1. Resumo do golpe
O criminoso não precisa invadir seu celular. Basta salvar seu número na agenda para ver sua foto, seu recado, seus grupos e seus horários. Com isso, cria um número novo se passando por você e pede Pix urgente à sua mãe, ao seu pai ou a um amigo.

2. Classificação
- Tipo: engenharia social (manipulação psicológica, sem uso de vírus) com coleta de informações abertas, também chamado de “golpe do número novo” ou “falso perfil”.
- Enquadramento penal:
- Estelionato com fraude eletrônica (art. 171, §2º-A, do Código Penal, incluído pela Lei 14.155/2021): reclusão de 4 a 8 anos e multa.
- Aumento de pena de 1/3 até o dobro se a vítima for idosa ou vulnerável (art. 171, §4º).
- Quando há grupo estruturado: organização criminosa (Lei 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998), sobretudo pelo uso de “contas laranja”.
- O comércio de dados pessoais obtidos ilicitamente também viola a LGPD e pode configurar outros crimes.
- Detalhe que a vítima precisa saber: em regra, o estelionato depende de representação da vítima (art. 171, §5º), com prazo de 6 meses a partir do dia em que ela descobre quem é o autor. A exceção é quando a vítima tem mais de 70 anos, é criança, adolescente ou pessoa com deficiência mental. Por isso, registre a ocorrência e manifeste o desejo de ver o autor processado.
3. Modus operandi
- Abordagem (coleta): o golpista obtém números em grupos grandes, listas vazadas ou bancos de dados clandestinos. Ao salvar o contato, vê tudo o que a vítima deixou aberto: foto do filho com uniforme escolar, recado com empresa e cidade, grupos em comum.
- Gatilho emocional: cria uma conta com a foto e o nome do familiar e escreve: “Mãe, troquei de número, salva esse”.
- Execução: depois de conversa breve para ganhar confiança, surge a urgência, como um boleto vencendo, um celular quebrado ou o app do banco travado. O golpista evita chamada de voz ou de vídeo.
- Monetização: o Pix vai para a conta de outra pessoa, uma “conta laranja”, e o dinheiro é pulverizado em minutos.
4. Gatilhos psicológicos explorados
- Afeto: é “o filho” pedindo ajuda.
- Urgência: “tem que ser hoje”, “vence agora”.
- Constrangimento: a vítima tem vergonha de desconfiar de um parente.
- Plausibilidade: os detalhes verdadeiros tirados do perfil (nome do neto, cidade, trabalho) desarmam a desconfiança.
5. Sinais de alerta
- Número desconhecido dizendo que “trocou de número”
- Desculpa para não atender ligação (“tô sem microfone”, “tô em reunião”)
- Pedido de dinheiro logo nas primeiras mensagens
- Conta de destino em nome de outra pessoa (“é de um amigo meu”)
- Pressa e insistência quando você hesita
- Escrita diferente do jeito habitual da pessoa
6. Prevenção
No seu WhatsApp (Configurações > Privacidade):
- Visto por último e online: “Meus contatos” ou “Ninguém”
- Foto do perfil: “Meus contatos”
- Recado: “Meus contatos”, e evite colocar ali empresa, cidade ou nome dos filhos
- Grupos (quem pode me adicionar): “Meus contatos”
- Ligações: ative “Silenciar números desconhecidos”
- Ative a Confirmação em duas etapas (Configurações > Conta), com PIN de 6 dígitos e e-mail de recuperação. Um esclarecimento importante: o PIN protege contra a clonagem da sua conta, que é outra modalidade de golpe. Contra o falso parente, que usa um número novo, o que funciona é fechar o perfil e confirmar o pedido por outro canal.
- Quem corre risco maior pode ativar as Configurações rigorosas da conta (Privacidade > Avançado), que restringem mensagens e mídias de desconhecidos.
Na família:
- Combine uma palavra-chave para qualquer pedido de dinheiro.
- Regra de ouro: pediu Pix por mensagem, ligue para o número antigo da pessoa ou para alguém próximo dela.
- Defina no app do banco um limite noturno de Pix baixo, principalmente no celular dos pais e avós.
- Evite fotos de perfil com fachada e número da casa, placa do carro, uniforme escolar ou crachá da empresa.
