A mensagem trazia a notícia que a família esperava havia anos: o dinheiro do processo tinha saído. Só faltava “pagar uma taxa”.
Em uma frase!
Dinheiro de processo não se libera pagando Pix. Se pediram pagamento antes, é golpe.
Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. As vítimas e os investigados não são identificados, e os suspeitos têm direito à presunção de inocência. O texto poderá ser atualizado se surgirem fatos novos. O caso fictício é identificado como tal e não se refere a pessoas reais.

O que aconteceu
Em agosto de 2026, em Dourados (MS), um homem recebeu uma mensagem de alguém que se apresentou como o advogado dele. A notícia era boa: havia dinheiro disponível num processo judicial. Mas, para liberar o valor, seria preciso fazer um pagamento antes. O “advogado” mandou uma chave Pix registrada em nome de uma propriedade rural, e o homem transferiu R$ 250 mil. Só depois a família percebeu a fraude. O filho, de 29 anos, ligou na hora para o gerente do banco, que abriu a contestação do Pix, e registrou o caso na delegacia como fraude eletrônica. Até a publicação da reportagem, não se sabia se o dinheiro tinha sido bloqueado.
O golpe virou uma praga no país. No Rio Grande do Norte, em setembro de 2026, a Polícia Civil fez a segunda fase de uma operação contra o falso advogado, com quatro prisões e 15 buscas. Segundo a investigação, o grupo usava perfis falsos e dados de processos reais, e uma das vítimas mandou quase R$ 100 mil achando que pagava taxas para receber um crédito judicial.
E se fosse com você? (caso fictício)
Seu Antônio, 63 anos, espera há três anos o resultado de uma ação contra o INSS. Numa quinta-feira, chega um WhatsApp com a foto da advogada dele, a Dra. Cláudia: “Seu Antônio, boa notícia! Saiu o alvará de R$ 38 mil. Só falta pagar R$ 2.400 de custas hoje, senão volta para a fila”. A mensagem traz o número certo do processo e o nome do juiz. Ele pega o contrato que assinou no escritório e liga para o telefone que está lá. A secretária estranha: a doutora não mandou mensagem nenhuma, e o processo ainda nem foi julgado.
O golpe em 4 passos
- Oportunidade: a maioria dos processos é pública na internet. O golpista consulta o processo e descobre o nome do cliente, do advogado, do juiz e até os valores.
- Autoridade: ele cria um WhatsApp com a foto e o nome do advogado verdadeiro e fala “juridiquês” para parecer o escritório.
- Urgência: “saiu o dinheiro, mas tem que pagar a taxa hoje, senão perde”. A boa notícia baixa a guarda; o prazo impede de conferir.
- Saída do dinheiro: o Pix vai para a conta de um terceiro (às vezes com nome de empresa ou fazenda, para parecer sério) e é espalhado em minutos.
3 sinais de golpe
- Pedem pagamento antes para liberar dinheiro do processo: “custas”, “taxa”, “imposto”, “alvará”.
- A chave Pix está no nome de outra pessoa ou empresa, e não do Judiciário ou do seu advogado.
- O contato vem de um número novo e com pressa: “tem que ser hoje”.
O que dizer na hora
Você não precisa discutir nem provar nada. Basta uma frase:
“Vou ligar para o escritório e confirmo com o senhor.”
Se a pessoa disser que o escritório “está fechado” ou que “não dá tempo”, é golpe. O dinheiro de verdade não some porque você conferiu.
3 atitudes que salvam
- Confirme pelo caminho antigo: ligue para o telefone do contrato ou do cartão do escritório, ou vá pessoalmente. Nunca use o número da mensagem.
- Combine com seu advogado, desde já, como ele vai avisar quando sair dinheiro. Valor de processo é pago por alvará ou depósito judicial, nunca depois de um Pix seu.
- Se já pagou: avise o banco na hora e peça o MED do Pix, guarde prints da conversa e do comprovante, registre boletim de ocorrência e avise o seu advogado de verdade, que pode comunicar a OAB.
Telefones úteis
- 190: emergência (Polícia Militar).
- 197: Polícia Civil, nos estados que têm esse número.
- Seu banco: o número atrás do cartão ou no aplicativo oficial, para pedir o MED.
- Seu advogado: o telefone que está no contrato ou que você já usava. Para conferir se a pessoa é mesmo advogada, consulte o Cadastro Nacional dos Advogados, no site da OAB. Nunca use o número que veio na mensagem.
Golpe ou verdade? Teste rápido
1. “O advogado disse que ganhei a causa, mas preciso pagar R$ 3 mil de custas por Pix para liberar.”
👉 Golpe. Ninguém paga para receber dinheiro de processo.
2. “Fui ao escritório e o advogado me mostrou o alvará, com o dinheiro depositado pelo banco do tribunal.”
👉 Verdade. Esse é o caminho oficial.
3. “A mensagem tinha o número certo do meu processo, então só pode ser do advogado.”
👉 Golpe. O processo é público. Saber o número não prova nada.
Palavras deste texto, explicadas
- Alvará: ordem do juiz que manda o banco do tribunal pagar o dinheiro do processo.
- Custas: taxas da Justiça, pagas por guia oficial com código de barras, nunca por Pix para pessoa.
- Processo público: qualquer pessoa pode consultar na internet os dados básicos de muitos processos. É daí que o golpista tira as informações.
- Chave Pix: o “endereço” para onde o dinheiro vai. O nome que aparece antes de confirmar mostra quem vai receber.
- MED: pedido ao banco para tentar bloquear e devolver o dinheiro do golpe.
O que diz a lei
Quem aplica o golpe responde por estelionato eletrônico (art. 171, § 2º-A, do Código Penal, pena de 4 a 8 anos), com aumento de um terço ao dobro se a vítima for idosa (§ 4º). Fingir ser advogado pode configurar também falsa identidade (art. 307). Quem vende, aluga ou empresta a conta para receber o dinheiro responde pelo crime de cessão de conta laranja (art. 171, § 2º, VII, do Código Penal), com pena de 1 a 5 anos, e o grupo pode responder ainda por associação criminosa (art. 288).
Repasse no WhatsApp da família
ALERTA: golpistas usam a FOTO DO SEU ADVOGADO e dizem que o dinheiro do processo saiu.
Depois pedem Pix para “custas” ou “taxa”. É GOLPE.
Ligue para o escritório no número que você já tem antes de pagar qualquer coisa.
Repasse para seus pais e avós.
Opinião do Autor
Esse golpe funciona porque o criminoso sabe coisas verdadeiras: o número do processo, o nome do juiz, o nome do advogado. Isso não prova nada, porque esses dados estão na internet. A regra que derruba o golpe é uma só: na Justiça, quem ganha recebe; não paga para receber. E um pedido aos colegas advogados: avisem seus clientes hoje, por escrito, como vocês dão notícias de dinheiro.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal:
Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes
- Falso advogado engana família e golpe termina em Pix de R$ 250 mil em MS — Correio do Estado, 11/08/2026
- Polícia Civil faz 2ª fase de operação contra “golpe do falso advogado” com quatro prisões e 15 buscas no RN — Agora RN, 01/09/2026
- Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940) — Planalto
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