Atualizado em 30 de setembro de 2026.
Crioscopia no afogamento: o que o ponto de congelamento do sangue revela e o que ele não prova
Como o Método de Carrara compara o sangue dos dois lados do coração para indicar a submersão vital, por que a literatura atual o trata com reservas e o que o Delegado deve requisitar diante de um corpo retirado da água.
Introdução: o cadáver na água não conta sozinho como morreu
Um corpo retirado de rio, praia, represa ou piscina traz uma pergunta que decide o rumo do inquérito: a pessoa morreu afogada ou já estava morta quando entrou na água? No primeiro caso, a investigação apura acidente, suicídio ou homicídio por afogamento. No segundo, há um “Falso Afogado”: alguém que morreu por outra causa e cujo corpo foi lançado na água, em regra para simular acidente.
A Crioscopia do Sangue é um dos exames laboratoriais que a doutrina clássica propôs para responder a essa pergunta. Aparece com frequência em provas de Delegado, quase sempre cobrada de forma mecânica (“em água doce o ponto de congelamento sobe; em água salgada, desce”). Este texto explica o princípio físico, o raciocínio fisiológico por trás do método, os seus limites científicos e o reflexo disso na requisição, nos quesitos e na tipificação.
1. O afogamento como asfixia mecânica
Afogamento é a modalidade de asfixia mecânica em que o meio gasoso respirável é substituído por um meio líquido que penetra nas vias aéreas. A Organização Mundial da Saúde, desde o Congresso Mundial sobre Afogamento de 2002, define o afogamento como processo de comprometimento respiratório decorrente de submersão ou imersão em líquido, e não mais apenas como resultado morte. A definição importa porque desloca o foco para o mecanismo (a entrada de líquido nas vias aéreas de uma pessoa viva), que é justamente o que a perícia precisa demonstrar.
A diferença entre causa médica e causa jurídica da morte deve ficar clara desde o início. A causa médica é o mecanismo fisiopatológico (asfixia por submersão). A causa jurídica é a circunstância que a produziu: acidente, suicídio ou homicídio. A crioscopia, quando útil, aproxima-se da primeira. A segunda depende da investigação.
2. O princípio físico: por que o sangue congela abaixo de zero
Crioscopia (ou criometria) é o estudo do abaixamento do ponto de congelamento de um solvente causado pela dissolução de partículas não voláteis. A água pura congela a 0 °C ao nível do mar. Ao se dissolverem sais, proteínas ou glicose, a temperatura de congelamento diminui. Quanto maior o número de partículas dissolvidas por quilograma de solvente, maior o abaixamento.
Trata-se de uma propriedade coligativa: depende da quantidade de partículas dissolvidas, não da natureza delas. O sangue humano, que tem cerca de 290 a 300 miliosmoles por quilograma de água, congela aproximadamente entre −0,55 °C e −0,57 °C. É o valor adotado por FRANÇA (2017) e por CROCE; CROCE JÚNIOR (2012). Croce registra ainda a estabilidade desse índice no vivo, a ponto de valores fora de uma faixa estreita serem considerados patológicos.
A lógica aplicada ao afogamento é direta. Sangue mais diluído congela mais perto de zero (ponto crioscópico elevado). Sangue mais concentrado congela mais longe de zero (ponto crioscópico rebaixado).
Para dimensionar: a água do mar, muito mais concentrada que o plasma, congela em torno de −1,9 °C. A água doce de rios e lagos congela praticamente a 0 °C. O sangue fica entre as duas. Por isso a água aspirada puxa o sangue para um lado ou para o outro, conforme o meio.
3. O método de Carrara: comparar os dois lados do coração
O método foi proposto pelo médico-legista italiano Mario Carrara, em 1901. A ideia central é anatômica.
A água aspirada chega aos alvéolos pulmonares. O sangue que passa pelos pulmões retorna ao coração pelas veias pulmonares e entra nas câmaras esquerdas (átrio e ventrículo esquerdos). As câmaras direitas recebem o sangue venoso do restante do corpo, que ainda não teve contato com o líquido aspirado. Se a pessoa respirou água enquanto o coração batia, o sangue do lado esquerdo terá composição diferente da do lado direito.
