Fratura do hioide e da laringe: o que prova | Medicina Legal
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Medicina Legal – Fraturas do hioide e da laringe: o que provam, o que não provam e por que o caso Epstein dividiu os peritos.

Publicado em 8 de novembro de 2026.

Em uma frase: as fraturas do osso hioide e das cartilagens da laringe, com as lesões dos vasos do pescoço, confirmam que houve constrição cervical violenta e, quando têm hemorragia em volta, que ela ocorreu em vida, mas aparecem no enforcamento, no estrangulamento e na esganadura e dependem muito da idade, de modo que, sozinhas, não dizem qual foi a modalidade nem se houve homicídio, como mostrou a divergência entre os peritos no caso Epstein.

“Fratura do hioide é sinal de esganadura.” A afirmação circula em salas de aula, em petições e até em entrevistas de peritos, e é uma meia-verdade. Este post da série sobre asfixias por constrição cervical trata das lesões internas do pescoço: fraturas do hioide e da laringe, lesões das carótidas e lesões da coluna cervical. O panorama comparativo está no post-pilar sobre enforcamento, estrangulamento e esganadura, e o tema dialoga diretamente com o post sobre a esganadura.

A tese: a fratura do hioide ou da laringe confirma que o pescoço foi apertado com violência e, quando há hemorragia em volta, que isso aconteceu em vida. Mas ela aparece no enforcamento, no estrangulamento e na esganadura, e depende muito da idade da vítima. Sozinha, não diz qual foi a modalidade nem se houve homicídio. Na Opinião do Autor, defendo que a fratura reforça a prova mas não decide, e que o hioide e a laringe sejam guardados para contraprova, como manda o art. 170 do CPP.

Conceito

O pescoço tem, da superfície para dentro, os planos da pele, dos músculos, das vísceras e do esqueleto (Hércules). No plano das vísceras ficam as estruturas que as constrições cervicais fraturam:

  • Osso hioide: pequeno osso em forma de U, situado acima da laringe, logo abaixo da mandíbula, que não se articula com nenhum outro osso. Tem um corpo central e dois pares de projeções, os cornos maiores e os cornos menores.
  • Cartilagem tireoide: a maior cartilagem da laringe, que forma o “pomo de adão”. Tem duas lâminas e projeções para cima e para baixo, os cornos superiores e os cornos inferiores. Os cornos superiores se ligam aos cornos maiores do hioide por um ligamento.
  • Cartilagem cricoide: anel completo abaixo da tireoide, na passagem para a traqueia.

França (2017) e Croce (2012) estudam essas lesões entre os sinais internos de cada modalidade de constrição cervical e registram os epônimos clássicos: fratura do corpo do hioide (sinal de Morgagni-Valsalva-Orfila-Roëmmer), fratura dos cornos superiores da tireoide (sinal de Hoffmann), fratura do corpo da tireoide (sinal de Helwig) e fratura da cricoide (sinal de Morgagni-Valsalva-Deprez). A ruptura dos ligamentos entre essas peças é o sinal de Bonnet (França, 2017).

Classificação doutrinária: em que modalidade as fraturas aparecem

FonteEnforcamentoEstrangulamentoEsganadura
França (2017)Possíveis; coluna cervical nas quedas bruscasPossíveis; “raros no suicídio”Mais frequentes que no estrangulamento e no enforcamento
Croce (2012)Registradas entre os sinais dos planos profundos“Excepcionalmente”Mais frequentes que no estrangulamento
HérculesCornos maiores do hioide e cornos superiores da tireoide; podem ocorrer depois da morteFratura do escudo ou dos cornos da tireoideA modalidade que mais fratura; laringe é o órgão mais atingido
Nikolić et al. (2011), 557 enforcamentos suicidas57,3% com alguma fratura do hioide ou da laringe; mais comuns acima dos 30 anos——
Ubelaker (1992), revisão da literatura——Cerca de 34% com fratura do hioide e 34% com fratura da tireoide na esganadura

A tabela mostra o problema. A doutrina clássica diz que as fraturas são mais frequentes na esganadura, e isso é verdade na comparação entre modalidades. Mas a literatura também registra fraturas em mais da metade dos enforcamentos suicidas de uma grande série e em apenas cerca de um terço das esganaduras de outra revisão. Os números variam com a idade das vítimas, a técnica de dissecção e o desenho dos estudos. A consequência prática é que a presença de fratura não prova esganadura, e a ausência de fratura não a afasta.

