Sábado, 21h40. O celular de dona Marlene, 71 anos, vibra com um áudio no WhatsApp. É a voz do neto, Lucas, chorando: “Vó, pelo amor de Deus, me ajuda. Bati o carro, a moça se machucou e eu tô na delegacia. Não conta pra minha mãe, ela vai passar mal.” Segundos depois, liga um homem que se apresenta como “Dr. Ricardo, advogado de plantão”. Com voz calma e termos jurídicos, explica que é preciso depositar R$ 8.700 de fiança por Pix, ainda naquela noite, ou Lucas “dorme no presídio”.
Dona Marlene chega a abrir o aplicativo do banco. Só desiste porque o vizinho, que estava na sala, sugere uma coisa simples: ligar para o número antigo do neto. Lucas atende no segundo toque, de um aniversário, sem entender nada. O carro nunca bateu. A voz no áudio era dele, mas quem falava era uma inteligência artificial.

A história acima é fictícia, criada para fins didáticos. Mas cada elemento dela — a voz idêntica, o pedido de segredo, o “advogado” e a pressa — já aparece em alertas da polícia e em investigações reais pelo país. É o golpe da voz clonada.
Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. O caso narrado na abertura é fictício, e qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência. Os casos reais mencionados não identificam vítimas nem investigados além do que já foi divulgado pela imprensa, e o texto poderá ser atualizado se surgirem fatos novos.
1. O golpe em poucas palavras
Criminosos usam programas de inteligência artificial para imitar a voz de alguém que você conhece — um filho, um neto, o chefe, o advogado — e, com essa voz falsa, inventam uma emergência para que você mande dinheiro na hora. A voz convence; a pressa faz o resto.
2. Que crime é esse?
A voz clonada é só a ferramenta. O crime continua sendo, na maioria dos casos, um estelionato — enganar alguém para obter dinheiro. Conforme a situação, o enquadramento pode ser:
- Fraude eletrônica (art. 171, § 2º-A, do Código Penal), incluída pela Lei 14.155/2021: estelionato cometido com informações obtidas da vítima enganada por telefone, redes sociais ou mensagens. Pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa.
- Aumento de pena quando a vítima é idosa ou vulnerável (art. 171, § 4º): a pena pode chegar ao dobro — e o público idoso é justamente o alvo preferido desse golpe.
- Extorsão (art. 158 do CP), quando a encenação envolve ameaça — como no “falso sequestro”, em que a voz do familiar aparece pedindo socorro.
- Organização criminosa (Lei 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998), quando há quadrilha estruturada e o dinheiro passa por “contas laranja”.
- LGPD (Lei 13.709/2018): a voz é um dado pessoal e, quando usada para identificar alguém, pode ser considerada dado biométrico, de natureza sensível. O uso não autorizado reforça a ilicitude e pode gerar responsabilização civil.
Hoje, o Código Penal não traz um aumento de pena específico para o estelionato cometido com inteligência artificial. A Lei 15.123/2025 criou esse agravamento apenas para a violência psicológica contra a mulher (art. 147-B). Para o estelionato, tramita na Câmara o Projeto de Lei 2.426/2026, que propõe aumento de um terço a dois terços quando o golpe usar tecnologia capaz de simular voz, imagem ou identidade.
3. Como o golpe acontece
Sem entrar em detalhes técnicos, o roteiro costuma ter quatro fases:
- Coleta (a abordagem silenciosa): o criminoso junta informações e amostras de voz que a própria pessoa deixou expostas — vídeos e áudios em redes sociais, entrevistas, lives, mensagens de status. As polícias também têm alertado para as chamadas “ligações mudas”, em que ninguém fala do outro lado, como possível forma de captar a voz de quem atende. Especialistas divergem sobre a eficácia desse método, mas a orientação de cautela vale.
- Gatilho emocional: a vítima recebe um áudio ou ligação com a voz conhecida, quase sempre em situação de desespero: acidente, prisão, sequestro, assalto, celular quebrado, problema no trabalho.
- Execução: entra em cena um segundo personagem — “advogado”, “policial”, “médico”, “gerente” — que dá ar de autoridade, explica o que fazer e impede que a vítima desligue para checar.
