Boa parte dos golpes que tomam contas de WhatsApp — da falsa votação ao pedido do “código que chegou por engano” — depende de duas portas que o próprio usuário pode trancar em poucos minutos: a lista de aparelhos conectados e a verificação em duas etapas. Este guia mostra onde ficam, como usar e o que fazer se alguém já entrou na sua conta.

Aviso Editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Foi elaborado exclusivamente com base em fontes públicas, citadas ao longo do texto. Os nomes de menus podem variar ligeiramente conforme a versão do aplicativo e o sistema do celular. O texto poderá ser atualizado caso o WhatsApp altere seus recursos.
Série “Link disfarçado”
- Link disfarçado: 9 formas de esconder a armadilha que toma o seu WhatsApp, o seu celular e a sua conta bancária (postagem principal)
- “Vota em mim? É rapidinho”: o golpe da falsa votação que conecta o seu WhatsApp ao aparelho do criminoso
- Aparelhos conectados e verificação em duas etapas: o checklist de 2 minutos (você está aqui)
- “Segue o comprovante”: o arquivo disfarçado que instala um espião no seu celular e no seu computador
Resumo: as duas portas que o golpista tenta abrir
- Aparelhos conectados: o WhatsApp permite usar a mesma conta no computador, no navegador ou no tablet. Se um criminoso conseguir conectar o aparelho dele, passa a ler e enviar mensagens como se fosse você — sem derrubar o seu celular.
- Registro do número em outro celular: com o código que chega por SMS, alguém pode tentar instalar a sua conta em outro aparelho. A verificação em duas etapas acrescenta um PIN que só você conhece e dificulta esse sequestro.
Passo 1 – Confira os aparelhos conectados (30 segundos)
- Android: abra o WhatsApp, toque nos três pontinhos no canto superior e escolha Aparelhos conectados.
iPhone: abra o WhatsApp, toque em Configurações e depois em Aparelhos conectados. - Veja a lista: cada item mostra o tipo de aparelho ou navegador e a última atividade.
- Não reconhece algum? Toque nele e escolha Desconectar. Em caso de dúvida, use a opção de desconectar todos e reconecte depois só os seus.
- Repita a conferência periodicamente — por exemplo, toda vez que pagar uma conta do mês.
Importante: só use “Conectar um aparelho” quando você estiver conectando o seu próprio computador. Ninguém — nem votação, nem sorteio, nem “suporte” — tem motivo legítimo para pedir que você faça isso.
Passo 2 – Ative a verificação em duas etapas (1 minuto)
- Vá em Configurações → Conta → Verificação em duas etapas e toque em Ativar.
- Crie um PIN de seis dígitos que não seja data de nascimento, sequência ou repetição.
- Cadastre um e-mail de recuperação ao qual só você tenha acesso — e proteja esse e-mail também com verificação em duas etapas.
- Nunca informe esse PIN a ninguém. O WhatsApp não liga, não manda mensagem e não pede o PIN por e-mail.
Passo 3 – Camadas extras (30 segundos)
- Chave de acesso (passkey): se a opção aparecer em Configurações → Conta, ative. Ela usa a biometria ou o bloqueio de tela do celular e reduz a dependência do código por SMS.
- Bloqueio do aplicativo: em Configurações → Privacidade, ative o bloqueio por digital, rosto ou senha, para quem pegar o seu celular não abrir as conversas.
- Privacidade: restrinja quem vê foto, recado e “visto por último”, e quem pode adicionar você em grupos — dados abertos ajudam o golpista a montar a história.
- Aplicativo atualizado: atualize sempre pela loja oficial. Novos alertas de segurança só chegam a quem está com a versão recente.
Que crimes o golpista comete ao entrar na sua conta
- Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do Código Penal), criado pela Lei 12.737/2012 e endurecido pela Lei 14.155/2021.
- Fraude eletrônica (art. 171, § 2º-A, do CP), quando usa a conta para enganar seus contatos e obter dinheiro.
- Conforme o caso, associação ou organização criminosa e lavagem de dinheiro, além de violação de dados pessoais protegidos pela LGPD.
Como o golpista tenta passar por essas portas
A sequência quase sempre é a mesma: uma abordagem amigável ou alarmante (pedido de voto, “código enviado por engano”, falso suporte), um gatilho emocional (afeto, pressa, medo), a execução — a vítima digita um código, escaneia um QR Code ou informa o PIN — e a monetização, com pedidos de Pix aos contatos e coleta de dados. Os gatilhos mais usados são a confiança no remetente, a urgência e a ideia de que “é só confirmar”.