Fundamentos técnicos

A idade muda tudo

  • Calcificação: nos jovens, apenas o hioide está calcificado, e as cartilagens da laringe são flexíveis. A calcificação das cartilagens começa por volta dos 30 anos e pode chegar à ossificação parcial nos idosos, o que as torna mais vulneráveis (Hércules).
  • Crianças: as fraturas do hioide são raras em crianças, cujas peças não estão totalmente ossificadas (Ubelaker, 1992).
  • Consequência: numa pessoa de 60 anos, a fratura é esperada mesmo num enforcamento suicida; num adolescente esganado, pode não haver nenhuma. A idade precisa constar de qualquer interpretação.

Onde as fraturas costumam estar

  • Enforcamento: há concordância de que as fraturas se situam nos cornos maiores do hioide e nos cornos superiores da tireoide (Hércules). Nikolić e colaboradores (2011) encontraram relação entre o lado das fraturas da tireoide e a posição do nó, mas concluíram que a fratura do hioide é um preditor fraco dessa posição.
  • Esganadura: a laringe é o órgão mais atingido, sobretudo os cornos superiores da tireoide. As fraturas da cricoide e do corpo da tireoide são incomuns, porque exigem força direta muito intensa, e são mais próprias dos traumas por objeto contundente (Hércules).
  • Objeto rígido no pescoço: cassetete ou bastão pressionado contra a frente do pescoço produz com frequência fraturas da laringe e dos anéis da traqueia (França, 2017).

A fratura foi feita em vida?

  • Hemorragia em volta do foco: quando a fratura ocorre em vida, o sangue do osso e das áreas calcificadas da cartilagem infiltra os tecidos vizinhos. É o sinal clássico de reação vital (Hércules).
  • Fraturas sem hemorragia: exigem cautela. Hércules adverte que podem ter ocorrido depois da morte e antes da retirada do corpo da forca, porque o peso continua agindo durante toda a suspensão e a resistência dos cornos pode ser vencida só depois da morte.
  • Exumações: no esqueleto, já não há partes moles para mostrar a hemorragia. França (2017) exige então a pesquisa de sinais vitais na linha de fratura, por exame histológico ou por microscopia eletrônica de varredura, que pode mostrar hemácias no foco. Também é preciso separar a fratura antiga, já consolidada, da recente e da produzida no manuseio dos restos.

Os artefatos da necropsia

O pescoço é a região em que a própria necropsia mais pode criar lesões falsas. Hércules recomenda abrir primeiro o crânio e retirar o encéfalo, para drenar o sangue das veias da cabeça e do pescoço. Assim, ao dissecar o pescoço, as veias já estarão vazias e o sangue não vai sujar a área nem imitar infiltrações hemorrágicas. A literatura internacional conhece esse risco como artefato de Prinsloo e Gordon, descrito em 1951. Hércules também alerta que o sinal de Amussat é pouco frequente e pode ser confundido com lesões feitas pela ponta da tesoura ao abrir a carótida. A manipulação descuidada do hioide e das cartilagens calcificadas também pode fraturá-los.

As lesões dos vasos

  • Sinal de Amussat: ruptura transversal da camada interna (íntima) da artéria carótida comum, logo abaixo da bifurcação. No enforcamento, é mais encontrado do lado oposto ao nó, onde a alça sustenta o peso (França, 2017).
  • Sinal de Friedberg: sangramento na camada externa (adventícia) da carótida.
  • Sinal de Étienne Martin: ruptura da camada externa da carótida.
  • Sinais de Lesser e de Ziemke: ruptura da adventícia das carótidas interna e externa e lesão da camada interna das jugulares, respectivamente, mais raras (França, 2017).
  • Distribuição: no enforcamento, as lesões vasculares são mais intensas do lado oposto ao nó; no estrangulamento, aparecem dos dois lados, na mesma altura e com a mesma intensidade (França, 2017). Na esganadura, Hércules diz que as carótidas costumam estar íntegras.