- Monetização: o pedido é sempre o mesmo: transferência imediata, normalmente por Pix, para conta de terceiro. O dinheiro é pulverizado em várias contas em poucos minutos.
No ambiente corporativo, a lógica é a mesma, com outro figurino: a voz clonada é a do diretor ou do dono da empresa, que liga para o setor financeiro pedindo um pagamento “confidencial e urgente” a um fornecedor.
4. Os gatilhos psicológicos explorados
- Afeto: é a voz de quem você ama. O instinto de proteger fala mais alto que a desconfiança.
- Medo: prisão, ferimento, sequestro — cenários que paralisam o raciocínio.
- Urgência: “tem que ser agora”, “o delegado só espera até as 22h”.
- Autoridade: o falso advogado, policial ou chefe dá ordens e usa jargão para soar oficial.
- Segredo: “não conta pra ninguém” — é o que impede você de checar com outra pessoa.
5. Sinais de alerta
- ☐ Pedido de dinheiro urgente, por Pix, com voz de familiar ou conhecido.
- ☐ Número desconhecido ou “novo”, ou a pessoa diz que “perdeu o celular”.
- ☐ Pedido para não contar a ninguém ou para não ligar de volta.
- ☐ Uma terceira pessoa (advogado, policial, médico) assume a conversa.
- ☐ A conta de destino está em nome de um desconhecido.
- ☐ A voz é parecida, mas a pessoa evita responder perguntas pessoais ou desconversa.
- ☐ Fiança, alvará ou “liberação” cobrados por Pix — polícia e Justiça não funcionam assim.
6. Como se proteger
- Crie uma “palavra-senha” da família: uma palavra ou pergunta que só vocês conhecem. Em qualquer pedido de socorro com dinheiro, peça a senha. É a defesa mais simples e mais eficaz.
- Desligue e ligue de volta para o número que você já tinha salvo, ou fale com outro familiar. Nunca confirme pelo mesmo número que pediu o dinheiro.
- Faça perguntas que só a pessoa saberia responder — e que não estejam nas redes sociais.
- Reduza a exposição da voz e da rotina: perfis fechados, cuidado com áudios públicos e com informações sobre viagens, escola e trabalho.
- Diante de ligações mudas, evite falar primeiro; bloqueie e denuncie o número.
- Configure limites de Pix mais baixos no período noturno e cadastre contatos de confiança no aplicativo do banco.
- Nas empresas: nenhum pagamento fora do fluxo sem dupla aprovação e confirmação por outro canal, ainda que o pedido venha “do presidente”.
7. Já fui vítima: o que fazer
- Ligue imediatamente para o seu banco pelos canais oficiais e peça a contestação da transação pelo MED – Mecanismo Especial de Devolução do Pix. Cada minuto conta para bloquear o dinheiro antes que ele seja sacado.
- Preserve as provas: não apague a conversa nem o áudio. Faça prints que mostrem o número, a data e a hora; guarde o comprovante do Pix e os dados da conta de destino.
- Registre boletim de ocorrência na delegacia ou na delegacia virtual do seu estado, anexando as provas.
- Denuncie o número à plataforma (WhatsApp, Telegram, operadora) e avise a pessoa cuja voz foi imitada — ela pode estar sendo usada para enganar outros parentes.
- Consulte o Registrato, do Banco Central, para verificar se há contas ou empréstimos abertos em seu nome.
- Se o banco não resolver, registre reclamação no consumidor.gov.br e no Banco Central.
E o mais importante: quem cai nesse golpe não é ingênuo. A tecnologia foi feita para enganar justamente quem ama e quer ajudar. A vergonha só favorece o criminoso; denunciar ajuda a polícia a chegar à quadrilha.
8. Quem corre mais risco
- Idosos: alvo preferido do “golpe do neto”. Combine a palavra-senha com pais e avós e repita a regra: dinheiro urgente só depois de confirmar por outro caminho.
- Pais de jovens que viajam ou moram fora: o golpista explora a distância e a dificuldade de checar na hora.
- Pessoas com processos na Justiça: o “falso advogado” usa dados reais do processo e voz parecida com a do advogado verdadeiro para cobrar “taxas” de liberação.
- Empresas e setores financeiros: a voz clonada do diretor é usada para autorizar pagamentos.
