Publicado em 8 de novembro de 2026.
Em uma frase: o sulco cervical é a marca que o laço imprime no pescoço, e a sua direção, continuidade, profundidade, altura e largura dizem qual força apertou e com que laço, mas só a reação vital diz se o pescoço foi apertado em vida, e é essa última pergunta que separa o enforcamento verdadeiro da simulação.

Este post integra a série sobre asfixias por constrição cervical e aprofunda o ponto central do post-pilar sobre enforcamento, estrangulamento e esganadura: como ler o sulco. É o assunto que mais aparece nas questões de prova sobre o tema e o que mais pesa quando a versão de suicídio é contestada no inquérito ou no júri.
Conceito
Sulco cervical é a depressão deixada na pele do pescoço pela pressão de um laço. Forma-se pela compressão das partes moles, muitas vezes pelo arrancamento da camada superficial da pele (escoriação) e, depois da morte, pelo ressecamento da área comprimida. Algumas palavras se repetem em todo o estudo do sulco:
- Leito (ou fundo): a parte mais funda do sulco, onde o laço apoiou.
- Bordas: as margens de pele acima e abaixo do leito.
- Apergaminhamento: o endurecimento do leito, que fica seco, firme e de cor parda-amarelada, como pergaminho.
- Linha argentina: a faixa clara, brilhante e transparente que se vê ao olhar a pele do sulco pela face interna, contra a luz. Resulta da expulsão dos líquidos da pele comprimida (Hércules).
- Reação vital: o conjunto de sinais de que havia circulação quando a lesão se formou, como sangramento nos tecidos e reação inflamatória.
França (2017) dá ao sulco “capital valor” no diagnóstico do enforcamento e o estuda entre os sinais externos da modalidade. Croce (2012) descreve seus caracteres no item do enforcamento e compara-o ao do estrangulamento no diagnóstico médico-legal desta modalidade. Hércules vai além e o chama de “via de regra patognomônico”, isto é, característico a ponto de bastar para o diagnóstico.
Classificação doutrinária: como cada autor lê o sulco
| Autor | Critério de leitura | Destaque |
|---|---|---|
| França (2017), com o quadro de Bonnet | Sete caracteres comparativos: direção, uniformidade, continuidade, número, altura em relação à tireoide, apergaminhamento e profundidade | Admite que nem sempre é fácil distinguir enforcamento de estrangulamento a olho nu e defende o exame microscópico do pescoço |
| Croce (2012) | Situação, número, direção, continuidade e consistência do leito conforme o laço (mole ou duro) | Lista as exceções do enforcamento incompleto e destaca o exame microscópico do sulco para separar o enforcamento da simulação |
| Hércules | Fatores que modificam o sulco: tipo de nó, número de voltas, largura do laço, peso do corpo, tempo e grau de suspensão, extensão da alça, posição do nó e deslizamento do laço | Chama o sulco de “via de regra patognomônico” e explica o sulco a partir da física do laço |
As abordagens se completam. França e Croce dizem o que esperar de cada modalidade; Hércules explica por que um sulco real foge do esperado. Para o Delegado, isso importa porque a defesa e a acusação exploram justamente os desvios. Um sulco horizontal num enforcado ou um sulco interrompido num estrangulado não provam nada sozinhos, e o perito precisa dizer qual fator explica o desvio.
Fundamentos técnicos: as perguntas que o sulco responde
Direção: para onde o laço puxou?
- Oblíqua ascendente: no enforcamento, o peso do corpo puxa o laço para baixo e o nó fica no alto. O sulco sobe da alça, que sustenta o peso, em direção ao nó.
- Horizontal: no estrangulamento, a força age em sentido transversal, em volta do pescoço. Hércules observa que o sulco do estrangulamento permanece horizontal mesmo quando o laço dá mais de uma volta.
- Exceções: no enforcamento incompleto, em que a pessoa se apoia nos joelhos e lança o corpo para a frente, o sulco pode ficar horizontal ou até oblíquo descendente (Croce, 2012; Hércules). No estrangulamento pelas costas, com o agressor em plano superior, ou no “golpe do pai Francisco”, o sulco sai oblíquo e alto (França, 2017).