A coluna cervical e o enforcamento judicial

  • Queda brusca: nas execuções com queda longa, a coluna cervical pode fraturar ou luxar. Hércules descreve lesões entre a segunda e a terceira ou a terceira e a quarta vértebras, com ruptura da medula ou do bulbo, quando o nó fica perto da orelha. França (2017) registra a fratura do processo odontoide do áxis e a luxação da segunda vértebra (sinal de Ambroise Paré).
  • A “fratura do enforcado” é menos comum do que se pensa: num estudo de 34 vítimas de enforcamento judicial, James e Nasmyth-Jones (1992) encontraram a fratura clássica do áxis em apenas três casos e concluíram que os relatórios de necropsia da época eram muito imprecisos quanto às fraturas.
  • Enforcamento comum: sem queda livre, as lesões da coluna são raras.

O papel da tomografia

A tomografia computadorizada feita antes da necropsia permite localizar fraturas sem manipular as peças e documentá-las para contraprova. Num estudo australiano com 431 tomografias de cadáveres, Naimo e colaboradores (2015) encontraram fratura do hioide em 24% dos 25 enforcamentos analisados e observaram que, na maioria, o laço ficou abaixo do hioide (Forensic Science, Medicine and Pathology, 2015). A tomografia não substitui a dissecção, porque não mostra bem a hemorragia em volta das fraturas, mas reduz o risco de artefatos e preserva a prova.

Sinais e seus limites

SinalOnde apareceLimite
Fratura dos cornos maiores do hioideEnforcamento, estrangulamento, esganaduraNão distingue a modalidade; rara em crianças e jovens
Fratura dos cornos superiores da tireoideEnforcamento; esganadura (local mais atingido)Muito dependente da calcificação, que começa por volta dos 30 anos
Fratura da cricoide ou do corpo da tireoideForça direta intensa, objeto rígidoIncomum nas constrições por laço ou pelas mãos
Hemorragia em volta da fraturaFratura em vidaPode ser imitada por sangue da dissecção se as veias não forem drenadas
Fratura sem hemorragiaFratura depois da morte, inclusive durante a suspensãoNão prova simulação por si só
Fratura em esqueleto exumadoExumações tardiasExige histologia ou microscopia eletrônica; diferenciar de dano tafonômico ou do manuseio
Sinal de AmussatEnforcamento (lado oposto ao nó); estrangulamento (dos dois lados)Pouco frequente; confundível com lesão da tesoura
Fratura do áxisEnforcamento judicial com queda longaRara mesmo nas execuções; quase ausente no enforcamento comum
Ausência de fraturasQualquer constrição, sobretudo em jovensNão afasta a constrição nem a esganadura

Dispositivos legais aplicáveis

DispositivoPor que importa
CPP, arts. 158, 160 e 162Necropsia com dissecção do pescoço e descrição minuciosa de cada fratura: local, lado e presença de hemorragia
CPP, art. 170Nas perícias de laboratório, os peritos guardam material suficiente para nova perícia: o hioide e a laringe fraturados devem ser preservados
CPP, arts. 158-A a 158-FCadeia de custódia das peças anatômicas, das lâminas histológicas e das imagens de tomografia
CPP, art. 159, §§ 3º a 6ºAssistente técnico das partes, com acesso ao material probatório guardado, como nas divergências sobre fraturas
CPP, arts. 163 a 166Exumação para pesquisar fraturas e reação vital quando a primeira necropsia foi omissa
CPP, arts. 181 e 182Complementação do laudo e liberdade do juiz para aceitar ou rejeitar o laudo, no todo ou em parte
CP, art. 121, § 2º, III, e art. 347Homicídio por asfixia e fraude processual quando as fraturas desmentem a versão de suicídio ou de acidente

Casos reais

1. Jeffrey Epstein (Nova York, 2019): três fraturas e duas leituras

Fato. Na madrugada de 10 de agosto de 2019, o financista Jeffrey Epstein, de 66 anos, que aguardava julgamento por crimes sexuais, foi encontrado morto em sua cela no Centro Correcional Metropolitano de Nova York.

Conclusões periciais. A necropsia registrou fraturas dos dois lados da cartilagem tireoide e do lado esquerdo do hioide. A chefe do Instituto Médico-Legal de Nova York, Barbara Sampson, concluiu por suicídio por enforcamento. O patologista Michael Baden, contratado pelo irmão de Epstein, sustentou que o conjunto era mais compatível com estrangulamento homicida e disse nunca ter visto três fraturas desse tipo num enforcamento suicida. Sampson manteve sua conclusão e afirmou que não se pode tirar uma conclusão de um único achado. A reportagem do programa 60 Minutes registrou ainda que não havia fotografia do corpo na posição em que foi encontrado e que o laço recolhido como prova tinha as pontas dobradas e costuradas, e não cortadas, o que levantou dúvida sobre se era o laço usado (CBS News, 2020).