A técnica descrita na doutrina consiste em ligar os grandes vasos da base do coração, retirá-lo, abrir separadamente as cavidades e colher o sangue de cada lado. O dado relevante não é o valor absoluto, mas a diferença entre o hemicoração esquerdo e o direito. CROCE; CROCE JÚNIOR (2012) indicam como significativa uma diferença da ordem de 0,03 °C a 0,06 °C.
O raciocínio inverso sustenta o diagnóstico do falso afogado. Se o corpo foi lançado na água já sem vida, não houve circulação para levar o líquido dos pulmões ao coração esquerdo. Os dois lados tenderão a apresentar ponto crioscópico semelhante e próximo do normal.
4. Água doce e água salgada: o que acontece e o que a crioscopia registra
| Água doce | Água salgada | |
|---|---|---|
| Tonicidade em relação ao plasma | Hipotônica (menos concentrada) | Hipertônica (mais concentrada) |
| Movimento da água por osmose | Dos alvéolos para o sangue | Do sangue para os alvéolos |
| Efeito no sangue das câmaras esquerdas | Diluição (hemodiluição), hemólise, liberação de potássio | Concentração (hemoconcentração), aumento de sódio, cloreto e magnésio |
| Ponto crioscópico do lado esquerdo | Sobe (fica mais perto de 0 °C) | Desce (fica mais longe de 0 °C) |
| Consequência pulmonar predominante | Absorção rápida do líquido | Edema pulmonar por acúmulo de água nos alvéolos |
Água doce. O líquido aspirado é menos concentrado que o plasma. Por osmose, a água passa dos alvéolos para os capilares e dilui o sangue que segue para as câmaras esquerdas. A diluição rompe hemácias (hemólise) e libera potássio (hiperpotassemia, também chamada hipercalemia). A teoria clássica associa esse quadro a arritmias. No laboratório, o sangue do lado esquerdo congela mais perto de zero que o do lado direito.

Água salgada. O líquido aspirado é mais concentrado que o plasma. A água sai do sangue em direção aos alvéolos, o que agrava o edema pulmonar, enquanto sais do mar passam para a circulação. O sangue que chega ao lado esquerdo está mais concentrado e congela mais longe de zero.
Os mesmos princípios sustentam exames correlatos da doutrina clássica. É o caso da Prova de Gettler (comparação da taxa de cloretos entre os dois lados do coração), da densidade do sangue, do resíduo seco, da condutibilidade elétrica e da dosagem de magnésio, esta última sugerida para o afogamento no mar (FRANÇA, 2017).
5. A crioscopia também aparece na tanatologia
As duas obras de referência tratam a Crioscopia também como recurso de Cronotanatognose, isto é, a estimativa do tempo de morte. Após o óbito, o ponto de congelamento do sangue se desloca progressivamente. CROCE; CROCE JÚNIOR (2012) atribuem ao método, para esse fim, valor apenas relativo, porque a variação ocorre de modo irregular. O candidato deve saber que o termo aparece nos dois capítulos, asfixiologia e tanatologia, com finalidades diferentes.
6. Os limites do método: por que a crioscopia perdeu espaço
A exposição acima corresponde à doutrina clássica. A literatura científica contemporânea trata os testes bioquímicos de afogamento com cautela, por quatro razões.
a) O volume aspirado costuma ser pequeno. Estudos clínicos e experimentais, em especial os de Modell, indicam que a maioria das vítimas humanas aspira volumes insuficientes para produzir as alterações eletrolíticas descritas em modelos animais, que usavam grandes volumes. A distinção fisiopatológica rígida entre água doce e salgada tem hoje peso clínico menor do que o ensinado nos manuais do século XX (BIERENS et al., 2016).
b) As alterações post-mortem interferem. Autólise, putrefação, hemólise cadavérica e difusão passiva de água pelos tecidos de um corpo que permanece submerso modificam a composição do sangue independentemente de ter havido afogamento. Quanto maior o tempo de permanência na água, menor a confiabilidade do resultado.
c) Fatores externos contaminam o resultado. Manobras de reanimação, infusão venosa no socorro, afogamento em água salobra (estuários) e doenças prévias podem produzir ou mascarar a diferença entre os dois lados do coração.