Continuidade: o sulco dá a volta completa?
- Interrompido no nó: no enforcamento, a pressão cai perto do nó e o sulco se torna superficial até desaparecer. Hércules distingue o nó fixo, que costuma deixar sulco incompleto, do nó corrediço, que se fecha com o peso e pode marcar toda a circunferência.
- Contínuo: no estrangulamento, o laço aperta todo o perímetro. Com uma só volta, é comum uma extremidade passar sobre a outra antes de o sulco terminar (Hércules).
- Interrupções sem significado: roupa, cabelo ou a mão da vítima entre o laço e a pele interrompem o sulco, sem mudar a modalidade.
Profundidade e largura: que laço e quanto tempo?
- Largura do laço: a pressão por centímetro quadrado é inversamente proporcional à largura do laço. Laços finos e duros cavam sulcos estreitos e fundos; laços largos e moles deixam marcas rasas, que podem até sumir num segundo exame (França, 2017; Hércules).
- Peso e tempo de suspensão: quanto mais tempo o corpo fica suspenso, mais fundo o sulco. Os sulcos menos nítidos aparecem em pessoas magras, em suspensões incompletas e de curta duração (Hércules).
- Profundidade desigual ou uniforme: no enforcamento, o sulco é mais fundo na alça e mais raso na nuca e perto do nó. No estrangulamento, a profundidade é regular em toda a volta.
- Putrefação: com a decomposição, o pescoço incha e o sulco parece muito mais fundo, por vezes escondendo o laço (Hércules). A profundidade de um sulco putrefeito não mede a força aplicada.
Altura e número: onde e quantas vezes?
- Altura: no enforcamento típico, o sulco fica alto, entre a borda superior da laringe e o osso hioide, e tende a deslizar um pouco para cima com o peso. No estrangulamento, fica na altura da laringe ou abaixo da cartilagem tireoide.
- Sulcos múltiplos legítimos: um laço com várias voltas pode deixar vários sulcos ou um só, se as voltas se sobrepõem. Entre duas voltas, a pele pinçada forma uma crista que pode ter pequenas bolhas (França, 2017; Hércules).
- Dois sulcos perto do nó: o deslizamento do laço pode produzir um sulco mais baixo e fraco e outro mais alto e fundo. Hércules adverte que estrias de arrancamento da pele unindo os dois já levaram à suspeita de tentativa prévia de estrangulamento. A conclusão depende da direção e da vitalidade de cada um.
Leito e bordas: os sinais com nome de autor
França (2017) e Croce (2012) registram os sinais descritos no sulco do enforcado, muito cobrados nas provas:
- Sinal de Ponsold: livores em placas acima e abaixo das bordas do sulco.
- Sinal de Azevedo Neves: livores puntiformes acima e abaixo das bordas.
- Sinal de Thoinot: zona arroxeada nas bordas do sulco.
- Sinal de Schulz: borda superior saliente e arroxeada (citado por França).
- Sinal de Neyding: pequenas hemorragias puntiformes no fundo do sulco.
- Sinal de Ambroise Paré: pele enrugada e escoriada no fundo do sulco.
- Sinal de Lesser: pequenas bolhas com sangue no fundo do sulco, descritas também no estrangulamento.
- Sinal de Bonnet: marcas da trama do laço impressas no leito, úteis para comparar o sulco com o laço apreendido.
Atenção a uma diferença que as bancas exploram: os sinais de Ponsold, Azevedo Neves e Thoinot descrevem livores e arroxeamento, que podem formar-se depois da morte num corpo que ficou suspenso. Os sinais de Neyding e de Lesser, que envolvem sangramento no fundo do sulco, dialogam mais diretamente com a reação vital.
Reação vital: o pescoço foi apertado em vida?
- Sinais macroscópicos: sangramento nos tecidos sob o sulco e nos músculos do pescoço, hemorragia em volta de fraturas do hioide ou da cartilagem tireoide, inchaço da língua e dos lábios e pequenas hemorragias nos olhos e na pele (Hércules).