Desfecho. Em junho de 2023, a Inspetoria-Geral do Departamento de Justiça americano apontou negligência e falhas graves dos agentes penitenciários, como a falta de mais de 75 rondas obrigatórias, mas não encontrou evidência que contrariasse a conclusão de suicídio (NPR, 2023). Em julho de 2025, um memorando do Departamento de Justiça e do FBI reafirmou o suicídio, com base em imagens que, segundo o governo, mostram que ninguém entrou na área da cela naquela noite (Axios, 2025).

Lição médico-legal. As fraturas do pescoço de um homem de 66 anos, com cartilagens calcificadas, são compatíveis com enforcamento. Num estudo com 557 enforcamentos suicidas, mais da metade das vítimas tinha alguma fratura do hioide ou da laringe, e a média de idade do grupo com fraturas era de 54 anos (Nikolić et al., 2011). O que alimentou a controvérsia não foi a fratura em si, mas a falta de fotografia do local e as dúvidas sobre o laço. Sem o contexto, o mesmo achado admite duas leituras.

Em resumo

  • Jeffrey Epstein (Nova York, 2019): a necropsia achou três fraturas no pescoço. A legista oficial concluiu por suicídio; o perito contratado pela família, por estrangulamento homicida. Em 2023, a Inspetoria-Geral do Departamento de Justiça apontou negligência dos agentes da prisão, mas nada contra o suicídio, e um memorando do Departamento de Justiça e do FBI de 2025 o reafirmou. A lição: num homem de 66 anos as fraturas são compatíveis com enforcamento, e a polêmica nasceu da falta de foto do corpo na posição encontrada e das dúvidas sobre o laço.
  • Enforcamentos judiciais: num estudo de 34 executados, a clássica “fratura do enforcado”, na segunda vértebra do pescoço (o áxis), apareceu só em 3 casos.
  • Hioide de uma criança (Mississippi, 1988): o caso traz a revisão de Ubelaker (1992), com fratura do hioide em cerca de um terço das esganaduras e raridade dessa fratura em crianças.

2. Os enforcamentos judiciais (James e Nasmyth-Jones, 1992)

Fato. Os pesquisadores R. James e R. Nasmyth-Jones estudaram a coluna cervical de 34 pessoas executadas por enforcamento judicial, a modalidade em que a queda longa foi planejada justamente para fraturar o pescoço.

Conclusão pericial. A “fratura do enforcado” clássica, no áxis, apareceu em apenas três casos. Houve fratura do áxis, de qualquer tipo, em seis. A ocorrência das fraturas não se associou ao tamanho da queda, à data da execução, à idade ou ao carrasco, e os relatórios de necropsia da época se mostraram muito imprecisos quanto às fraturas (James e Nasmyth-Jones, Forensic Science International).

Lição médico-legal. Mesmo onde a fratura era o objetivo, ela foi minoria. As lesões do esqueleto do pescoço não seguem regras rígidas, e o perito deve descrever o que encontra, sem esperar o que o manual promete.

3. O hioide de uma criança (Mississippi, 1988)

Fato. Em dezembro de 1988, foram recuperados restos esqueletizados de uma criança no condado de Harrison, no Mississippi. O antropólogo forense Douglas Ubelaker analisou o caso e revisou a literatura sobre a fratura do hioide no estrangulamento.

Conclusão pericial. A revisão apontou fratura do hioide e da tireoide em cerca de um terço das vítimas de esganadura e da cricoide em cerca de 1%. Concluiu que a fratura do hioide ocorrida no momento da morte indica com frequência esganadura, mas que o estrangulamento por laço, o enforcamento e outros traumas do pescoço não podem ser afastados sem outras provas. Registrou também que essas fraturas são raras em crianças, cujo hioide ainda não está totalmente ossificado (Journal of Forensic Sciences, 1992).