d) Nenhum achado isolado é conclusivo. Revisão recente aponta que nenhum achado de necropsia é patognomônico do afogamento, e a interpretação depende da integração entre informações do local, circunstâncias e exames complementares. O mesmo vale para o exame de diatomáceas, algas microscópicas cuja presença em órgãos fechados indicaria circulação ativa durante a submersão, e cuja confiabilidade também é debatida em razão de contaminação e de metodologias heterogêneas. nih
Divergência doutrinária a registrar. CROCE; CROCE JÚNIOR (2012) afirmam que a crioscopia tem valor para afirmar a causa jurídica da morte na submersão. A afirmação merece reserva. O exame pode, no máximo, reforçar a hipótese de submersão em vida, que é um dado sobre o mecanismo. Se o afogamento foi acidental, suicida ou homicida continua dependendo do conjunto probatório. FRANÇA (2017) situa a crioscopia entre vários exames laboratoriais de apoio, sem atribuir-lhe essa força. Há ainda uma imprecisão de redação no texto de Croce: ao tratar da água doce, fala em ponto “abaixo do normal”, mas “mais próximo de 0 °C”. O correto, pela própria lógica exposta, é ponto elevado, isto é, menos negativo.
7. O que muda para a investigação
O que o Delegado requisita. Necropsia completa, e não apenas exame externo, em todo cadáver retirado de meio líquido. Deve também requisitar exames complementares (histopatológico, toxicológico com alcoolemia e pesquisa de diatomáceas, quando disponível) e a coleta de amostra da água do local como material de controle. Essa amostra é vestígio e segue as regras de cadeia de custódia dos arts. 158-A a 158-F do CPP.
O limite da autoridade. A escolha do método laboratorial é do perito. Cabe ao Delegado quesitar, conferir se o laudo responde e, se necessário, requerer complementação ou nova perícia (CPP, arts. 181 e 184). Não se deve exigir crioscopia como se fosse exame decisivo.
Quesitos sugeridos (prontos para uso):
- Houve morte?
- Qual a causa da morte?
- Há sinais de que a vítima estava viva quando submersa? Quais?
- Há lesões produzidas antes da submersão? Em caso positivo, de que natureza, por que instrumento e em que região?
- Essas lesões, isoladamente ou em conjunto, foram suficientes para produzir a morte?
- Há vestígios de outra modalidade de asfixia (constrição do pescoço, sufocação)?
- Foram realizados exames laboratoriais para diagnóstico de afogamento? Quais, e com que resultados e limitações, considerando o tempo de permanência do corpo na água?
- É possível indicar o meio líquido (doce, salgado ou salobro) em que ocorreu a submersão?
- Há substâncias tóxicas ou álcool nas amostras colhidas?
- Qual o tempo estimado de morte e de permanência do corpo no meio líquido?
Reflexo na tipificação.
- Afogamento acidental sem responsabilidade de terceiro: fato atípico.
- Afogamento acidental com violação de dever de cuidado (salva-vidas, responsável por piscina, condutor de embarcação): homicídio culposo, art. 121, §3º, do CP, inclusive por omissão imprópria quando presente o dever de agir do art. 13, §2º.
- Afogamento provocado dolosamente: homicídio qualificado pelo emprego de asfixia (art. 121, §2º, III, do CP), sem prejuízo de outras qualificadoras.
- Falso afogado: a qualificadora depende da causa real da morte (esganadura, por exemplo, também é asfixia). O lançamento do corpo na água pode configurar ocultação de cadáver (art. 211) e, conforme o contexto, fraude processual (art. 347).
- Suicídio com participação de terceiro: art. 122 do CP.
8. Casos para compreensão
Caso fictício 1 — Rio (água doce). Um pescador é encontrado no rio Amazonas, próximo a Macapá. Os companheiros relatam queda acidental da canoa. O laudo descreve cogumelo de espuma, pulmões volumosos e ponto crioscópico do sangue do lado esquerdo mais próximo de zero que o do lado direito. O conjunto reforça submersão em vida. A investigação segue para verificar se houve briga a bordo, alcoolemia e omissão de socorro.