- Exame microscópico: desde Neyding (1870), procuram-se pequenas hemorragias no sulco. Bonnet e Pedace (1969) propuseram o “histodiagnóstico panorâmico do pescoço”, que examina camada por camada até a artéria carótida e, segundo França (2017), mostra lesões mesmo quando não há sinais visíveis a olho nu. França cita também marcadores bioquímicos da resposta inflamatória (catepsina D, serotonina, ferro, zinco, cobre).
- Imuno-histoquímica: é a técnica que usa anticorpos para identificar proteínas no tecido. Uma revisão de 2022 de Maiese e colaboradores reuniu marcadores promissores, como triptase, CD15, IL-15 e aquaporina 3. Os autores recomendam incluir esse exame na rotina, mas advertem que nenhum marcador está suficientemente validado (Frontiers in Medicine, 2022).
- O que não é reação vital: o apergaminhamento e a linha argentina resultam do ressecamento da pele após a morte e aparecem também num laço aplicado a um cadáver. Os livores em placa nas bordas do sulco (sinal de Ponsold) também não provam vitalidade.
Aqui há uma divergência real. França (2017) aposta no exame microscópico como base de um diagnóstico de vitalidade. Parte dos patologistas sustenta que a histologia, sozinha, não distingue com segurança um sulco feito pouco antes da morte de outro feito logo depois. Essa discussão foi o centro do caso Rohde, descrito adiante. A posição mais segura é tratar o exame microscópico como indispensável, mas não autossuficiente.
Falsos sulcos
França (2017) lista marcas que não devem ser confundidas com o sulco de um laço: as pregas naturais do pescoço das crianças e dos adultos obesos, os sulcos patológicos, as marcas de golas e gravatas apertadas e o sulco produzido pela gravata quando o pescoço incha com os gases da putrefação. Em corpos encontrados dias depois da morte, essa última confusão é comum.
Sinais e seus limites
| Sinal | Onde aparece | Limite |
|---|---|---|
| Direção oblíqua ascendente | Enforcamento | Reproduzida no estrangulamento por trás e no “golpe do pai Francisco” |
| Direção horizontal | Estrangulamento | Possível no enforcamento incompleto com apoio dos joelhos |
| Interrupção no nó | Enforcamento com nó fixo | Nó corrediço pode deixar sulco completo; roupa interposta também interrompe |
| Profundidade uniforme | Estrangulamento | A putrefação aprofunda qualquer sulco |
| Sulco duplo | Laço com duas voltas; deslizamento; estrangulamento seguido de suspensão | Só a direção e a vitalidade de cada sulco indicam qual hipótese é a verdadeira |
| Apergaminhamento e linha argentina | Laços duros e finos | Formam-se depois da morte; não provam vitalidade |
| Sinal de Bonnet (trama do laço) | Laços com textura marcada | Depende de laço preservado para comparação |
| Hemorragias no fundo do sulco (Neyding) | Constrição em vida | Exige exame microscópico; a putrefação prejudica |
| Marcadores imuno-histoquímicos | Pesquisa de vitalidade | Promissores, ainda sem validação suficiente (Maiese et al., 2022) |
Dispositivos legais aplicáveis
| Dispositivo | Por que importa |
|---|---|
| CPP, arts. 6º, I a III, e 169 | Preservação do local e do corpo na posição encontrada, antes de retirar o laço |
| CPP, arts. 158-A a 158-F | O laço, o nó e o ponto de fixação são vestígios: devem ser coletados, acondicionados e rastreados |
| CPP, art. 160 | O laudo deve descrever minuciosamente o que os peritos examinaram, o que inclui as medidas e os caracteres do sulco |
| CPP, arts. 164 e 165 | Fotografia do cadáver na posição encontrada e esquemas das lesões: o sulco deve ser fotografado com escala |
| CPP, art. 181 | Complementação do laudo omisso, por exemplo sem exame de vitalidade |
| CPP, art. 159, §§ 3º a 5º | Quesitos e assistente técnico das partes, com acesso ao material para contraprova |
| CP, arts. 121, § 2º, III, e 347 | Homicídio qualificado por asfixia e fraude processual quando o sulco revela suspensão de cadáver |
Casos reais
1. Caso Rohde (África do Sul, 2016): um sulco sem reação vital
Fato. Em 2016, Susan Rohde foi encontrada morta no banheiro de um quarto de hotel no Cabo Ocidental, com o fio elétrico de um aparelho de cabelo em volta do pescoço, preso a um gancho da porta. O marido, Jason Rohde, sustentou que ela havia se enforcado.