7. Já fui vítima: o que fazer
- Ligue imediatamente para o seu banco e peça a abertura do MED (Mecanismo Especial de Devolução do Pix). Muitos aplicativos já permitem contestar o Pix pelo próprio app. Quanto mais cedo, maior a chance de bloquear o dinheiro.
- Preserve as provas: não apague a conversa. Tire prints com o número do golpista, a data e a hora, o comprovante do Pix e a chave ou conta de destino.
- Registre boletim de ocorrência, presencialmente ou na delegacia virtual do seu estado, e declare que deseja representar contra o autor.
- Denuncie o número no WhatsApp (abra a conversa, toque no nome e depois em “Denunciar”).
- Se a sua foto foi usada, você também é vítima. Avise seus contatos e status e denuncie o perfil falso.
- Consulte o Registrato (Banco Central) para verificar contas ou chaves Pix abertas em seu nome.
- Se o banco não resolver, registre reclamação no consumidor.gov.br e na ouvidoria da instituição.
8. Públicos mais vulneráveis
- Idosos: são o alvo preferido. Configure o celular deles pessoalmente, com limite de Pix e perfil fechado.
- Pais de crianças e adolescentes: fotos com uniforme e grupos de escola entregam a escola, a turma e o nome do filho.
- Adolescentes: costumam deixar perfil e status abertos. Converse sobre o tema sem alarmismo.
- Empresas: a mesma lógica sustenta o “golpe do falso chefe”, em que alguém se passa pelo gestor pedindo pagamento urgente. Exija confirmação por um segundo canal.
9. Caso real
Em 7 de outubro de 2026, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação “Atrás das Grades”, prendendo cinco integrantes de uma organização especializada no golpe do falso parente pelo WhatsApp, com buscas em Ceilândia, Taguatinga e Goiânia. O dado mais revelador: o grupo também vendia “kits de golpe” para outras quadrilhas, com dados pessoais da vítima e dos familiares obtidos em painéis clandestinos, além de imagens e roteiros de conversa. Foram identificadas ao menos 19 ocorrências e cerca de R$ 73 mil de prejuízo, sendo que uma única vítima perdeu mais de R$ 53 mil. Entre as vítimas estavam idosos de 75 e 83 anos. 325309 pcdf desarticula quadrilha que aplicava golpe do falso parente +2
Em Pernambuco, a Operação Proteu seguiu a mesma linha. Os criminosos usavam nomes e fotos de familiares para dar credibilidade à abordagem e recebiam os valores em contas de terceiros, que eram pagos com quantias menores para emprestar a conta. diariodepernambuco
Em números: a Febraban registrou 73 mil ocorrências do golpe do WhatsApp no primeiro semestre de 2025. Em 2024, a fraude liderava o ranking, com 81 mil casos no mesmo período. olhardigital
Opinião do Autor
Em mais de quinze anos de polícia, aprendi que o golpista moderno é, antes de tudo, um bom observador. Ele não “hackeia” ninguém: ele lê o que deixamos à mostra e devolve isso em forma de afeto e urgência. Quando a vítima chega à delegacia, quase sempre diz: “mas ele sabia o nome do meu neto”. Sabia porque estava no perfil. A boa notícia é que a defesa está ao alcance de qualquer pessoa: cinco minutos nas configurações de privacidade e uma palavra-chave combinada na família. E se o golpe acontecer, não sinta vergonha. Procure o banco e a delegacia imediatamente. A rapidez faz diferença na recuperação do dinheiro e na identificação dos autores.
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Fontes Consultadas
- Correio da Manhã – PCDF desarticula quadrilha que aplicava golpe do falso parente
- Diario de Pernambuco – Operação desarticula grupo que aplicava golpes por WhatsApp
- Olhar Digital – Ranking de golpes Febraban 1º semestre de 2025
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Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil com 15 anos de experiência e atual Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR) da Polícia Civil do Amapá. Além da atuação policial, ele é professor de Medicina Legal, mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC/Espanha), pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco, escritor e coach/mentor de candidatos a concursos de Delegado de Polícia. Como um profundo estudioso na área de preparação para Concursos Públicos de Carreiras Policiais, o Delegado utiliza sua expertise para auxiliar candidatos na jornada até a aprovação, ajudando-os a superar os percalços do caminho por meio de planejamento estratégico das matérias mais recorrentes e de um acompanhamento personalizado.