Sinais de que alguém entrou na sua conta
- Aparelho ou navegador desconhecido na lista de aparelhos conectados.
- Mensagens lidas que você não abriu, ou enviadas que você não escreveu.
- Contatos perguntando sobre pedidos de dinheiro ou de voto feitos “por você”.
- SMS com código de ativação do WhatsApp que você não pediu.
- Aviso do WhatsApp sobre tentativa de conectar novo aparelho.
- O WhatsApp desconecta sozinho e pede para confirmar o número de novo.
Já invadiram. O que fazer, nesta ordem
- Registre a prova primeiro: capture a tela da lista de aparelhos conectados e das mensagens suspeitas, com data e hora.
- Desconecte todos os aparelhos desconhecidos.
- Ative ou troque o PIN da verificação em duas etapas e revise o e-mail de recuperação.
- Perdeu o acesso? Reinstale o WhatsApp e confirme o número pelo SMS. Se pedir um PIN que você não criou, siga as opções de recuperação do próprio aplicativo e, se necessário, peça ao suporte a desativação temporária da conta.
- Avise seus contatos por outro canal.
- Se houve Pix, o pagador deve acionar o banco e pedir o MED – Mecanismo Especial de Devolução imediatamente.
- Boletim de ocorrência (presencial ou delegacia virtual) e denúncia no próprio WhatsApp.
- Se o golpista teve acesso a documentos ou dados bancários nas conversas, consulte o Registrato, do Banco Central, e acompanhe contas e empréstimos em seu nome; se a instituição não resolver, reclame no consumidor.gov.br.
Faça por quem você ama
Idosos e crianças raramente sabem que a lista de aparelhos conectados existe. Reserve cinco minutos para fazer este checklist no celular dos seus pais, avós e filhos. Em empresas, o WhatsApp comercial merece o mesmo cuidado: defina quem pode conectar computadores, confira a lista com frequência e desconecte aparelhos de ex-funcionários.
Caso real: o que mostram os alertas recentes
O alerta divulgado pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco em 28 de outubro de 2026, sobre a falsa votação de balé e bolsa de estudos, termina exatamente com a orientação deste guia: para quem já autorizou, abrir Configurações, entrar em Aparelhos conectados, desconectar os dispositivos desconhecidos e avisar os contatos. Pesquisadores que analisaram a campanha GhostPairing chegaram à mesma conclusão: muitas vítimas só descobrem a invasão quando conferem essa lista. Em março de 2026, a Meta passou a exibir alertas para pedidos suspeitos de vinculação — mais uma razão para manter o aplicativo atualizado e ler com atenção qualquer aviso antes de confirmar.
Opinião do Autor
Costumo dizer que segurança digital é feita de hábitos pequenos. Quem trancou a porta de casa não precisa de alarme sofisticado para evitar a maioria dos furtos; com o WhatsApp é igual. A verificação em duas etapas e a conferência dos aparelhos conectados não custam nada, levam dois minutos e eliminam boa parte das ocorrências de conta sequestrada que chegam às delegacias.
Um detalhe que faz diferença na investigação: antes de desconectar o aparelho intruso, registre a tela. A informação sobre o tipo de dispositivo e o horário da última atividade ajuda a reconstruir o que aconteceu.
Ronaldo Entringe, Delegado de Polícia Civil
Aviso de Atualização Legal: Este conteúdo reflete o panorama legislativo e o entendimento dos tribunais vigentes em novembro de 2026. Considerando a suscetibilidade de alterações no cenário normativo, recomenda-se a validação das diretrizes atuais antes de qualquer tomada de decisão. A presente publicação destina-se exclusivamente a fins informativos, não substituindo uma análise técnica e individualizada da matéria.
Fontes
- TJPE alerta população sobre golpe aplicado por meio de mensagens no WhatsApp — Tribunal de Justiça de Pernambuco, 28/10/2026.
- Como saber se o WhatsApp está conectado em outros aparelhos — Canaltech.
- Golpe no WhatsApp finge ser post no Facebook e rouba conta do usuário — Tecnoblog.
- Meta lança novas ferramentas de IA antifraude no WhatsApp e Facebook — Tecnoblog, março/2026.
- Golpe de invasão de conta do WhatsApp pede que você “vote no meu amigo” — Malwarebytes, 03/08/2026.
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Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil do Estado do Amapá, atualmente Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR/PCAP), com 15 anos de experiência policial. É professor de Medicina Legal e escritor, mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência pelo Instituto Rogério Greco. Atua também como mentor de carreiras policiais e de futuros Delegados de Polícia.