Conclusão pericial. A patologista-chefe do Estado declarou não ter “nenhuma dúvida” de que o enforcamento foi encenado para encobrir um homicídio e afirmou que a marca do fio no pescoço se formou depois da morte. A defesa explorou a ausência de exame histológico do sulco e trouxe peritos que sustentavam o enforcamento. A patologista admitiu que não colheu tecido, por entender que a histologia não distinguiria um sulco feito pouco antes da morte de outro feito logo depois (TimesLIVE, 2017).
Desfecho. Em 2018, Jason Rohde foi condenado por homicídio e por obstrução da justiça. Em 5 de outubro de 2021, o Supremo Tribunal de Recurso sul-africano manteve as condenações. Concluiu que a morte resultou de esganadura e que o fio só foi colocado no pescoço depois, para montar a cena de suicídio. Afastou, porém, a tese do primeiro grau de que teria havido sufocação e fixou a pena efetiva em 15 anos (SCA, Rohde v The State, 2021).
Lição médico-legal. Um sulco produzido num cadáver, somado às lesões da verdadeira causa de morte, é a assinatura clássica da simulação. O caso mostra também o custo de não colher tecido do sulco: a acusação venceu, mas a ausência do exame foi a principal arma da defesa por anos.
2. Caso PC Siqueira (São Paulo, 2023): a largura do sulco contra a largura do laço
Fato. O youtuber PC Siqueira foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo, em dezembro de 2023.
Conclusões periciais. Em 2025, o IML e o Instituto de Criminalística de São Paulo concluíram por suicídio por enforcamento com uma cinta de catraca, usada para amarrar cargas. Um parecer particular contratado pela família, assinado por um ex-perito da Polícia Técnico-Científica, sustentou que as lesões do pescoço eram compatíveis com um fio fino, semelhante a um cabo de fone de ouvido encontrado no local, e concluiu por estrangulamento (Folha de Pernambuco; SBT News, 2026).
Situação. Segundo a imprensa, a investigação foi reaberta em janeiro de 2026, a pedido do Ministério Público, que apontou falhas e divergências técnicas. Não há conclusão definitiva nem pessoa acusada, e as hipóteses de suicídio, induzimento e homicídio seguem em apuração.
Lição médico-legal. A primeira pergunta sobre um sulco é se ele é compatível com o laço apreendido. Uma cinta larga e um fio fino deixam marcas de largura, profundidade e trama muito diferentes. Quando o laudo não mede o sulco nem o compara com o laço, a divergência fica aberta para sempre.
3. Prova oral de Medicina Legal, PC-RO 2022 (Cebraspe)
A prova oral do concurso de 2022 da Polícia Civil de Rondônia, que incluiu o cargo de Delegado, pediu quatro sinais externos e quatro internos do enforcamento. O padrão de resposta descreveu o sulco com a espessura da corda, oblíquo, interrompido no nó e de profundidade variável, e aceitou os sinais de Thoinot, Ambroise Paré, Ponsold, Neyding, Lesser e Bonnet (Cebraspe, padrão de resposta). É exatamente o conteúdo deste post.
Casos hipotéticos
Hipótese 1: o laço que a família cortou
Fato fictício. Um homem é encontrado suspenso no quintal. Os parentes cortam a corda, retiram o laço, jogam-no no lixo e chamam a polícia. Na necropsia, o sulco é fino e fundo, com marcas de trama, mas a única corda apresentada pela família é larga e lisa.
Solução: o sulco não é compatível com o laço apresentado. O Delegado busca o laço original no lixo e no local, requisita comparação entre a trama do sulco (sinal de Bonnet) e o material recolhido e ouve separadamente quem retirou o corpo. Sem indícios de terceiro, a troca pode ser só desorganização da família. Com indícios de participação, a apuração passa a considerar homicídio qualificado (CP, art. 121, § 2º, III) e fraude processual (CP, art. 347).