Caso fictício 2 — Praia (água salgada) e putrefação. O corpo de um turista aparece na praia após quatro dias. O companheiro afirma que ele desapareceu no mar. O perito registra putrefação avançada e declara que os exames bioquímicos, crioscopia incluída, perderam valor diagnóstico. O Delegado não trata o resultado inconclusivo como prova de acidente. Aprofunda a investigação por outras vias: câmeras, celulares, seguro de vida e histórico do casal.
Caso fictício 3 — Piscina (falso afogado). Uma mulher é encontrada na piscina de casa. O marido relata afogamento. A necropsia constata equimoses e escoriações ungueais no pescoço, fratura do corno do osso hioide e ausência de sinais de submersão vital, com crioscopia equivalente nos dois lados do coração. O quadro é de esganadura seguida de lançamento do corpo na água. A capitulação passa a ser feminicídio (art. 121-A do CP), com as circunstâncias do caso, em concurso com fraude processual.
Caso real. Em 2022, na Represa Billings (São Paulo), a versão de acidente com barco apresentada por suspeitos foi afastada quando o IML concluiu que a morte do ambientalista Adolfo Duarte decorreu de asfixia mecânica e não de afogamento. Segundo a delegada responsável, o exame detectou lesões no pescoço, e a linha de investigação mudou a partir do laudo. O caso mostra, fora do plano teórico, o valor da necropsia completa na hipótese de falso afogado. correiobraziliensecorreiobraziliense
9. Como o tema cai em prova
As bancas costumam cobrar quatro pontos:
- A direção do deslocamento do ponto crioscópico: sobe em água doce e desce em água salgada, no lado esquerdo do coração.
- O valor normal: cerca de −0,55 °C a −0,57 °C. Cuidado com alternativas que trazem outros números.
- A autoria do método: Mario Carrara.
- A comparação entre hemicoração esquerdo e direito: o candidato deve saber justificar por que o lado esquerdo se altera primeiro.
Em provas discursivas e orais, diferencia o candidato quem apresenta os limites do método e relaciona o achado à distinção entre afogamento verdadeiro e falso afogado, e daí à tipificação.
Em resumo!
Crioscopia: o termômetro que distingue a água doce da água salgada
Imagine um exame capaz de revelar, pelo ponto em que o sangue congela, em que tipo de água uma pessoa se afogou. Essa é a proposta da crioscopia, também chamada de criometria (estudo de quanto cai a temperatura de congelamento de um líquido quando se dissolve nele uma substância que não evapora, como o sal). O princípio é familiar a qualquer um. Ao nível do mar, a água pura congela a 0 °C. Basta dissolver sal nela para que passe a congelar abaixo de zero. A regra é invariável: quanto mais concentrada a solução, mais baixo o seu ponto de congelamento. O médico-legista italiano Carrara transformou essa lei da físico-química em ferramenta pericial. Ao medir o ponto de congelamento do sangue colhido das cavidades esquerdas do coração (átrio e ventrículo esquerdos, que recebem o sangue recém-chegado dos pulmões) e compará-lo com o do lado direito e com o valor normal, o perito passa a “ler” o que a água fez com o sangue nos últimos instantes de vida.
No afogamento em água salgada, a água que invade os alvéolos (minúsculas bolsas pulmonares onde o oxigênio passa para o sangue) é muito mais salgada do que o sangue. Pela osmose (movimento natural da água do meio mais diluído para o mais concentrado, para igualar as concentrações), é o sangue que cede água aos pulmões. Os alvéolos se encharcam com líquido retirado do próprio corpo da vítima, e a morte sobrevém por asfixia mecânica (privação de oxigênio causada pelo bloqueio físico da passagem do ar). Enquanto isso, o sangue que deixa os pulmões chega ao lado esquerdo do coração concentrado e mais denso do que o do átrio direito (câmara que recebe o sangue do restante do corpo). A crioscopia registra essa diferença com precisão: mais concentrado, esse sangue congela a uma temperatura mais baixa do que a do sangue normal.