Lição médico-legal. No esqueleto, a fratura do hioide pode ser a única pista de uma constrição cervical. Para valer como prova, porém, é preciso demonstrar que ocorreu no momento da morte, e não antes ou depois, e cruzá-la com o restante da investigação.

Casos hipotéticos

Hipótese 1: o idoso e o “caso Epstein”

Fato fictício. Um homem de 72 anos é encontrado enforcado no galpão de casa, com sulco oblíquo e interrompido na nuca. A necropsia descreve fratura dos dois cornos superiores da tireoide, com hemorragia. O filho, citando o caso Epstein, pede que a morte seja investigada como homicídio.

Solução: nessa idade, as cartilagens estão calcificadas, e fraturas dos cornos superiores da tireoide são compatíveis com enforcamento. O Delegado não descarta o pedido, mas o examina com os demais elementos: requisita ao perito que se manifeste sobre a compatibilidade das fraturas com a idade e com a posição do nó, sobre a vitalidade do sulco e sobre a existência de lesões de defesa ou de contenção; examina o local e ouve familiares. Se nada indicar terceiro, conclui pelo suicídio e explica ao filho, por escrito, por que as fraturas não alteram essa conclusão.

Hipótese 2: a jovem sem fraturas

Fato fictício. Uma jovem de 19 anos é encontrada morta no apartamento do namorado. Há escoriações em meia-lua no pescoço e pequenas hemorragias nos olhos. A defesa sustenta que não houve esganadura, porque a necropsia não encontrou fraturas.

Solução: aos 19 anos, as cartilagens da laringe ainda são flexíveis, e a ausência de fraturas é esperada mesmo numa esganadura. O Delegado requisita complementação do laudo com a descrição das infiltrações nos músculos e nos tecidos do pescoço, das equimoses digitais e da hemorragia nas cordas vocais, além do raspado das unhas da vítima. A investigação segue por feminicídio com emprego de asfixia (CP, art. 121-A, com a majorante do § 2º, V), apoiada no conjunto dos achados.

Hipótese 3: o hioide no esqueleto

Fato fictício. Restos esqueletizados de um homem desaparecido há dois anos são encontrados numa área de mata. O hioide apresenta fratura de um corno maior. Não há outras lesões no esqueleto.

Solução: a fratura pode ter ocorrido em vida, durante uma constrição, ou depois da morte, pela ação de animais, do solo ou do manuseio na coleta. O Delegado requisita exame antropológico com identificação da vítima, análise da fratura por histologia ou microscopia eletrônica de varredura para pesquisar sinais vitais (França, 2017), fotografias e radiografias, e a guarda do osso para contraprova (CPP, art. 170). Com o resultado, decide se a investigação seguirá por homicídio, sem concluir só com base na fratura.

Aplicação prática: o que o Delegado pergunta

  1. Foi feita dissecção do pescoço por planos, após a drenagem das veias pela retirada do encéfalo? Foi feita tomografia antes da necropsia?
  2. Há fraturas do hioide, da tireoide, da cricoide ou da traqueia? Em que local e de que lado?
  3. Há hemorragia em volta de cada fratura? Foi feito exame histológico dos focos?
  4. Qual o grau de calcificação das cartilagens, considerada a idade da vítima? As fraturas são compatíveis com a modalidade de constrição sugerida pelos demais sinais?
  5. A posição das fraturas é compatível com a posição do nó ou com a ação de mãos?
  6. Há lesões das carótidas (Amussat, Friedberg) ou das jugulares? De que lado e em que altura?
  7. Há lesões da coluna cervical? São compatíveis com queda brusca?
  8. Há possibilidade de alguma lesão ser artefato da necropsia ou do manuseio do corpo?
  9. O hioide, a laringe e as lâminas foram guardados para eventual contraprova?

Opinião do Autor

A fratura do hioide ou da laringe é prova de reforço, nunca de decisão. Ela confirma a constrição e, com hemorragia, a vitalidade, mas só ajuda a definir a modalidade e a causa jurídica quando lida com a idade da vítima, o sulco, as demais lesões e o local, e quando a peça é guardada para contraprova.

Primeiro argumento: a mesma fratura aparece nas três modalidades. As séries publicadas mostram fraturas em mais da metade dos enforcamentos suicidas de pessoas mais velhas e em apenas um terço das esganaduras. Quem conclui por homicídio a partir de uma fratura transforma uma frequência relativa em regra absoluta.