Hipótese 2: o corpo encontrado depois de uma semana
Fato fictício. Uma mulher é encontrada em putrefação, deitada na cama, com uma faixa de tecido em volta do pescoço. O sulco é horizontal e muito fundo. O laudo conclui por estrangulamento homicida com base na profundidade.
Solução: a putrefação incha o pescoço e aprofunda qualquer sulco, inclusive o de uma faixa amarrada depois da morte. O Delegado requisita complementação do laudo (CPP, art. 181) com exame microscópico do sulco e dos tecidos profundos, pesquisa de fraturas do hioide e da laringe com reação vital, exame toxicológico e perícia do local. A investigação segue como morte a esclarecer até que o perito demonstre a vitalidade da constrição.
Hipótese 3: dois sulcos e uma estria entre eles
Fato fictício. Um jovem é encontrado enforcado no quarto, com nó lateral. Perto do nó há dois sulcos oblíquos, um mais baixo e raso e outro mais alto e fundo, unidos por estrias de pele arrancada. A família suspeita de um colega de república.
Solução: Hércules explica que o deslizamento do laço para cima pode produzir dois sulcos próximos ao nó unidos por estrias, sem intervenção de terceiro. Os dois sulcos são oblíquos e convergem para o mesmo nó, o que favorece o deslizamento. O Delegado requisita que o perito informe a direção e a vitalidade de cada sulco e se há lesões de defesa ou de contenção, e ouve o colega. Sem outros indícios, a hipótese de estrangulamento prévio é afastada.
Aplicação prática: o que o Delegado pergunta
- Quantos sulcos há no pescoço? Qual a direção de cada um, com referência aos pontos anatômicos (hioide, cartilagem tireoide, ângulo da mandíbula)?
- O sulco é contínuo ou interrompido? Onde ocorre a interrupção e qual a sua causa provável (nó, roupa, mão)?
- Quais a largura e a profundidade do sulco em cada segmento? Elas variam ao longo do pescoço?
- O leito é mole ou apergaminhado? Há impressão da trama do laço?
- O sulco é compatível com o laço apreendido em largura, textura e comprimento da alça?
- O sulco apresenta reação vital? Foi feito exame microscópico e, se possível, imuno-histoquímico de fragmentos do sulco e dos tecidos profundos?
- Havendo mais de um sulco, qual se formou primeiro e qual tem reação vital?
- O estado de putrefação permite afirmar ou afastar a vitalidade da constrição?
- O sulco foi fotografado com escala métrica e o material colhido está disponível para contraprova?
Opinião do Autor
O sulco deve ser tratado como vestígio, e não só como achado: medido, fotografado com escala, comparado com o laço e colhido para exame de vitalidade. Um laudo que apenas o descreve como “típico” não permite contraprova e deixa a investigação refém de interpretações posteriores.
Primeiro argumento: sem medida, não há comparação com o laço. A largura, a profundidade e a trama do sulco são as únicas pontes entre o corpo e o objeto apreendido. Quando faltam, a discussão sobre qual laço apertou o pescoço se transforma em opinião contra opinião, como mostram as divergências do caso PC Siqueira.
Fato fictício. O laudo descreve “sulco típico de enforcamento”, sem medidas, e o laço não foi apreendido. A defesa sustenta outro instrumento. Solução: o Delegado requisita complementação com as medidas a partir das fotografias com escala, busca o laço no local e pede a comparação. Se as fotografias não tiverem escala, registra a limitação no relatório.
Segundo argumento: colher tecido é barato, e não colher é caro. O fragmento do sulco pode ser examinado depois, por outro perito, com técnicas melhores. No caso Rohde, a falta desse material sustentou anos de controvérsia.
Fato fictício. Num enforcamento de pessoa presa, a família indica assistente técnico depois da necropsia. Solução: porque o Delegado requisitou a coleta e a guarda de fragmentos do sulco em cadeia de custódia, o assistente pode examiná-los e a contraprova se faz sem exumação.
Terceiro argumento: o laço e o nó são vestígios da mesma importância que o sulco. O tipo de nó, o comprimento da alça e a trama explicam o sulco. Por isso, quem retira o laço deve cortá-lo longe do nó e acondicioná-lo como vestígio.