No afogamento em água doce, tudo se inverte. Menos salgada do que o sangue, a água atravessa os pulmões e invade a circulação, provocando hemodiluição (diluição do sangue). O lado esquerdo do coração recebe um sangue mais ralo e menos denso do que o do lado direito. Essa diluição desencadeia uma reação em cadeia. As hemácias (glóbulos vermelhos) absorvem água, incham e se rompem, o que se chama hemólise. Ao se romperem, liberam o potássio que guardavam, gerando hiperpotassemia (excesso de potássio no sangue circulante). Na crioscopia, o retrato é o oposto do mar: diluído, o sangue do lado esquerdo congela a uma temperatura mais alta, mais próxima de zero, do que a do sangue normal.
É aí que reside a força do método. Uma única medida física, o ponto exato em que o sangue congela, funciona como uma assinatura deixada pela água. Um valor abaixo do normal aponta para o mar. Um valor acima aponta para o rio, o lago ou a piscina. Uma diferença marcante entre os dois lados do coração sugere que a vítima ainda respirava, e portanto estava viva, quando a água tomou seus pulmões.
Conclusão
A crioscopia traduz uma lei física simples (partículas dissolvidas rebaixam o ponto de congelamento) em uma hipótese fisiológica engenhosa: se houve respiração de água com o coração batendo, os dois lados do coração deixam de ter sangue igual. É ferramenta histórica, relevante para concursos e útil como apoio. Não é, porém, prova autônoma de afogamento, e muito menos da sua causa jurídica. Para a autoridade policial, a lição prática é exigir necropsia completa, quesitar sobre sinais de submersão vital e lesões prévias e não aceitar um laudo inconclusivo como atestado de acidente.
Referências
ARMSTRONG, E. J.; ERSKINE, K. L. Investigation of drowning deaths: a practical review. Academic Forensic Pathology, v. 8, n. 1, p. 8-43, 2018. DOI: 10.23907/2018.002.
BIERENS, J. J. L. M. et al. Physiology of drowning: a review. Physiology, v. 31, n. 2, p. 147-166, 2016. DOI: 10.1152/physiol.00002.2015.
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal.
BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal.
CROCE, Delton; CROCE JÚNIOR, Delton. Manual de medicina legal. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. (itens sobre asfixia-submersão e 10.4.2, “Crioscopia do sangue”)
FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina legal. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (capítulo de asfixiologia, afogamento, exames laboratoriais)
MODELL, J. H.; DAVIS, J. H. Electrolyte changes in human drowning victims. Anesthesiology, v. 30, n. 4, p. 414-420, 1969.
POLÍCIA prende suspeitos de matar ambientalista após laudo apontar asfixia. Correio Braziliense, Brasília, ago. 2022. Acesso em: 30 set. 2026.
TYR, A. et al. Diagnosing fatal drownings: a review of the postmortem findings. Forensic Science International, v. 364, 112251, 2024. DOI: 10.1016/j.forsciint.2024.112251.
Questões discursivas (inéditas)
Questão 1 — Princípio e método (nível médio; até 15 linhas)
Texto-base. Um corpo é retirado da Baía de Guanabara. O laudo informa que o sangue do hemicoração esquerdo congelou a −0,61 °C e o do direito a −0,56 °C.
Comando. Explique o fundamento físico da crioscopia, a técnica de Carrara e o que o resultado sugere.
Gabarito comentado. O candidato deve:
- Definir a crioscopia como abaixamento do ponto de congelamento proporcional à concentração de partículas dissolvidas (propriedade coligativa).
- Indicar o valor normal do sangue, cerca de −0,55 °C a −0,57 °C.
- Descrever a técnica de Carrara: ligadura dos grandes vasos, coleta separada do sangue de cada lado do coração e comparação entre eles.
- Justificar a comparação: as veias pulmonares levam o sangue que passou pelos alvéolos ao lado esquerdo.
- Concluir que o lado esquerdo rebaixado indica hemoconcentração compatível com aspiração de água salgada em vida.
- Ressalvar que o dado é indicativo e deve ser integrado aos demais achados.
Espelho de correção. Fundamento físico: 2,0. Valor normal: 1,0. Técnica e justificativa anatômica: 3,0. Interpretação do caso: 3,0. Ressalva de limites: 1,0.
Questão 2 — Falso afogado e tipificação (nível alto; até 25 linhas)
Texto-base. Um homem é encontrado em uma lagoa. A namorada relata que ele se afogou durante um banho noturno. O laudo aponta equimoses cervicais, ausência de espuma nas vias aéreas e crioscopia sem diferença entre os dois lados do coração.