Fato fictício. Um relatório de inquérito afirma que “a fratura do hioide comprova a esganadura” num enforcamento de idoso, sem outras lesões. Solução: o Delegado requisita manifestação do perito sobre a compatibilidade da fratura com o enforcamento e corrige o relatório antes de qualquer indiciamento.

Segundo argumento: a ausência de fratura também não prova nada. Numa vítima jovem, a laringe flexível pode suportar uma esganadura sem fraturar. A defesa que se apoia na ausência de fratura comete o mesmo erro com o sinal trocado.

Fato fictício. O advogado de um investigado pede o arquivamento porque “não houve fratura no pescoço”. Solução: o Delegado junta ao inquérito a manifestação do perito sobre a idade da vítima e as demais lesões e mantém a investigação, se o conjunto indicar esganadura.

Terceiro argumento: sem a peça guardada e sem o local documentado, a divergência nunca se resolve. O caso Epstein mostra que dois peritos experientes podem ler as mesmas fraturas de modos opostos. O que permite decidir é o contexto: fotografia do corpo, laço, imagens. O CPP manda guardar material suficiente para nova perícia (art. 170), e isso vale para o hioide e a laringe.

Fato fictício. A família de um preso morto pede nova perícia nas fraturas do pescoço, mas as peças foram descartadas após a necropsia. Solução: o Delegado registra a falha, requisita a tomografia e as fotografias existentes, avalia a exumação (CPP, arts. 163 a 166) e recomenda ao instituto a guarda das peças nos casos de constrição cervical.

Reconheço as posições contrárias. França e Croce ensinam que as fraturas são mais frequentes na esganadura, e Baden, com décadas de experiência, viu no caso Epstein um padrão de estrangulamento. A frequência maior é real, e a experiência do perito importa. Mas uma frequência maior não é exclusividade, e é por isso que o laudo precisa explicar o achado à luz da idade e do contexto, e não apenas registrá-lo.

Em resumo: o hioide quebrado diz que o pescoço foi apertado; quem apertou, quem diz é o resto da prova.

Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil

Como o tema cai na prova

Nas objetivas, as bancas cobram os epônimos (Amussat, Friedberg, Morgagni-Valsalva, Hoffmann, Helwig), a regra de que as fraturas da laringe e do hioide são mais frequentes na esganadura e a fratura da coluna cervical nos enforcamentos com queda brusca. Também aparece a ideia de que a hemorragia em volta da fratura indica reação vital. Nas discursivas, o caso típico é o da exumação, em que o candidato precisa indicar o procedimento (CPP, arts. 163 a 166) e a pesquisa de vitalidade na fratura, como na prova de Delegado da PC-RJ 2021. Nas orais, como na PC-RO 2022, aparecem os sinais internos do enforcamento.

Perguntas frequentes

Fratura do osso hioide significa esganadura?

Não necessariamente. A fratura do hioide é mais frequente na esganadura, mas também aparece no enforcamento e no estrangulamento, sobretudo em pessoas mais velhas. Ela confirma que houve constrição violenta do pescoço, mas não diz sozinha qual foi a modalidade.

Por que jovens raramente têm fratura do hioide?

Porque, nos jovens, as cartilagens da laringe são flexíveis e o hioide ainda está em ossificação. A calcificação das cartilagens começa por volta dos 30 anos, o que as torna mais frágeis com a idade.

O que é o sinal de Amussat?

É uma ruptura transversal da camada interna da artéria carótida comum, logo abaixo da sua bifurcação, causada pela constrição do pescoço. No enforcamento, aparece mais do lado oposto ao nó.

Como saber se a fratura do pescoço ocorreu em vida?

Pela hemorragia nos tecidos em volta da fratura. Sem partes moles, como em esqueletos exumados, faz-se exame histológico ou microscopia eletrônica de varredura na linha de fratura para procurar sinais vitais.

O enforcamento sempre quebra o pescoço?

Não. A fratura da coluna cervical é própria das quedas bruscas, como nas execuções judiciais, e mesmo nelas é minoria. No enforcamento comum, sem queda, as lesões da coluna são raras.


Questões discursivas

Questão 1 (até 15 linhas)

Explique o valor médico-legal das fraturas do osso hioide e da cartilagem tireoide no diagnóstico das asfixias por constrição cervical, considerando a influência da idade e o diagnóstico de reação vital.