Fato fictício. O policial que atende a ocorrência desfaz o nó para retirar o corpo. Solução: o Delegado registra a quebra da cadeia de custódia (CPP, art. 158-B), requisita a reconstituição do nó a partir das fotografias do local e orienta a equipe a cortar o laço longe do nó nos próximos casos.
Reconheço as posições contrárias. Hércules ensina que o sulco é, em regra, patognomônico, e na maioria dos casos uma boa descrição basta. A revisão de Maiese e colaboradores mostra que os marcadores de vitalidade ainda não estão validados, e há patologistas que duvidam do exame microscópico. Concordo com as duas observações, mas elas reforçam minha tese. Se a ciência ainda está avançando, o material colhido hoje poderá ser examinado amanhã. O que não foi colhido, nunca será.
Em resumo: o sulco conta a história do laço, desde que alguém o meça, fotografe e guarde.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Como o tema cai na prova
Nas objetivas, as bancas pedem o quadro comparativo do sulco (oblíquo, interrompido e alto contra horizontal, contínuo e baixo) e associam os sinais aos nomes dos autores: Ponsold, Thoinot, Azevedo Neves, Neyding, Ambroise Paré, Lesser e Bonnet. Também gostam da linha argentina e das exceções do enforcamento incompleto. Nas discursivas, o caso típico é o do corpo com dois sulcos, em que o candidato deve analisar a direção e a vitalidade de cada um. Nas orais, como na PC-RO 2022, o examinador pede os sinais externos e internos do enforcamento.
Perguntas frequentes
O que é o sulco no enforcamento?
É a marca deixada pelo laço no pescoço. No enforcamento, costuma ser oblíqua ascendente, alta, interrompida no nó e mais funda na alça. É o principal sinal externo da modalidade.
Qual a diferença entre o sulco do enforcamento e o do estrangulamento?
O do enforcamento é oblíquo, interrompido, alto e de profundidade desigual. O do estrangulamento é horizontal, contínuo, mais baixo e de profundidade uniforme. Há exceções, como o enforcamento incompleto e o estrangulamento por trás.
O que é linha argentina?
É a faixa clara e brilhante vista contra a luz pela face interna da pele do sulco. Decorre da expulsão de líquidos e do ressecamento da pele comprimida. Forma-se também depois da morte e, por isso, não prova que o sulco foi feito em vida.
Como saber se o sulco foi feito com a pessoa viva?
Pela reação vital: sangramento nos tecidos sob o sulco e nos músculos do pescoço, hemorragia em volta de fraturas, inchaço da língua e pequenas hemorragias. O exame microscópico de fragmentos do sulco reforça o diagnóstico, e a imuno-histoquímica é promissora, mas ainda não está validada.
O sulco pode faltar no enforcamento?
Sim, excepcionalmente. Laços muito moles e largos, suspensões curtas ou um tecido entre o laço e a pele podem deixar marca mínima ou nenhuma (França, 2017; Croce, 2012).
Questões discursivas
Questão 1 (até 15 linhas)
Explique os fatores que determinam a profundidade e a continuidade do sulco no enforcamento e indique duas situações em que o sulco de enforcamento pode assumir características próprias do estrangulamento.
Espelho de correção. A profundidade depende da largura e da consistência do laço (a pressão é inversamente proporcional à largura), do peso do corpo, do tempo e do grau de suspensão e da extensão da alça. A continuidade depende do tipo de nó: o fixo tende a deixar sulco interrompido; o corrediço pode marcar toda a circunferência. Situações de semelhança com o estrangulamento: enforcamento incompleto com apoio dos joelhos e corpo lançado para a frente (sulco horizontal e raso) e nó corrediço muito apertado (sulco contínuo). Pontuação: fatores da profundidade (4,0); tipo de nó e continuidade (3,0); duas situações de exceção (3,0).
Questão 2 (até 25 linhas)
Uma mulher é encontrada suspensa por um fio elétrico preso a um gancho de porta. O laudo descreve sulco oblíquo, apergaminhado e com linha argentina, sem infiltração hemorrágica, e equimoses arredondadas nas laterais do pescoço. Não foi colhido tecido para exame microscópico. O companheiro afirma que ela se enforcou. Analise o laudo e indique as providências do Delegado.
