os golpes mais relatados por clientes bancários no primeiro semestre de 2025, a falsa central telefônica ficou em segundo lugar. Um relatório da ENCCLA de 2025, coordenada pelo Ministério da Justiça, classificou a falsa central como a principal modalidade de golpe bancário do país e apontou o spoofing como uma das tecnologias que a sustentam.

15. Mitos e verdades

  • “Se apareceu o nome do contato, é ele.” Mito. O nome vem da sua agenda; basta o número ser forjado.
  • “Spoofing clona o meu chip.” Mito. Spoofing só disfarça a ligação. Perder a linha é outro golpe, o SIM swap.
  • “Só de atender, roubam meus dados.” Mito, em regra. O risco está no que você fala e faz durante a ligação. Mesmo assim, diante de ligações mudas, evite falar primeiro e desligue.
  • “Desligar e ligar de volta resolve.” Verdade, desde que você ligue para o número salvo ou oficial, e não para um número informado na ligação ou um número estrangeiro desconhecido.
  • “Ligação com selo de verificada pode pedir senha.” Mito. Nenhum banco pede senha, token ou código por telefone.
  • “Basta bloquear o número.” Parcialmente. Bloquear números desconhecidos ajuda, mas bloquear o número do seu parente só prejudica você, porque o criminoso pode exibir outro número na próxima vez.

Opinião do Autor

Durante muito tempo, a orientação de segurança foi “não atenda número desconhecido”. O spoofing derrubou essa regra: agora o golpe chega com o nome do seu filho, do seu banco e até da delegacia. Como delegado, vejo que o criminoso não precisa mais invadir nada; basta vestir a identidade de alguém em quem você confia. Por isso, defendo trocar a confiança na tela por um procedimento: desligar, ligar você mesmo e pedir a palavra-senha. A tecnologia da Anatel e dos bancos vai ajudar, mas ainda não protege o número de uma pessoa comum. Há também um ponto prático da investigação: cada print com data e hora e cada boletim registrado nas primeiras horas ajudam a cruzar dados com as operadoras e a chegar às centrais clandestinas e às contas de passagem. Converse hoje com seus pais e avós. Cinco minutos de conversa valem mais que qualquer aplicativo.

Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil

Aviso de Atualização Legal: Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.

Fontes Consultadas

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Sobre o Autor

Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. Professor de Medicina Legal e escritor, é mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco. Atua como mentor de carreiras policiais e de futuros Delegados de Polícia.

Professor & Coach Delegado Ronaldo Entringe

O Delegado Ronaldo Entringe é um estudioso na área de preparação para Concursos Públicos - Carreiras Policiais, e certamente irá auxiliá-lo em sua jornada até a aprovação, vencendo os percalços que irão surgir nesta cruzada, sobretudo através do planejamento estratégico das matérias mais recorrentes do certame e o acompanhamento personalizado.