Espelho de correção. As fraturas indicam constrição cervical violenta e são mais frequentes na esganadura, mas ocorrem também no enforcamento e no estrangulamento; isoladas, não definem a modalidade nem a causa jurídica. A idade é determinante: a calcificação das cartilagens começa por volta dos 30 anos e torna as fraturas mais frequentes em pessoas mais velhas; em crianças e jovens, são raras. A reação vital se comprova pela hemorragia em volta do foco; fraturas sem hemorragia podem ser posteriores à morte, inclusive durante a suspensão; em esqueletos, exige-se histologia ou microscopia eletrônica de varredura. Pontuação: valor e limites do achado (3,5); influência da idade (3,0); reação vital e exumação (3,5).

Questão 2 (até 25 linhas)

Um preso de 65 anos é encontrado enforcado na cela com um lençol. O laudo oficial conclui por suicídio e descreve fraturas da cartilagem tireoide dos dois lados e do corno esquerdo do hioide. O assistente técnico da família sustenta que as fraturas indicam estrangulamento homicida. Não há fotografias do corpo na posição encontrada, e as peças anatômicas não foram guardadas. Como Delegado, analise a divergência e indique as providências.

Espelho de correção. Em pessoa de 65 anos, com cartilagens calcificadas, fraturas da tireoide e do hioide são compatíveis com enforcamento; também ocorrem no estrangulamento e na esganadura, de modo que o achado isolado não resolve a divergência. A falta de fotografias do local e de guarda das peças impede a contraprova e fragiliza ambas as conclusões, em afronta ao art. 170 e aos arts. 158-A a 158-F do CPP. Providências: requisitar ao perito manifestação sobre a hemorragia nos focos, a calcificação, a compatibilidade com a posição do nó, a vitalidade do sulco e eventuais lesões de defesa ou de contenção; requisitar tomografia ou exames de imagem existentes; avaliar exumação (arts. 163 a 166) com participação do assistente técnico (art. 159, §§ 3º a 6º); apreender o lençol, as imagens da unidade e os registros de rondas; ouvir agentes e presos. Considerar a responsabilidade do Estado pela morte de preso (CF, art. 5º, XLIX; STF, Tema 592) e eventual omissão funcional. Menção ao caso Epstein é diferencial. Pontuação: leitura das fraturas e da idade (3,0); falhas de preservação da prova (2,0); diligências periciais (3,0); demais diligências e responsabilidades (2,0).

Conclusão

As fraturas do hioide e da laringe e as lesões dos vasos do pescoço são achados fortes, mas não autossuficientes. Confirmam a constrição e, com hemorragia, a vitalidade, mas aparecem nas três modalidades e dependem da idade da vítima. O caso Epstein é a melhor ilustração: as mesmas fraturas sustentaram duas conclusões opostas, e o que faltou foi o contexto. Para o Delegado, a regra é ler a fratura com a idade, o sulco, as demais lesões e o local, e exigir que as peças sejam guardadas para contraprova.

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Fontes consultadas

Sobre o autor

Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá, com 15 anos de experiência policial, e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP). É professor de Medicina Legal, mentor de candidatos ao concurso de Delegado e autor de livros e e-books jurídicos. É mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco.

Aviso editorial — Este conteúdo tem finalidade educativa e expressa o entendimento doutrinário do autor. As questões e os casos hipotéticos foram elaborados para treino e não reproduzem fatos reais. Os casos reais citados remetem às fontes indicadas, e as pessoas acusadas são presumidas inocentes até o trânsito em julgado. A leitura médico-legal de um caso concreto depende sempre do laudo oficial.

Aviso de atualização — Postagem publicada em 08/11/2026 como quinto satélite da série sobre asfixias por constrição cervical. Será revista sempre que houver mudança legislativa, jurisprudencial ou doutrinária relevante sobre o tema.

Professor & Coach Delegado Ronaldo Entringe

O Delegado Ronaldo Entringe é um estudioso na área de preparação para Concursos Públicos - Carreiras Policiais, e certamente irá auxiliá-lo em sua jornada até a aprovação, vencendo os percalços que irão surgir nesta cruzada, sobretudo através do planejamento estratégico das matérias mais recorrentes do certame e o acompanhamento personalizado.