Espelho de correção. O apergaminhamento e a linha argentina não provam vitalidade, pois se formam também após a morte. A falta de infiltração hemorrágica sob o sulco sugere suspensão de cadáver. As equimoses arredondadas nas laterais do pescoço são compatíveis com a pressão das polpas digitais e sugerem esganadura. A hipótese é de esganadura seguida de simulação de enforcamento (CP, art. 121, § 2º, III, ou art. 121-A, conforme o contexto, e art. 347). Providências: complementação do laudo (CPP, art. 181), com exame microscópico de fragmentos, se ainda possível, e pesquisa de fraturas do hioide e da laringe; apreensão do fio e do gancho em cadeia de custódia (arts. 158-A a 158-F); perícia do local; raspado das unhas da vítima; exame de corpo de delito no companheiro; oitivas. Menção ao caso Rohde é diferencial. Pontuação: limites do apergaminhamento e da linha argentina (2,0); ausência de reação vital (2,0); leitura das equimoses (2,0); capitulação (1,5); diligências (2,5).
Conclusão
O sulco responde a duas perguntas diferentes. A direção, a continuidade, a profundidade, a altura e a largura dizem qual força apertou e com que laço. A reação vital diz se o pescoço foi apertado em vida. A primeira pergunta separa o enforcamento do estrangulamento; a segunda separa o suicídio da simulação. Para o Delegado, isso se traduz em quesitos precisos, laço preservado e tecido colhido, porque a leitura do sulco só é tão boa quanto o material que a sustenta.
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Leia também
- Enforcamento, estrangulamento e esganadura: o diagnóstico diferencial e o caso Herzog
- Asfixia mecânica: o que é, classificação, sinais e por que nenhum deles decide sozinho
- Perinecroscopia: o exame do local de morte e o que o Delegado deve fazer
Fontes consultadas
- Código Penal (arts. 121, 121-A e 347) — Planalto
- Código de Processo Penal (arts. 6º, 158-A a 158-F, 159, 160, 164, 165, 169 e 181) — Planalto
- Supreme Court of Appeal of South Africa — Rohde v The State (815/2019) [2021] ZASCA 134
- TimesLIVE — depoimento da patologista no caso Rohde (2017)
- Folha de Pernambuco — perícia particular no caso PC Siqueira
- SBT News — nova perícia contesta causa da morte de PC Siqueira (2026)
- Cebraspe — PC-RO 2022, prova oral de Medicina Legal, padrão de resposta
- MAIESE, Aniello et al. An overview on actual knowledge about immunohistochemical and molecular features of vitality, focusing on the growing evidence and analysis to distinguish between suicidal and simulated hanging. Frontiers in Medicine, v. 8, 2022. Disponível em: Frontiers in Medicine.
- CROCE, Delton; CROCE JÚNIOR, Delton. Manual de medicina legal. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
- FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina legal. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
- HÉRCULES, Hygino de Carvalho. Medicina legal: material didático. [S. l.: s. n.], [s. d.].
Sobre o autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá, com 15 anos de experiência policial, e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP). É professor de Medicina Legal, mentor de candidatos ao concurso de Delegado e autor de livros e e-books jurídicos. É mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco.
Aviso editorial — Este conteúdo tem finalidade educativa e expressa o entendimento doutrinário do autor. As questões e os casos hipotéticos foram elaborados para treino e não reproduzem fatos reais. Os casos reais citados remetem às fontes indicadas, e as pessoas acusadas são presumidas inocentes até o trânsito em julgado; no caso PC Siqueira, a investigação está em curso e não há conclusão definitiva. A leitura médico-legal de um caso concreto depende sempre do laudo oficial.
Aviso de atualização — Postagem publicada em 08/11/2026 como primeiro satélite da série sobre asfixias por constrição cervical. Será revista sempre que houver mudança legislativa, jurisprudencial ou doutrinária relevante, e também quando houver novidade na investigação do caso PC Siqueira.