- Quem tem voz pública (influenciadores, professores, comunicadores, autoridades): há muito material disponível para imitação — e seus seguidores e familiares devem ser avisados.
9. Casos reais
Operação “Advocacia Mais Segura” (São Paulo, maio de 2026). Em 19 de maio de 2026, a Polícia Civil de São Paulo prendeu oito suspeitos de integrar uma quadrilha do golpe do falso advogado. Segundo a polícia, o grupo movimentou cerca de R$ 10 milhões entre outubro de 2025 e abril de 2026, usando inteligência artificial para reproduzir a voz de advogados. As vítimas tinham processos em andamento e recebiam documentos falsos e pedidos de dinheiro para “liberar” valores ou alvarás. Doze vítimas haviam sido identificadas até então; uma delas, de São José do Rio Preto, perdeu R$ 35 mil. Também foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão e uma ordem de bloqueio de bens.
Empresa de energia no Reino Unido (2019). Considerado o primeiro caso documentado de fraude com voz sintética: o executivo de uma empresa britânica transferiu cerca de US$ 243 mil depois de receber ligações com a voz imitada do chefe, inclusive com o mesmo sotaque.
WPP (2024). Golpistas tentaram enganar executivos da maior agência de publicidade do mundo usando a voz clonada do CEO em uma reunião virtual. A tentativa fracassou porque os funcionários desconfiaram do pedido.
Opinião do Autor
Na rotina da polícia judiciária, aprendi que o golpe muda de roupa, mas não de esqueleto. O falso sequestro por telefone existe há décadas; o que a inteligência artificial fez foi tirar do golpista a sua maior fraqueza: a voz errada. Por isso, não adianta confiar no ouvido. A defesa precisa ser um procedimento: desligar, confirmar por outro caminho e pedir a palavra-senha. Também insisto num ponto que pesa na investigação: a velocidade. Quando a vítima procura o banco e a delegacia nas primeiras horas, as chances de bloquear valores e rastrear as contas de passagem aumentam muito. Quando espera até o dia seguinte por vergonha, o dinheiro já se espalhou. Converse hoje com seus pais e avós. Essa conversa de cinco minutos vale mais que qualquer tecnologia.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal: Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes de Consulta
- Polícia prende membros da quadrilha do “falso advogado” em São Paulo — Portal Tela, 19/05/2026.
- Polícia de SP alerta sobre novo golpe da ligação muda; entenda — TNH1, 03/10/2025.
- Alerta: sua voz pode estar sendo usada por bandidos para aplicar golpe — A Tarde.
- Projeto prevê aumento de pena para estelionato cometido com uso de IA — Congresso em Foco, 2026.
- Lei nº 15.123, de 24 de abril de 2025 — Planalto.
- AI-Generated Deepfake Voice Used in CEO Impersonation Scam — OECD AI Incidents Monitor.
- Deepfake scam targets CEO of world’s biggest ad firm — The Guardian, 11/05/2024.
- Polícia prende membros da quadrilha do ‘falso advogado’ em São Paulo – Portal Tela, 19/05/2026
- Brasileiros já são alvo de golpe com clonagem de voz por IA – Canaltech
- Polícia de SP alerta sobre novo golpe da ligação muda – TNH1, 03/10/2025
- Alerta: sua voz pode estar sendo usada por bandidos – A Tarde
- AI-Generated Deepfake Voice Used in CEO Impersonation Scam – OECD AI
- Deepfake voice scam – IdentityIQ
- Case Study: Deepfake Attacks in Corporate Fraud – Governo da Austrália Ocidental
- WPP Executives Targeted by Deepfake Scam – OECD AI
- Deepfake scam targets CEO of world’s biggest ad firm – The Guardian, 11/05/2024
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Chamada para Mentoria
Fraude eletrônica, estelionato com uso de tecnologia e as novas formas de engenharia social estão cada vez mais presentes nas provas para Delegado de Polícia — na objetiva, na discursiva e na peça prática. Saber enquadrar o caso, identificar as diligências e fundamentar as representações faz diferença na aprovação.
Se você quer se preparar com quem vive a investigação no dia a dia, conheça a Mentoria para Delegado de Polícia.
Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Amapá e Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. Professor de Medicina Legal e escritor, é mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco. Atua como mentor de carreiras policiais e de futuros Delegados de Polícia.