Comando. Analise o valor probatório dos achados e indique a capitulação provável, a qualificadora e os crimes conexos.
Gabarito comentado. O candidato deve:
- Explicar que a ausência de diferença crioscópica, somada à falta de sinais de submersão vital, é compatível com imersão de um corpo já sem vida.
- Relacionar as equimoses cervicais à constrição do pescoço (esganadura ou estrangulamento), a ser confirmada pelo perito.
- Capitular como homicídio qualificado pela asfixia (art. 121, §2º, III, do CP), avaliando outras qualificadoras conforme o caso.
- Apontar possível fraude processual (art. 347) e ocultação de cadáver (art. 211), com análise do concurso de crimes.
- Indicar diligências: quesitos complementares, perícia de local e coleta de água, oitivas e cadeia de custódia.
Espelho de correção. Leitura dos achados: 3,0. Capitulação e qualificadora: 3,0. Crimes conexos: 2,0. Diligências: 2,0.
Questão 3 — Crítica ao método (nível alto; até 20 linhas)
Texto-base. Um laudo de corpo retirado de rio após cinco dias conclui que houve “afogamento acidental, conforme crioscopia”.
Comando. Critique a conclusão pericial e indique a conduta do Delegado.
Gabarito comentado. O candidato deve:
- Distinguir causa médica de causa jurídica: o perito pode afirmar o mecanismo, mas o caráter acidental depende da investigação.
- Apontar a perda de confiabilidade da crioscopia com putrefação, difusão pós-morte e longo tempo de submersão.
- Registrar a divergência doutrinária: Croce atribui ao exame valor para a causa jurídica; França e a literatura atual o tratam como exame de apoio.
- Indicar a conduta: quesitos suplementares e pedido de complementação ou de nova perícia (CPP, arts. 181 e 184), além de exames de diatomáceas, histopatológico e toxicológico.
Espelho de correção. Distinção entre causas: 3,0. Limites do método: 3,0. Divergência doutrinária: 2,0. Providências: 2,0.
Observação editorial. As três questões foram condensadas nos blocos essenciais (texto-base, comando, gabarito e espelho), sem modelo de peça, porque nenhuma exige peça técnico-processual.
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Sobre o Autor
Ronaldo Entringe é Delegado de Polícia Civil com 15 anos de experiência de campo e atual Delegado-Chefe da Divisão Especial de Combate à Corrupção (DECOR) no Amapá. Aliando a prática policial à alta academia, é professor de Medicina Legal, mestrando em Ciberdelincuencia pela Universitat Oberta de Catalunya (Espanha) e pós-graduando em Crimes Cibernéticos, Cibersegurança e Inteligência. Escritor e mentor especializado em Carreiras Policiais, ele transforma sua vivência na linha de frente e seu conhecimento estratégico em um método de acompanhamento personalizado, desenhado para guiar candidatos obstinados à aprovação no concurso de Delegado.
Nota de Esclarecimento Metodológico e Autonomia Científica: A presente resolução técnico-jurídica, bem como os comentários, capitulações, teses dogmáticas e propostas de peças práticas constantes deste material, corporificam exclusivamente o entendimento doutrinário, a interpretação hermenêutica e a construção dogmática do seu Criador/Autor. O objetivo deste trabalho é elevar o nível de preparação do operador do Direito, municiando o candidato com argumentação de vanguarda, precisão vocabular e profundidade analítica indispensáveis à aprovação nas etapas discursiva, prática e oral das carreiras jurídicas de elite, com fundamento na pluralidade do pensamento jurídico e na oscilação de perfis entre diferentes comissões de concurso. Informa-se, por derradeiro, que a solução jurídica ora apresentada reflete o estado da legislação e da jurisprudência consolidadas na data de publicação deste estudo, atualizando eventuais entendimentos vigentes à época da aplicação originária da prova pela banca. Em razão da constante mutação legislativa e jurisprudencial nos Tribunais Superiores, recomenda-se ao candidato verificar eventuais atualizações normativas posteriores e atentar sempre para o marco temporal fixado no edital específico do seu certame.
